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Rural

No limite da fronteira agrícola

Desafio é melhorar o manejo e aumentar a produtividade na região formada por 32 municípios

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Por Rosa Liberman - jornalismo@jornalbomdia.com.br
Foto Arquivo BD

A soja é o principal grão produzido na região do Alto Uruguai. O cultivo da oleaginosa ocupa a maior parte da área agriculturável e representa a principal fonte de receita para a maioria dos 32 municípios. A soma da área geográfica – rural e urbana - totaliza mais de 636,4 mil hectares, ou, 6.405,30 quilômetros quadrados

Aproximadamente 70% deste território - 433 mil hectares – é utilizado pelo setor primário no cultivo de diferentes culturas: soja, trigo, milho, feijão, erva-mate, uva, pêssego, laranja, figo, cana-de-açúcar, laranja, bergamota. A pecuária e a produção de leite também estão inseridas na região predominantemente agrícola.

A bacia leiteira ocupa 30 mil hectares, enquanto a pecuária e a piscicultura despontam como oportunidades, especialmente na agricultura familiar. Outra alternativa para a diversificação das fontes de renda das propriedades rurais está ligada à produção de legumes e hortaliças. A olericultura, um dos ramos da horticultura que trata da produção, de alface, cenoura, chuchu, repolho, tomate, couve, beterraba, dentre outros alimentos, também aparece em destaque no cenário atual.

O restante, de acordo com o agrônomo da Emater Regional de Erechim, Nilton Cipriano de Souza, cortresponde a Áreas de Preservação Permanente (APPs), encostas de rios e morros, que não podem ser cultivadas. “Estamos no limite da fronteira agrícola na região”, afirma.

Municípios do Alto Uruguai

Na região habitada por 228.781 pessoas - 2,03% do total do Estado - segundo as estimativas do IBGE para 2015,  os produtores que conseguem aumentar um ou dois hectares, estão fazendo ou mudando de plantio manual para mecanizado. Apesar das limitações da região que apresenta muitas áreas de relevo acidentado, os agricultores encontraram alternativas para ocupar as terras. Cipriano comenta que a região da encosta do Rio Uruguai, tem mais morros, fator que permite a agricultura, mas com entraves. “Tem declividade forte, pedra no solo. Isso limita a nossa atividade agrícola. Mas pode ser usada, com frutas, por exemplo, porque não tem como entrar com maquinário”, comenta.

O desafio da região

O desafio então está em melhorar o manejo e aumentar a produtividade e, consequentemente, ampliar a rentabilidade das propriedades. Primeiramente, o agrônomo explica que o agricultor tem que trabalhar a gestão agrícola. “Ele tem que ter o domínio total do que produz e o que gasta para produzir. Assim, ele terá a atividade rentável. Ou seja, vai saber qual atividade está dando lucro e qual não está, para assim, redimensionar o seu trabalho. É aí que entra toda a parte técnica e social da Emater. Mas o grande foco é gestão da propriedade”, diz Cipriano.

 

Diversificação da produção

No Alto Uruguai a agricultura familiar está presente na maioria das propriedades rurais. E, quanto menor a propriedade, maior o número de atividades agrícolas. O agrônomo explica que tem uma atividade principal e outras secundárias. “Quanto menor a propriedade, maior o número de atividades alternativas que o produtor deve ter, para poder contar com várias fontes de renda.”

Tecnologias ao alcance de todos

“A vocação da região do Alto Uruguai é essencialmente agrícola e os agricultores sobrevivem dos campos retirando da propriedade o seu sustento”, ressalta o professor Antônio Sérgio do Amaral, coordenador do curso de Agronomia da URI Erechim.

O professor destaca que o homem do campo deve trabalhar com tecnologia, já que existem muitas disponíveis e que podem ser aplicadas para promover o aumento da produtividade em uma mesma área. Esse é o desafio, já que não há como ampliar mais a área cultivada na região. “Temos tecnologias em relação ao uso e conservação do solo, sementes, maquinário, tudo para ampliar a produtividade sem aumentar a área cultivada”, diz.

Com relação ao manejo do solo, o produtor precisa estar atento quanto à compactação, buscando adotar a correção do plantio direto que permite uma agricultura mais conservacionista. O professor Antônio Sérgio do Amaral, destaca que a simples adoção do plantio direto permite a sustentabilidade, por exemplo, com relação à questão do manejo das águas. “Quando usamos o manejo da água na cobertura do solo, além de minimizar o impacto, também são causados dois efeitos: a diminuição do efeito da gota da chuva e a promoção do aporte de matéria orgânica, que é um dos pilares do plantio direto. No momento em que adotamos práticas conservacionistas, além do aporte adequado de palha no solo, através do sistema de terraceamento, é possível armazenar água, quando se consegue fazer um terraço em nível, retendo a água da chuva na própria lavoura. Uma vez que o solo tenha condições físicas favoráveis para a infiltração da água da chuva, a água que eventualmente sobra para formar a enxurrada vai ser canalizada nos canais dos terraços em nível e permanece ali ao invés de ir para estradas danificá-las ou assorear os mananciais”, explica.

Entretanto, em algumas situações de solos mais rasos é difícil fazer o terraceamento, mas pelo menos pode-se adotar a rotação de culturas adequadas, intercalando com culturas de sistema radicular com palhas diferentes. Isso vai ao mesmo tempo propiciar condições favoráveis a qualidade do solo e fazer com que aumente a produtividade.

A biotecnologia, com materiais genéticos de alta qualidade também está ao alcance do produtor. O coordenador do curso de Agronomia da URI Erechim salienta que o próprio trigo teve grande desenvolvimento e está com variedades com alto potencial genético que se forem bem manejadas alcançam excelentes resultados. “Também temos tecnologias disponíveis na área de fertilizantes com resistência muito maior do que há alguns anos que, quando aplicados ao solo em situação adversa conseguem se manter por mais tempo”, comenta.

Em relação a maquinários, a agricultura de precisão permite tratamento diferenciado em áreas de baixa, média e alta complexidade que ajudam os produtores na gestão dessas diferentes propriedades.

Atualmente, há muitas tecnologias de controle integrado de pragas e novidades na área de inseticidas, menos agressivos ao meio ambiente e fungicidas com esses cuidados com segurança tanto do produtor como do consumidor. As grandes multinacionais estão preocupadas com o meio ambiente como um todo.

“Podemos produzir em larga escala dentro da perspectiva de conservação de sustentabilidade, respeitando a legislação, o uso correto dos agroquímicos, sem expor a saúde do produtor e do consumidor. A topografia, que é bastante acidentada, é o que limita a produção”, pondera.

Diversificação de sistemas de cultivo é essencial

Para o doutor em Fitotecnia/Produção Vegetal, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul, Leandro Galon, os produtores rurais da região do Alto Uruguai, em sua maioria, são agricultores familiares e possuem mais de uma atividade na propriedade. Segundo ele, o produtor necessita diversificar a produção com mais de uma atividade para poder manter-se na propriedade. “O produtor tem pouca terra e desse modo precisa cultivar o máximo possível para retirar seu sustento”, diz.

Já que a região não tem mais como expandir as áreas agrícolas, o professor Galon destaca que há ainda terras para explorar melhor a atividade ou pastagens degradadas. “O que ele tem a fazer é investir em tecnologias e assim, aumentar a produtividade, usando sementes de qualidade, rotação de culturas e planejamento”, salienta.

Para obter maiores ganhos na propriedade muito se fala em o produtor trabalhar como um empresário rural, tanto o grande como o agricultor familiar. Para isso, o professor Leandro Galon diz que é preciso assistência técnica de qualidade, com profissionais que saibam o que recomendar e como recomendar. “É preciso que a extensão rural venha novamente a ocupar o seu espaço, pois na atualidade nossa extensão rural está falida”, pontua.

Outro destaque é com relação à atividade que o produtor trabalha. Além de ser importante o planejamento com antecedência, adquirindo semente de qualidade, fertilizantes e agrotóxicos com valores mais em conta, é de suma importância que o agricultor saiba o que está fazendo. “Se ele vai cultivar soja, que saiba fazer a atividade, se vai produzir leite que seja realmente um produtor de qualidade”.

O doutor em Fitotecnia/Produção Vegetal destaca que é importante ter diversificação de sistemas de cultivo, produtos agroecológicos, orgânicos, convencionais, e que cada consumidor possa escolher o quanto quer pagar e o que quer consumir. Todos os tipos de agricultura são importantes para o Alto Uruguai, pois não temos só pequena propriedade ou agricultura familiar, temos também grandes lavouras que são importantes para a geração de renda e produção de alimentos na região. “Não podemos dizer que os alimentos orgânicos ou agroecológicos são mais ou menos seguros dos convencionais, pois depende muito de como são produzidos”, pontua.

 

A região produtora

Aratiba, Áurea, Barão de Cotegipe, Barra do Rio Azul, Benjamin Constant do Sul, Campinas do Sul, Carlos Gomes, Centenário, Charrua, Cruzaltense, Entre Rios do Sul, Erebango, Erechim, Erval Grande, Estação, Faxinalzinho, Floriano Peixoto, Gaurama, Getúlio Vargas, Ipiranga do Sul, Itatiba do Sul, Jacutinga, Marcelino Ramos, Mariano Moro, Paulo Bento, Ponte Preta, Quatro Irmãos, São Valentim, Sertão, Severiano de Almeida, Três Arroios e Viadutos.

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