Pensar e falar sobre o tema suicídio pode gerar sentimentos de difícil assimilação às pessoas. Não é algo leve, mas, sim, até perturbador. Há tempos este assunto tem chamado a atenção da humanidade, que em muitas épocas acabou silenciando e evitando a abordagem. O mês de setembro é considerado um período fundamental para fomentar as discussões sobre a prevenção ao suicídio.
Este é o quarto ano consecutivo da Campanha Setembro Amarelo, organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM). No domingo (10) foi celebrado o dia mundial de prevenção ao suicídio.
O Jornal Bom Dia conversou com o médico psiquiatra Anderson Madalozzo, o qual salienta que, aos poucos, a sociedade está "quebrando o tabu" e ampliando o debate com o propósito de intensificar a prevenção, a qual deve, segundo o médico, ocorrer durante todo o ano. "O suicídio é um problema grave de saúde pública, que figura entre as 10 principais causas de morte na maioria dos países. O debate deve permear tanto o seio familiar, e assim, "quebrando o gelo", transmitindo aos filhos a mensagem de ser um tema passível de conversa. Do mesmo modo, nas atividades educativas da comunidade, na valorização do tema por professores e alunos nas escolas. A mídia tem um papel importante, e também, as decisões dos gestores no que tange aos investimentos em saúde pública, na promoção de saúde, ampliando o alcance das campanhas de prevenção", pontua.
Fatores (de risco) ao suicídio
Conforme o especialista, os transtornos psiquiátricos geralmente estão relacionados ao comportamento suicida. "Estima-se, retrospectivamente, que mais de 90% das pessoas que cometeram suicídio apresentavam alguma patologia mental. Os transtornos do humor, com ênfase para a depressão grave, seguindo-se o grupo dos transtornos relacionados ao uso de substâncias, notadamente o álcool, esquizofrenia e transtornos de personalidade são os mais implicados", comenta, citando que a história de tentativa de suicídio prévia também é preditor importante de risco. "Portanto, o reconhecimento e o tratamento destas situações pelos profissionais da área de saúde são determinantes para a prevenção", completa.
Taxas de incidência
Madalozzo explica que as taxas de suicídio vêm aumentando globalmente, com maior intensidade entre o público adolescente e adulto jovem (a faixa etária entre 15 e 24 anos foi o grupo com maior crescimento). "Os idosos (idade maior que 60 anos) correspondem ao outro grupo com elevadas taxas de suicídio. Os homens se suicidam de duas até quatro vezes mais que as mulheres. Desempregados e pessoas de baixa renda também são fatores sociais que indicam maior risco", alerta.
Sinais
De acordo com o especialista, mudança de comportamento como o isolamento social, sentimentos de desespero e desesperança, impulsividade e rejeições sociais são alguns dos sinais de alerta. "A interpretação destes sinais deve ser feita em conjunto com o contexto em que se apresentam, não podendo, sozinhos, predizer o suicídio", pondera.
Formas de prevenção
Cientificamente, as evidências indicam que a melhor forma de prevenção contempla uma gama de atividades. O médico destaca que intervenções sociais, entre as quais, proporcionar as melhores condições de vida possíveis na infância e adolescência (acesso a educação e saúde, medidas de inclusão social), são importantes. "Ao mesmo tempo, a adequada transmissão de informações buscando a conscientização das pessoas ajuda a desmistificar o comportamento suicida e levam a melhor identificação do problema e consequente encaminhamento ao profissional de saúde mental. O tratamento eficaz dos transtornos psiquiátricos e a maior atenção ao grupo com comportamento suicida, mais vulnerável, são essenciais", cita.
Trabalho no âmbito municipal
O Ambulatório de Saúde Mental (ASM) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Erechim possuem caráter aberto e comunitário, em que pessoas com sofrimento psíquico ou algum transtorno mental leve/moderado (ASM) ou grave e persistente (CAPS II) ou dependência química (CAPS-AD (álcool e drogas) são acolhidas por uma equipe multiprofissional, que de forma interdisciplinar, discute e planeja as melhores ações para o tratamento decada indivíduo.
"Busca-se, assim, vincular os pacientes em atividades que promovam a inserção social, participação de grupos terapêuticos e oficinas de trabalho, cultura e lazer, além do acompanhamento clínico e psicológico. O fortalecimento dos laços familiares e comunitários também são estratégias para a prevenção de agravantes como a fase aguda ("crise") das doenças mentais e internações hospitalares, ou uma consequência mais grave, como o suicídio", salienta o médico.