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Agrotóxico pode causar alzheimer, anencefalia, autismo, câncer, disfunções sexuais, hipotireoidismo e diabetes

Só nesse ano foram liberados 190 produtos agroquímicos chegando a um total de 500 no Brasil. Segundo a classificação toxicológica e ambiental, apenas 19% dos agrotóxicos aparecem como pouco tóxicos ao homem, e 81% são de produtos, extremamente, altamente e medianamente tóxicos.

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Está comprovado que os agrotóxicos afetam a saúde das pessoas, diz Sandra
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

A 18ª Semana Municipal de Meio Ambiente e o 17º Fórum Regional de Meio Ambiente com o tema “Agricultura, Meio Ambiente e Saúde” encerrou sua programação, no dia de ontem, depois de muitas palestras, oficinas, debates e seminário. O secretário de Meio Ambiente de Erechim, Cláudio Silveira, e o gerente do escritório regional da Emater/RS-Ascar de Erechim, Gilberto Tonello, deram início ao evento, na manhã de quinta-feira (6), na Cantina Trentin (RS 420 Km 6), e ressaltaram a importância do evento, em discutir e refletir sobre temas que envolvem a produção agrícola e a saúde das pessoas, como os agrotóxicos.  

Impacto dos agrotóxicos  

A enfermeira Sandra Maria De Ré Busatta do Centro de Referência Regional em Saúde do Trabalhador (Cerest Alto Uruguai) abordou os impactos dos agrotóxicos na saúde humana.  

Identificação dos problemas

Segundo Sandra, há muitos estudos brasileiros que já identificaram problemas decorrentes do uso de agrotóxicos, por exemplo, “em más condições de trabalho; baixa escolaridade; aumento do risco por fatores socioeconômicos; equipamentos de proteção individual (EPI), inadequados, não disponíveis ou não utilizados; exposição de mulheres em idade fértil; exposição em idade precoce; receber orientação só do vendedor; destino inadequado de embalagens; pouca conscientização sobre os riscos dos produtos; uso de produtos classe; re-entrada na área pós aplicação; aumento da carga de exposição”.

Pulverização aérea

Conforme Sandra, a pulverização aérea se torna ainda mais grave devido à grande quantidade de veneno que penetra no ambiente por diferentes vias. Um estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que mesmo em condições ideais e total controle sobre fatores como temperatura, calibração e ventos, há normalmente uma “derivação técnica”. Outro ponto é que apenas 32% dos agrotóxicos pulverizados permanecem nas plantas, o restante, 49% vai para o solo e 19% para áreas circunvizinhas pelo ar.

Classificação

Outro dado importante destacado por Sandra é que na classificação toxicológica e ambiental, apenas 19% dos agrotóxicos aparecem como pouco tóxicos ao homem, e 81% são de produtos, extremamente, altamente e medianamente tóxicos. “Além disso, 44% desses compostos são muito perigosos ao meio ambiente”, diz.

Ela ressalta que essas classificações no Brasil são meramente figurativas, uma vez que não há diferença de um produto ser extremamente tóxico e pouco tóxico para os seres humanos. Já que podem ser comercializados e utilizados da mesma forma por qualquer usuário em quantidades ilimitadas. “Dos agrotóxicos mais citados, 77% são potencialmente carcinógenos e 21% potencialmente pré-carcinógenos”, afirma.

Intoxicação  

Conforme Sandra, os agrotóxicos entram no organismo pela pele, nariz ou boca. “Quem estiver manipulando agrotóxico tem que se prevenir adequadamente com o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI)”, ressalta.

A intoxicação pode ser por contato direto quando se prepara, aplica ou manuseia o produto. E por contato indireto, ou seja, contaminação da água e alimentos ingeridos.

Doenças   

De acordo com Sandra, está comprovado que os agrotóxicos afetam a saúde das pessoas e entre as principais doenças está o alzheimer, anencefalia, autismo, cânceres, disfunções sexuais, hipotireoidismo, diabetes, entre outras.

“Temos uma infinidade de tipos de cânceres que estão relacionados aos agrotóxicos de um modo geral, na agricultura, agropecuária, o uso doméstico e na saúde pública para controle de vetores. Tudo isso acaba de uma forma ou outra atingindo o ser humano e o meio ambiente”, afirma.

Sandra ressalta que o agricultor acaba sendo o mais atingido pelos agrotóxicos em função de que ele manipula e aplica, mas os consumidores, também, por ingerir alimentos contaminados adoecem da mesma maneira.

Efeitos no meio ambiente

Ela afirma que os agrotóxicos também agridem o meio ambiente, contaminam o solo, lençol freático, rios e lagos. “A presença de bioacumulativos contaminantes que permanecem no corpo de animais mortos, gerando contaminação de outros animais que se alimentam deles”, afirma.

Há, ainda, nesse contexto, conforme ela, o surgimento de pragas resistentes, empobrecimento do solo, diminuição da população de agentes polinizadores, destruição de habitat de pássaros em ambientes onde pesticidas são utilizados.   

“Um diretor da Monsanto em entrevista a um jornalista que o questionava sobre as ervas daninhas, se elas criassem resistência aos produtos agroquímicos, o que deveria ser feito? Aí ele respondeu: vamos voltar para a enxada e capinar”, lembra. Então, acrescenta Sandra, “essa utopia de que o agrotóxico diminui o trabalho e é mais barato não é verdade, porque vai chegar o dia em que os produtos não farão mais efeitos e teremos que voltar para o trabalho manual”.    

Liberado

Só nesse ano foram liberados 190 produtos agroquímicos chegando a um total de 500 no Brasil. “Sem contar aqueles proibidos que entram, clandestinamente, porque são mais baratos e o produtor acaba usando”, diz.

Aumento de doenças  

A palestrante enfatiza que não há um número quantificado, mas se observa um aumento muito grande no número de pessoas com câncer nas últimas décadas.

“O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estipulou que para 2018 e 2019 são em torno de 650 mil novos casos de câncer no Brasil. Um número muito alto. O Inca tem uma grande preocupação com isso porque temos inúmeros estudos no Brasil mostrando as consequências e malefícios do uso de agrotóxicos”, observa.  

Sandra destaca que hoje tem mais de 500 produtos agroquímicos liberados no Brasil. “Isso está descontrolado. Precisamos de políticas públicas novas, conscientização da população, porque nós também somos responsáveis quando vamos ao mercado comprar alguma coisa. Às vezes, não adianta só ficar esperando pelo governo”, afirma.   

Alternativas

Uma saída para contornar o uso abusivo de agrotóxicos é valorizar o pequeno agricultor, aquele que está produzindo organicamente. “Os alimentos podem custar um pouco mais, mas são mais saudáveis. Isso é uma forma de estimular mais agricultores a produzir de forma orgânica”, comenta.

No que diz respeito a monocultura como soja, milho Sandra afirma eu as mudanças virão a longo prazo. “Anos atrás os agricultores guardavam a semente de soja, milho para produzir no ano seguinte. Com os transgênicos não tem mais como fazer isso, o produtor vai ter que comprar a semente. A gente tem que recomeçar, buscar práticas mais sustentáveis”, diz.

A questão central

Segundo Sandra, falar de agrotóxicos é bem complicado e muito complexo, no entanto, “é extremamente importante conscientizar e educar, iniciando, principalmente, pelas crianças”.

Ela ressalta que se o produtor for usar o agrotóxico que o faça de maneira consciente, com todas normas de segurança, respeitando o período de carência para colher o produto e dispor esse alimento a população.

“O agrotóxico está presente e é uma realidade em toda a sociedade, o que temos que fazer é tentar o máximo possível nos proteger, usar de forma correta, o produto adequado, não utilizar produtos sem orientação, e agricultor tem que usar os equipamentos de proteção individual para se prevenir”, afirma.

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