A pandemia de coronavírus (covid-19) trouxe com o isolamento social uma série de desdobramentos na economia e na vida das pessoas. Um dos efeitos mais limitantes e problemáticos foi a impossibilidade de ir trabalhar, gerar renda para pagar as despesas da casa, as contas do dia, como alimentação, luz, água, telefone, moradia, transporte, saúde, enfim, para viver.
Os relatos a seguir são de profissionais que tiveram a sua vida afetada inicialmente pela crise econômica e, agravada, pelo isolamento social. Dois deles não se enquadram nos critérios para receber o auxílio do governo federal e aquele que conseguiu se cadastrar está tendo dificuldades para acessar os recursos. Os nomes não serão divulgados para preservar a identidade das pessoas.
“Queimei as economias”
Num dos relatos, um dos entrevistados que é empresário prestador de serviços, disse que a crise para ele começou antes da pandemia do coronavírus, porque a sua atividade profissional já vinha sentindo os efeitos da recessão da economia brasileira. Porém, com a pandemia, e o isolamento social, a situação só se complicou, aí ele teve que fazer uso das reservas que conseguiu gerar em épocas mais produtivas.
A sua família é formada por três pessoas e depende da renda gerada por ele para viver, e para manter as contas em dia vinha fazendo uso do que tinha guardado, porém esses recursos terminaram, e a saída, no momento, foi se endividar. “Eu já fui para o empréstimo. Queimei as economias, porque ninguém resiste 60 dias sem gerar renda”, disse.
Ele ressalta que o governo até o momento não disponibilizou linhas de crédito para micro e pequenas empresas. “O que faz com que se tenha que pegar dinheiro a juro de banco, entre 1,5 a 2% ao mês, em média”, afirma.
“Eu não entendo o porquê do não atendimento para pessoas físicas na Caixa”
Noutra situação, um profissional autônomo está tendo problemas para acessar serviços de bancos públicos. “Na Caixa, não há atendimento para pessoa física, somente serviços essenciais via Internet Bank, aplicativo e por telefone. Só que há 15 dias estou tentando por telefone e não consigo atendimento. Eu preciso fazer um financiamento para ajustar minhas contas e não tem jeito. No app e no site diz pra procurar meu gerente, que, no caso, não está trabalhando”, afirma.
Ele comenta que não se enquadra nos programas de transferência de renda, que ainda tem como se virar por hora, porém precisa desse serviço e, no momento, não tem como conseguir. “Eu não entendo o porquê do não atendimento para pessoas físicas na Caixa. Limitem o horário, mas mantenham o atendimento. Preciso de atendimento do meu gerente, que não está trabalhando no momento e não tem ninguém que possa me atender”, desabafa.
“Está muito difícil receber o auxílio”
“Nenhuma das datas que foram divulgadas para receber o Auxílio Emergencial se confirmou”, afirma indignado outro relato. E, acrescenta, “não consegui receber ainda, vai acabar ficando para segunda-feira (27). E, com certeza, aí vai aglomerar muitas pessoas no mesmo dia, nas agências da Caixa e lotéricas”, comenta.
Ele conta que fez a solicitação por dois aplicativos, primeiro, o Caixa Auxílio Emergencial, em que fez o cadastro, dados, renda. “Demorou um tempo para aprovar, mas depois recebi a informação que a solicitação do auxílio tinha sido aprovada”, disse.
Depois dessa etapa pediram para baixar outro aplicativo, o Caixa Tem, que serviria para movimentar uma conta poupança, que eles abririam automaticamente. “Foi aprovado o cadastro, tentei acessar várias vezes o Caixa Tem, em três dias de tentativa só consegui acessar num deles. Quando consegui, eles diziam que a conta não tinha sido aberta ainda, que era pra tentar depois de 24 horas. Fiz isso quinta-feira (23), acessei, mas aí pediram pra atualizar o aplicativo, atualizei, pediu senha, tudo, consegui fazer o login, que não aconteceu, porque fui para uma fila de espera para poder fazer a movimentação”, disse.
Ele explica que além de ser complexo está sendo muito demorado. “Eu não recebi a primeira parcela ainda e já está vencendo a segunda, que deve ser anunciada em maio. Meu cadastro foi aprovado e deveria receber três parcelas, mas nada disso aconteceu”, observa.
E, acrescenta, “está muito difícil receber o auxílio. Isso é uma total falta de respeito. Agora, imagina um pai de família com duas, três, crianças que não consegue mexer num celular”, afirma.
Ele disse que ficou até as 2 horas da madrugada de sexta-feira (24) tentando acessar os recursos, mas não obteve resultado. “Retomei as 5h20min, aproximadamente, e segui até as 9h, e nada. Mudaram algumas telas dizendo que estão com muito acesso, ao invés de culpar a conexão, como anteriormente. Mas na prática não mudou nada”, disse.