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Rural

A Itália no interior de Erechim

Relevo, cultivo da uva, dialeto, hábitos e costumes marcam o cotidiano e a história das famílias de imigrantes podem ser conhecidos nas Linhas América e São Brás

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Por Rosa Liberman - rosa@jornalbomdia.com.br
Foto Antonio Grzybowski e Davi Martinelli

A promessa de fartura em terra rica e o clima favorável para o cultiva da uva contribuíram para a imigração dos italianos no Alto Uruguai. Famílias inteiras chegaram à região, inserindo suas histórias no processo de colonização e desenvolvimento da “Capital da Amizade” e dos demais municípios. Aqueles que deixaram a pátria-mãe e saíram das “terras velhas” em busca de novas oportunidades em solo gaúcho, habitam o imaginário de netos e bisnetos e podem ser vistos em álbuns fotográficos. Mas o legado de trabalho, os hábitos, costumes e tradições, permanecem vivos nas gerações presentes.

Percorrer o interior das linhas América e São Brás é recordar o passado, viver o presente e projetar o futuro. Nas duas comunidades estão pelo menos 20 produtores de uva em aproximadamente 25 hectares. A produção média anual é de 500 toneladas de diversas variedades de mesa e uvas finas. Na Festa Di Bacco, realizada anualmente para celebrar a festa da colheita, a uva dos parreirais da região abastece o mercado regional, agrada paladares e transforma-se no líquido precioso que enche barris e, junto ao queijo, salame e polenta, representa mesa farta para italianos e brasileiros.

Vocação para o cultivo da uva

O agricultor Avelino Bianchi (62) reside com sua esposa Laides na Linha América. Seu pai, Ricieri, foi o segundo morador a chegar na localidade há 79 anos. Ele conta que o avô veio de Vicenza, uma província italiana na região do Vêneto, aos 20 anos de idade com sua esposa. Chegou a São Paulo e de lá se mudou para Caxias do Sul, onde começou a produção de uvas. Teve oito filhos que ficaram por aquela região e depois foram se mudando, um deles foi para Monte Alegre e o outro, Ricieri, para a região do Alto Uruguai. “Meu pai preferiu a Linha América porque ficava a apenas cinco quilômetros do centro da cidade, mais perto para comercializar as uvas”, diz, comentando que nasceu naquela localidade e tem mais cinco irmãos. Ele e outro irmão são produtores de uva e não pensou em ter outra atividade. “Gosto da uva porque é uma atividade tranquila, gostosa. Trabalhamos por sete meses no ano e depois folgamos. Não tenho vocação para criação de animais”, conta. Dos seus três filhos, o Alex também está seguindo seus passos e já trabalha nas parreiras.   

São 5,2 hectares cultivados na propriedade. A produção anual, em períodos de normalidade do clima e ausência das doenças, ultrapassa 100 toneladas de uva branca, rosa e preta. Avelino diz que não conhece a Itália, mas já viu vídeos mostrando o local e segundo ele, entre as diferenças está o tamanho das propriedades. “Na Itália as áreas são menores, parecido com pequenos canteiros, aqui são maiores. Apesar de termos áreas planas ou morros, temos áreas maiores”, diz, enfatizando que a semelhança é a presença de vinho, salame e queijo na mesa de todo italiano.

Quatro gerações em São Brás

Imigrante da Itália chegou ainda criança ao Brasil. Ao atingir a idade adulta, vindo de Nova Roma, GuerinoDariva mudou-se no ano de 1909 para a região de São Brás. Naquele mesmo ano nasceu Abramo, o primeiro dos dez filhos. Pai e filho cultivavam uvas. E a mesma atividade predomina na propriedade do neto, que herdou do avô e manteve a tradição da família. Dos três filhos, Joel (33), permanece com os pais na linha São Brás e segue a atividade herdada pelo seu bisavô. São quatro gerações dedicadas ao cultivo da fruta.

Guerino diz que a comunidade onde mora é formada somente por italianos. E a cultura é bem presente. “Nos fins de semana nos reunimos no salão da comunidade para jogar bocha e baralho. Mas acima de tudo, quando uma família está em dificuldades, as outras ajudam. Isto está no sangue do italiano. E isso acontece em nossa comunidade”, ressalta.

O produtor não sabe ao certo o porquê da escolha de seu avô pela comunidade São Brás, depois de deixar as chamadas ‘Terras Velhas’. “Pelo que recordo, naquela região não havia mais terras para serem adquiridas e meu avô viajou e acabou chegando aqui, onde permaneceu”, conta.

A localidade tem áreas acidentadas, propícias ao cultivo da uva. A propriedade tem 80 hectares, onde a família trabalha em três hectares de parreiras com as variedades Isabel, Niágara e Rainha Itália, mais direcionadas para a produção de vinhos. No restante da terra são cultivados milho, soja e trigo, além de um aviário. “Resolvemos diversificar as atividades para garantir mais renda. Mas mantemos a produção de uva por ser uma atividade que está em nossas raízes e também nos dá prazer”, explica.

Guerino (65) reside com a esposa Zeni, o filho Joel e o irmão, Cerilo (75). Eles vivem na casa paterna de madeira que foi adquirida há 75 anos e passou por reformas. Mas a estimativa é de que ela tenha, pelo menos, 90 anos. 

O agricultor comemora que sua propriedade terá sucessão. O filho Joel, formado em Administração de Empresas, pretende continuar na agricultura. “Trabalhar como empregado na cidade ele não tem uma renda igual a que pode ter no campo, além disso, apesar de ser um trabalho mais difícil, ele gosta da agricultura”, declara.

De pai para filho

Com voz calma e tranquila, AldericoVicini (81), ao lado da neta Tamara (18), conta a história de seu avô paterno, José, que veio da Itália por volta de 1875, junto com seu pai Francisco, fugindo dos momentos de dificuldade econômica, em busca de trabalho e uma situação de vida melhor e de trabalho. Com uma parada na Argentina, trabalharam na colheita de trigo, onde juntaram dinheiro e puderam adquirir duas colônias de terra em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, onde Francisco formou sua família. Em 1914 comprou o primeiro lote de terras na Linha São Brás, mas em 1922 é que foi morar no local e, aos poucos foi aumentando o tamanho da propriedade. “A família era grande. Éramos em oito irmãos e assim acabamos nos mudando para cá. A escolha da Linha São Brás, pelo que me lembro, foi porque era semelhante a Itália, pelo clima e também pelo relevo, com bastante morros”, conta.

No local a família cultiva grãos e a uva. Em uma das casas, mora Alderico, junto com um primo, Alfredo de 79 anos. E na casa ao lado reside um dos filhos, Maurício (50), com a esposa Ires (53), e as filhas Tais (23) e Tamara (18), e também a avó materna Santina (93). Alderico teve três filhos, dois homens e uma mulher.

Os homens trabalham na propriedade, dando a continuidade nos trabalhos agrícolas. Em cerca de 260 hectares cultivam principalmente a soja e também se dedicam a avicultura e a vitivinicultura. É a terceira geração seguindo a cultura italiana na Linha São Brás e na agricultura, mas a expectativa é de que uma nova geração continue também no local. Tamara que está cursando o ensino médio diz que pretende cursar a faculdade de Agronomia e continuar na propriedade. “Quero continuar aqui, com os princípios e costumes que aprendi e pretendo passar adiante para os meus filhos. Gosto daqui, sinto-me bem e não tem porque sair”, diz.

Entre os costumes italianos que não foram esquecidos estão os pertences mantidos de geração a geração. Os quadros na parede da casa lembram uma residência italiana, os retratos do casal, da família, fotos religiosas. “Mas o que pode ser lembrado é a união das famílias, as festividades, os costumes e a gastronomia. Aqui nunca falta polenta, salame, queijo e um bom vinho”, lembra Alderico. Ele ressalta ainda que estes costumes são mantidos e reforçados na comunidade São Brás. “Aqui é como uma família, pois todos se ajudam quando precisa. É uma comunidade pequena, mas a união é grande”, conclui.

Vale dos Parreirais

Visando mostrar a beleza das paisagens habitadas pelos colonizadores italianos, fortalecer os laços afetivos das famílias e desenvolver o turismo em Erechim, foi criado o passeio turístico envolvendo a Linha América, passando pelo São Brás, em direção ao Vale Dourado. Este trecho foi denominado Vale dos Parreirais.

O veterinário da Emater de Erechim, Walmor Gasparin comenta que nesta localidade são produzidas uvas e, somando com beleza das paisagens e a gastronomia italiana, o local passou a fazer parte do turismo rural.

Nos meses da safra da uva são organizados roteiros pela região. Além de contemplar o cenário europeu em território “Bota Amarela”, o turista tem a oportunidade de conhecer histórias das famílias, saborear a uva direto das parreiras, provar o vinho e as iguarias da culinária italiana, além levar consigo e desejo de voltar.

O Morro do Vicini é um ponto turístico localizado no Vale dos Parreirais. Construído há cerca de cinco anos com recursos do governo federal e contrapartida do município, o pórtico embeleza a propriedade e tem uma altitude de 730 metros.

Distante oito quilômetros da área urbana de Erechim o atrativo está localizado no ponto mais alto do município, de onde é possível observar os encantos do vale formado por pequenas propriedades rurais colonizadas, quase na sua totalidade, por imigrantes italianos. Do local é possível ver, ao Oeste, parte do território de Santa Catarina, enquanto que ao Leste, visualiza-se o limite do território urbano de Erechim, a partir do Bairro Jabuticabal, assim como a linha da BR 480, trecho Erechim-Barão de Cotegipe.

 

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