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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Olhar de imigrante

Por Marcos Vinicius Simon Leite

A saudade é uma emoção presente. Por mais calada, calma ou silente, é sempre uma emoção em potencial, pronta a irromper. Basta a combinação de poucos fatores para que ela apareça, nos remeta às suas origens e desperte questionamentos que podem ser positivos ou não.

Mensagens

Esses dias fui invadido por aquelas mensagens piegas de “feliz dia do amigo”. Embora meus amigos não tivessem combinado, foi como um ataque ordenado. Conseguiram, foram certeiros. Usar, na mesma frase, piegas e amigo, pode ferir um pouco a grandeza da segunda palavra. Mas não. A amizade é piegas. É assim porque é livre e só a liberdade sustenta uma amizade. É por isso que nem mesmo os amigos são capazes de demover alguém de partir para longe. É verdade. Se a família não suspende uma partida, os amigos tampouco. Fica, então, a saudade. É. É mesmo. Ela é o elo. O masculino do feminino.

Música

Eis que numa dessas mensagens veio também uma música. O gatilho perfeito. Em segundos me transportei ao lugar de onde parti e ao qual, sabe-se lá quando, estarei de volta. Há um ano retornava do Brasil. Foi a única vez que retornei ao pago nesses quase quatro anos de imigrante. Nem vou comentar os abraços que lá deixei. Mas voltando à música, só ela tem essa capacidade. Cria o cenário de aconchego dos nossos sentimentos, das memórias que surgem como fotografias guardadas por engano no fundo de uma gaveta. É preciso ter coragem para ouvir até o fim. A chance de provocar emoções íntimas é grande. Não ouvi-la, por completo, é como virar a cara para alguém com quem um dia trocamos intimidade. Não há receita. É preciso ouvir, resistir e depois de-cantar. São as sementes do amor que espalhamos e que, volta e meia, aparecem em nosso caminho, com a harmonia das notas musicais. Assim, quando menos esperamos.

Imagens

A situação piora quando vemos determinadas imagens dos lugares que marcaram nossa jornada. Estranho mesmo é quando prestamos atenção e percebemos que há algo de diferente. Quando nos custa reconhecer o lugar. Como se precisássemos sobrepor a imagem da memória com aquela que os olhos veem. É como nos sonhos. Sabemos onde estamos, mas o lugar está diferente. A mínima alteração causa uma sensação estranha, de abandono, de “desgarrio”, um despertencimento que condena aquele que optou por registrar novas memórias, novos caminhos e paisagens. E, por um instante, pequeno que seja, é como se estivéssemos a passear por um espaço que nunca foi nosso e que, ao mesmo tempo, ousamos dizer se tratar “da nossa terra”.

Olhar de imigrante

Este é o olhar do imigrante. Um personagem do planeta que resolveu pertencer a qualquer lado. Um sujeito que tem raízes, sim, mas que tenta levá-las consigo para onde quer que vá. E assim acabamos, neste dilema eterno de liberdade e segurança. A segurança que só as nossas raízes são capazes de dar. Com todos os limites que impõem à nossa liberdade, à nossa capacidade de ir além, de conhecer novas paisagens, de ter novas experiências e memórias. Até que chega o dia em que essa liberdade nos revela uma inconveniente verdade: quem sai e demora a voltar, acaba por não pertencer a lugar algum. Se as raízes são abstrações, não sei, mas quando as rompemos é preciso nos agarrar às memórias e não resistir à saudade. Se ela é a mais bela palavra dessa língua que chamamos de portuguesa, a memória é o pai do filho pródigo. Sempre acolhe o amor.

 

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