Uma produção cinematográfica totalmente independente. Esse foi o resultado do curta-metragem, O Santo Quebrado, gravado em dois dias, nos dias 8 e 9 de janeiro de 2019, no município de Marcelino Ramos (RS). O filme tem direção e roteiro do padre Nelci Miranda, assistente de direção, Edson Rosa, e produção e fotografia de Giu Bernardi. Há cerca de uma semana o filme foi divulgado no YouTube.
Dom para fazer roteiros
“Além de ser padre, Nelci Miranda tem o dom de fazer roteiros, e ele estava querendo produzir alguma coisa há muito tempo, mas não encontrava ninguém. O Edson da Rosa, que é de Jacutinga, envolvido com o Seminário Nossa Senhora de Fátima, entrou em contato comigo, olhei o roteiro e disse que era possível fazer, isso foi em outubro de 2018 e janeiro gravamos”, conta Giu.
A história
O filme conta a história de um homem de mais ou menos 60 anos, que tem um trauma de infância, e tem a ideia de guardar santos quebrados. “Na religião católica quando quebra um santo o pessoal fica com aquela ideia: vou fazer o quê? Uns enterram, outros levam no cemitério, e o filme se passa dentro desse contexto, mas é um pouco mais profundo. O Santo Quebrado é próprio personagem, que vive na periferia da cidade, não tem muita aceitação da sociedade”, comenta.
Participação da comunidade
Segundo Giu, todos os atores que participaram do filme são da comunidade de Marcelino Ramos, pessoas que tinham acesso ao padre na época. “Então, todos eles se envolveram com esse roteiro”, diz.
Produção
Ele lembra que a produção do filme nos dois dias não foi uma tarefa fácil. “Foram dois dias bastante intensos, tivemos que repetir várias vezes algumas cenas, até pela complexidade do formato. Tivemos que ir atrás de um monte de santos quebrados, porque tinha que retratar a história do filme. O pessoal de lá foi extremamente gentil com nós”, lembra.
Uma curiosidade do curta-metragem é que toda luz utilizada no filme, na fotografia, é natural, foi aproveitada a luz ambiente. “Quando queríamos clarear uma cena abríamos uma porta, janela, e em alguns casos usamos a lanterna de dois celulares, nas cenas que ocorrem dentro da casa. E quando tinha que gravar à noite, utilizávamos um papel TNT preto e aí tapava toda a casa”, comenta.
Custo
O curta teve custo de produção avaliado em cerca de R$ 3 mil, dados os valores de gravação, edição, alimentação e gastos em geral.
Fato peculiar
Ele lembra de fato peculiar na produção do filme. “Num dos retornos de Marcelino Ramos a Campinas do Sul, acabamos sofrendo um acidente, rodopiamos na pista e batemos o carro num barranco. Sorte que tínhamos seguro”, relata.
Fascinante
Segundo Giu Bernardi, quem já produziu ou produz conteúdo audiovisual sabe do fascínio que é a 7ª Arte, o cinema. “Esse tem um gostinho diferente. É intrínseca a crítica; possui pitadas filosóficas. É profundo. O mundo pós-moderno, na composição capitalista no que tange o lado humanista está em cheque - não aquele de papel que aceita tudo que é valor, financeiramente falando”, comentou nas redes sociais.
Exclusão social
Giu afirma que o roteiro do padre Nelci Miranda é de uma sensibilidade ímpar. “Exclusão social, religiosidade, trauma e educação são elementos que dão o tom desse enredo impactante. A suavidade em traduzir em imagens o dia a dia "dos alguéns" que vivem às margens da bolha social é uma tijolada no painel de controle do sistema”, explica.
E, acrescenta em sua avaliação, “nós fazemos parte do sistema. Somos engolidos por ele todo dia. Às vezes, nos quebramos, mas não somos santos. Produzir com o mínimo é colocar em prática a concepção de ideia na cabeça e câmera na mão. Enquadrar e gravar não é só dar play. Decupar é essencial, tanto quanto sentir ou transmitir”.
Conforme Giu, Santo Quebrado é uma forma silenciosa de transmitir ao público que “conjugar verbo na primeira pessoa do singular não dá certo na tribo sapiens. Quando conjugados criam turbulências, ferem a alma e contaminam o cognitivo”. A partir de agora os produtores do curta vão tentar participar de festivais. “Esse é um desafio para nós”, afirma.
Fazer um filme
“Tendo uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, basta se desafiar a fazer. Hoje é possível produzir um curta com celular, por exemplo. Tem que ir atrás e colocar o projeto em prática. Embora a região não tenha essa cultura de produção audiovisual mais crítica, temos que quebrar esse paradigma e fazer com que, através dessa insistência, isso vire rotina em nossos meios de comunicação”, observa Giu.
Ele ressalta que toda produção que valorize “nossa história, que seja gravada nos municípios do Alto Uruguai é bem-vinda para fomentar e valorizar a nossa gente, as nossas ideias e todo o nosso potencial”.