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Rural

Censo Agropecuário sinaliza para avanços e desafios da agricultura familiar

Levantamento aponta que as evoluções tecnológicas favorecem a produção, contudo, é preciso ampliar incentivos para que o produtor permaneça no campo

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A mecanização influenciou a diminuição de mão de obra no setor nos últimos 11 anos
Por Izabel Seehaber
Foto Divulgação

Em torno de 40% do Produtor Interno Bruto (PIB) do Brasil é formado pelo setor agropecuário e na região Alto Uruguai o setor representa muita expressividade. Com o passar dos anos, inovações chegam ao meio rural e um dos desafios é manter e, principalmente, melhorar os subsídios ao produtores rurais, para que seja possível aliar a geração de emprego/ renda à qualidade de vida das famílias do campo.

Na sexta-feira (25) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados consolidados do Censo Agropecuário de 2017. O levantamento foi feito em mais de 5 milhões de estabelecimentos agropecuários de todo o País e destaca, entre outras, informações sobre agricultura familiar, mecanização, pessoas ocupadas e acesso à Internet.

A edição de 2017 aponta que 77% dos estabelecimentos agropecuários foram classificados como agricultura familiar. Segundo o levantamento, a agricultura familiar emprega mais de 10 milhões de pessoas, o que representa 67% do total de pessoas ocupadas na agropecuária em 30 de setembro do ano passado. A agricultura familiar também foi responsável por 23% do valor total da produção dos estabelecimentos agropecuários.

Conforme os levantamentos, 1.430.156 produtores declararam ter acesso (659 mil banda larga e 909 mil por internet móvel), um incremento de 1900%. Em 2006, apenas 75 mil estabelecimentos tinham acesso. O acesso a telefone passou de 1,2 milhão para 3,1 milhões.

Na opinião do gerente regional da Emater de Erechim, Gilberto Tonello, as mudanças que vem ocorrendo no setor são fundamentais para melhorar as ações no campo. “O produtor rural precisa se capacitar, ter acesso aos meios de comunicação e Internet, e estar preocupado em ser, cada vez mais, um profissional da área, independente da atividade em que atua. Nós enquanto servidores da extensão rural, consideramos que essas questões são muito importantes, pois temos uma atenção especial com a agricultura familiar”, destaca.

Tonello cita que a Emater oferece vários programas que possibilitam um suporte no trabalho rural, cujo impacto envolve desde questões sociais até ambientais. “Atuamos de forma a levar ideias para que as famílias possam viver com dignidade e em condições adequadas. Além disso, há os cursos que são disponibilizados junto ao Centro de Treinamento”, completa, citando, ainda, que várias são as entidades e instituições envolvidas na assistência aos produtores rurais. “A soma dos esforços é que vai melhorar o dia a dia dos produtores, para que eles tenham renda e qualidade de vida”, salienta.  

Conforme o censo, em 2017, 502.379 estabelecimentos informaram que usavam algum tipo de irrigação, um aumento de mais de 50%. O total da área irrigada cresceu 47,6% e somou 6,69 milhões de hectares. Segundo o gerente da Emater, na região isso pode ser comprovado. “Há programas estaduais que subsidiam os investimentos em microaçudes, por exemplo. A irrigação é fundamental. Quem possui água disponível na propriedade, deve investir”, frisa.

Em busca de mais incentivos

O coordenador geral do Sutraf-AU, Douglas Cenci, ressalta que, da mesma forma que mostra o censo, a região Alto Uruguai acompanha as evoluções e, mais, impulsiona esses resultados. “Conseguimos, a partir das políticas públicas e da organização dos agricultores por meio da cooperativas e do próprio Sindicato, melhorias em vários aspectos e condições nesse sentido. Do ponto de vista da habitação rural, por exemplo, encaminhamos, via cooperativa de produtores, mais de 4 mil casas na região. Na questão da Internet também há a Creral fornecendo um suporte especial no campo. O Pronaf, principalmente, possibilitou que os produtores aumentassem seus investimentos em máquinas, tecnologias de modo geral, com o foco em melhorar a produção”, reforça.

Com isso, melhorou a qualidade de vida do agricultor. No entanto, isso não quer dizer que ele permanece no campo.

Mais mecanização, menos trabalhadores

A mecanização alterou o perfil do trabalho no campo e influenciou a diminuição de mão de obra no setor nos últimos 11 anos. De acordo com o Censo Agropecuário 2017, o número de estabelecimentos com tratores aumentou 50% em relação ao último Censo, realizado em 2006. Durante esse mesmo período, o setor agropecuário perdeu cerca de 1,5 milhão de trabalhadores. O pessoal ocupado nos estabelecimentos agrícolas diminuiu 8,8%, indo de 16,6 milhões de pessoas em 2006 para 15,1 milhões em 2017. Esse número inclui a perda de 2,2 milhões de trabalhadores na agricultura familiar e aumento de 703 mil na agricultura não familiar.

Outro dado apresentado pelo último Censo Agropecuário é o envelhecimento dos produtores. O percentual com mais de 65 anos aumentou de 18% para 23% nos últimos 11 anos, enquanto o de produtores entre 25 e 35 anos caiu de 14% para 10%.

Principais preocupações

De acordo com Douglas, entre as principais preocupações que podem ser sinalizadas para os próximos anos está a manutenção de políticas públicas. “Se por um lado tivemos avanços em incentivos, não é o que está acontecendo no momento atual. No Programa de Habitação, por exemplo, não há mais recursos há quatro anos. Isso também acontece no Programa de Aquisição de Alimentos. Já o Pronaf registrou aumento nas taxas de juros e, por consequência diminuiu muito o subsídio do governo”, pontua.

Outra questão sinalizada pelo coordenador é que, há poucos meses do lançamento do Plano Safra, há somente 30% dos recursos liberados.

A cadeia da produção de leite, apontada como principal alternativa para a agricultura familiar na região Alto Uruguai, sofre sérios problemas. “Estamos vivenciando um desmonte da cadeia. Há um risco muito expressivo de perdermos muitos produtores que irão deixar o campo em razão da inviabilidade. Isso tudo acontece em um contexto em que há uma redução do consumo, em decorrência da crise econômica e falta de investimento do governo. Outro aspecto de preocupação é o mercado, sendo que o governo prefere importar leite do Uruguai, da Argentina, da União Europeia, do que valorizar o produtor brasileiro”, questiona.

Douglas enfatiza que o governo precisa olhar para a agricultura familiar como uma categoria que tem importância econômica e, ainda, manter uma visão considerando um espaço de vida. “Não basta termos produção, é preciso ter pessoas. Se os produtores deixarem o campo, irão para as cidades e irão ampliar os custos no meio urbano para sobreviver”, acrescenta.

Por fim, vale ressaltar que a agricultura familiar é a responsável por produzir alimentos. Tal questão é básica e motiva a necessidade de manter as pessoas em suas atividades. “O País não vai sobreviver somente produzindo soja, por exemplo”, alerta o coordenador do Sutraf.

Nesse sentido, ele frisa que o setor desempenha um papel essencial nos pequenos municípios e, tal reflexo, é diretamente projetado para as cidades maiores.

 

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