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Cultura

“Tem que ter dignidade, acima de tudo”

Para Adriano, o Natal é um marco de mudança, transformação em sua vida, foi quando resolveu tomar um rumo na vida. Conseguiu superar os seus problemas, desafios, e voltou a viver dignamente

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Adriano
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

O Natal é um marco de mudança, transformação, “derrota e vitória”, para Adriano José Caldeira, 40 anos, que trabalha na Associação dos Recicladores Cidadãos Amigos da Natureza (Arcan) como reciclador há quatro anos. Fui até entidade no Bairro Progresso de Erechim conhecer essa história. Ao chegar lá perguntei para Adriano qual era sua história, e ele responde prontamente: “A história é o fato de eu ser um ex-presidiário”, disse.

Conforme Adriano, o Natal é uma data muito importante para ele, porque foi preso no dia 19 de dezembro de 2010, e deveria ter saído em 18 de dezembro de 2016. “Não saí nesse dia, mas dezembro é um mês muito importante, é o mês da derrota e da vitória. O Natal é a minha data-chave, foi quando eu resolvi tomar um rumo na minha vida”, lembra.

Ele conta que foi preso por tráfico de drogas e ficou seis anos “fechado”, direto. “Passei todos esses anos sem passar o Natal com a minha família e meu filho, mas sempre estiveram do meu lado lá dentro. Continuei firme, esperando chegar a hora”, afirma.

Em 2016, Adriano lembra que sentia muita aflição para ver a família, porque estava tudo certo para ele sair, mas não foi liberado. “Saí no dia 28 de dezembro de 2016”, diz.  

Mudança

Dois anos depois de ser preso, em 2012, Adriano começou a frequentar cultos na cadeia. “E era aquilo ali que eu queria pra mim. Não quero mais saber daquela vida, me livrei de tudo e quero continuar assim”, disse. E, acrescenta, “quero continuar trabalhando, ganhar dinheiro honesto, porque tem que ter dignidade acima de tudo”. Hoje, vai quase todos os dias na igreja Assembleia de Deus.

Trabalho

Ele lembra que o primeiro emprego foi de lenheiro e depois foi trabalhar na Arcan. “Trabalhei buscando lenha no meio do mato, depois de lá, vim para cá, e não pretendo sair. O trabalho é bom, a turma é boa, é uma família, a gente passa 12 horas por dia aqui juntos”, disse.  

Religião

Mesmo sendo da Assembleia de Deus, Adriano respeita as outras religiões. “Toda a minha família é católica, só eu sou evangélico, passamos o Natal juntos, são 54 pessoas da família Caldeira, somos em 10 irmãos”, comenta. Ele enfatiza que o Natal é um momento, também, para comemorar a sua liberdade.

Apoio  

Adriano afirma que os seus familiares sempre o apoiaram, mesmo no período em que estava preso. “Depois que eu mudei, o apoio aumentou ainda mais, agora eles veem que sou uma pessoa que dá pra confiar. A droga era mais forte, mas enfrentei ela sem tomar nenhum remédio, só tomando vergonha na cara e na força de vontade. Porque era vergonha na cara que estava me faltando”, disse.

Infância

Pergunto para Adriano como foi sua infância, se havia Natal, e ele responde que sim. “Tinha Natal na minha infância, na medida do possível, porque a gente sempre foi pobre, mas meus pais faziam Natal todos os anos”, lembra.

Ele afirma que teve educação de família, um pai e uma mãe que disseram o que era certo e o que fazer na vida. “Optei por mudar de vida, porque quis, fiquei um tempo perdido, mas graças à Deus eu voltei para a realidade, e estou bem”, ressalta.

Prisão

Adriano conta que chegou a dormir numa cela com 23 pessoas, num espaço de 3 metros por 4 metros. “Quando fui preso já mudei os meus hábitos, larguei a bebida, droga e o cigarro”, diz. Ele lembra que teve que aguentar muito xingamento por ler a bíblia na prisão. “Não respeitam, tem que andar no ritmo deles, ritmo louco. Aquilo lá é um inferno”, ressalta.  

Família

“Só pensava em sair e tocar a minha vida, a minha ex-mulher me apoiava bastante, minha mãe, irmãos me apoiaram bastante, e eu tinha que mostrar pra eles que era capaz. Principalmente, mostrar pra mim mesmo que era capaz”, afirma. Adriano enfatiza que hoje tem um bom serviço, e só quer passar o Natal com seus familiares, mãe e irmãos. “Estou tranquilo, graças à Deus, e pretendo continuar assim”, diz.

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