Médico e doula falam da importância do respeito e responsabilidade com mães e recém-nascido
“Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer”. A frase do renomado cirurgião francês Michel Odent resume uma das premissas que regem o parto humanizado. Focado na experiência do nascimento e buscando respeitar as decisões e da mulher durante todo o contexto, este tipo de parto vem ganhando atenção especial e atraindo o interesse de gestantes que buscam, acima de tudo, vivenciar a emoção do nascimento do filho da melhor maneira possível.
Mas, apesar de ganhar espaço nas discussões sobre o nascimento e suscitar interesse de inúmeras mulheres, o parto humanizado ainda é alvo de muitas dúvidas e interpretações equivocadas. Primeiro porque não se trata de uma técnica de parto, tampouco significa parto domiciliar. Além disso, também não é o mesmo que parto natural. “O parto humanizado é aquele em que a parturiente tem o controle de todas as ações do parto, desde o posicionamento do nascimento, do uso ou não da medicação, das intervenções que podem vir a ser feitas e das escolhas para que o nascimento do bebê sejam respeitadas”, resume o ginecologista e obstetra Nelson Sabadin, que atua no Hospital Santa Terezinha.
Ele destaca que acima de tudo, a humanização do parto é definida pela maneira com que os profissionais envolvidos vão atuar. “Todos os partos deveriam ser humanizados, tendo a mãe no centro das ações, como protagonista do parto. Isso porque, a gente sempre leva mais em conta na humanização a experiência do momento, primando para que a mãe e o bebê fiquem bem, pois a experiência ao nascer é muito importante. Não adianta, por exemplo, ocorrer tudo bem no parto, a criança nascer bem mas a mãe ficar traumatizada com aquele momento, ou ficar num lugar onde não se sinta acolhida e respeitada em um momento tão importante como o nascimento de um filho. E para que o parto seja humanizado, é necessária uma série de ações, tanto do médico quanto da enfermagem, quanto de estrutura física”, explica.
Ao se referir à rede pública, o médico destaca também alguns desafios no acesso ao parto humanizado. “Em razão de que muitas vezes a demanda de atendimentos na rede pública é muito grande, os conceitos de parto humanizado acabam não sendo divulgados e muitas mulheres acabam não tendo conhecimento e esse é um grande desafio”, pontua. Neste contexto, ele destaca uma ação do Santa Terezinha que visa mudar este cenário. “Faremos um curso voltados às gestantes sendo que todas que se interessarem estão convidadas a participar. Nesta ocasião serão orientadas sobre assuntos como o parto humanizado, amamentação e sobre todo esse ciclo gravídico puerperal”, adianta, ao reforçar que em Erechim o Santa Terezinha foi um dos pioneiros na humanização do parto, desde a parte estrutural bem como o atendimento à mãe e ao recém-nascido. “Todas as ações são realizadas com o intuito de melhorar a experiência de parto”.
Sabadin lembra ainda a importância do respeito e responsabilidade às gravidades da gestação. “Há casos e casos, afinal, uma gestação de baixo risco se encaixa em uma situação, já uma gestação de alto risco tem uma conjuntura diferente, até porque a maternidade do Santa atende a toda uma região e também a central de leitos do estado e há sim casos graves. Mas mesmo nestes se tenta fazer com que o atendimento seja o mais humanizado possível”, explica.
O médico reforça, por fim, que a humanização do parto independe do lugar onde ele é feito. “A humanização é só o respeito à mulher, à nova mãe que está nascendo, ou aquela que mãe já tem filhos e está se renovando nesta função com a chegada de um novo bebê. Essa humanização precisa ser feita com respeito e responsabilidade de todos os envolvidos, pois quanto mais pessoas puderem acolher essa mãe e esse bebê que está vindo, melhor será a experiência”, completa.
Esforço conjunto para humanização
No esforço de tornar a humanização do parto uma premissa, o Santa Terezinha conta com duas técnicas de enfermagens que também são doulas. Uma delas é Marilei dos Santos Joroczniski. Ela destaca que a doula tem um papel fundamental na vida da mulher, ao passo em que é a responsável pelo apoio físico e emocional à parturiente. “Essa mulher que vai passar pelo momento divino que é o parto precisa ser apoiada, acolhida e respeitada e é essa nossa função enquanto doulas, pois damos esse suporte emocional, ajudamos com sugestões de posições, ajustamos a temperatura e a iluminação do ambiente e permanecemos com ela para que ela se sinta bem”, explica.
Neste sentido ela ressalta principalmente o fato de ser algo oferecido na rede pública. “Temos esse serviço pelo SUS e temos que ter orgulho de falar que somos referência em parto humanizado. Isso só é possível porque temos uma equipe preparada para atender a parturiente da melhor maneira possível para que ela se sinta respeitada e segura. Essa mudança nas práticas de parto só veio para somar e trazer melhoras”, avalia, ao reforçar que em qualquer atendimento de saúde precisa haver essa humanização.