O coordenador geral do Sindicato Unificado dos Trabalhadores do Alto Uruguai (Sutraf – AU), Douglas Cenci, vê com preocupação o momento em que vive a agricultura familiar. “Durante muitos anos usávamos o Dia do Agricultor para lembrar e comemorar as conquistas que tivemos, mas nesse último período, temos tido preocupações”, diz.
Segundo Douglas, uma das grandes preocupações era com a Reforma da Previdência, no entanto, os agricultores familiares estão praticamente fora dessa nova proposta. “Com exceção do tema da pensão, que nos preocupa”, afirma.
Para o representante do Sutraf, outra preocupação é com o setor de habitação rural. “Tínhamos um programa subsidiado que incentivava o agricultor a permanecer no campo e agora temos apenas uma linha de financiamento que inclusive encarece o custo ao agricultor”, afirma.
Outra questão importante é com relação ao aumento dos juros do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). “Estamos numa progressão, no ano que vem deve chegar a patamar de juros de mercado, o que não se via há décadas no Brasil”, afirma.
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), observa Douglas, ainda não foi extinto, por outro lado, não tem mais recursos. Essa era uma ferramenta fundamental para o produtor vender a sua produção e levar renda as famílias do campo.
“O conjunto de políticas públicas que permitiam a agricultura familiar sobreviver e se desenvolver, produzir alimentos, permanecer no campo, preservar o ambiente em que vivem, estão sendo extintas. Isso acaba desestimulando o agricultor e os jovens, e, principalmente, preocupando os idosos, pessoas que antes viam no meio rural a oportunidade de viver bem, em paz, na tranquilidade, com uma boa aposentadoria, e agora também se veem numa condição de redução de salário mínimo”, afirma.
Para o representante da agricultura familiar no Alto Uruguai, as perspectivas para frente são muito negativas, “o cenário atual é conturbado, a crise chega também no campo derrubando a renda do agricultor”.
Por outro lado, acrescenta Douglas, os compromissos que o agricultor familiar tem de produzir e plantar estão encarecendo e colocando o produtor numa situação difícil. “Está voltando a se ter a perspectiva do êxodo rural, que em alguma medida foi diminuída e agora ganha força”, observa. E, acrescenta, “quando se fala em êxodo rural é mais gente na cidade, mais gente desempregada, nas periferias, e aí o problema extrapola as condições da cidade também se organizar”.
Além disso, Douglas destaca que se o agricultor não produzir alimentos toda a sociedade fica dependente, a exemplo de outros países no mundo, que sofrem com crises alimentares, fala de comida.
“Temos esperança que é possível mudar essa realidade, melhorar, e que a sociedade e os governos entendam a importância da agricultura familiar no contexto de todo desenvolvimento e na produção de alimentos”, afirma.