Assim como em 2020, o Brasil entra 2021 amargando os custos da escassez de determinadas matérias-primas, o que tem prejudicado o crescimento de setores da economia, limitando, entre outros, a expansão da produção industrial. Para se ter uma ideia, conforme pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgada no último trimestre de 2020, a falta de insumos atingiu os maiores níveis desde 2001 em 14 dos 19 segmentos da indústria.
Aço sobe 93%
Como Erechim não é uma bolha – embora alguns continuem pensando diferente – a produção local foi impactada. Se de um lado o ano que passou registrou, segundo o presidente da Unindústria, Antonio Carbonari Jr, crescimento médio de 20 a 30% no faturamento das empresas associadas à entidade em razão da recuperação dos preços (de venda) a partir do 2º semestre, de outro as margens de lucro caíram, justamente porque os custos de determinados insumos (que sumiram do mercado) foram parar nas nuvens – fazendo com que algumas empresas buscassem alternativas na importação. O problema: os preços lá fora também subiram.
É o caso do aço, que entre janeiro de 2020 e janeiro de 2021, registrou aumento de 93%, conforme revela o diretor do setor Metal-Mecânico da Unindústria, Leandro Badalotti. Para piorar, os fretes se tornaram igualmente proibitivos: um contêiner que custava 4.000 dólares hoje está na casa dos 10.000 dólares.
Para 2021, além do impacto dos custos, Badalotti observa que usinas devem entregar no primeiro semestre apenas 1/3 do volume programado. “Empresas que trabalhavam com estoque elevado serão afetadas, mas com um efeito menor; já aquelas que têm estoque reduzido estão sofrendo muito, pois precisam comprar na distribuição (quando encontram disponibilidade) pagando cerca de 20 a 30% mais caro”, destaca.
Apesar disso, ele não descarta que seja possível repetir o crescimento do fim de 2020 – o que dependeria de fatores ‘macros’ – como taxa de juros, safra, normalização dos abastecimentos, futuro da pandemia e políticas de incentivos.
Segurança para investir e empregabilidade
O raciocínio é corroborado pelo presidente da Accie, Fábio Vendruscolo. O empresário, porém, observa que o raiar de 2021 traz uma realidade mais equilibrada, com diminuição do ímpeto de consumo das famílias, ao menos por enquanto. “Se o fim de 2020 foi marcado por uma retomada que pegou muitos de surpresa, percebo que o novo ano mostra um cenário mais pé no chão. Por isso, projeto o primeiro trimestre de 2021 com as coisas voltando ao normal”, pontua.
Para o restante do ano, Vendruscolo vê boas perspectivas com a chegada da vacina contra a covid-19, desde que o país se ‘organize politicamente’ – o que envolveria os poderes executivo (presidência), legislativo (Congresso) e judiciário (Supremo Tribunal Federal). “Precisamos de segurança para investir”, resume.
Por fim, o presidente da Accie reforça a necessidade de fortalecimento de questões relacionadas à empregabilidade, passando por políticas de qualificação e adaptações atreladas às novas exigências do mercado.
Desafios para a construção civil
Assim como no metal-mecânico, a construção civil penou, mas resistiu - tendo o cimento e o próprio aço como vilões. De acordo com a diretora de Construção Civil da Unindústria, Viviani Camargo Moscato, os meses de agosto, setembro e outubro de 2020 foram marcados por expressivos aumentos nos preços de matérias-primas, sendo que chegou a haver falta de materiais, comprometendo a produção.
Apesar de tudo, salva por grandes empreendimentos, o segmento cresceu 20% no município em relação a 2019 – número maior do que a realidade do país.
Para 2021, Viviani faz coro à pauta de Vendruscolo, e espera reforço na qualificação de mão de obra especializada. Ela também pontua como determinantes a aceleração dos processos de liberações de licenças e um maior equilíbrio entre oferta e demanda, o que permitiria o reabastecimento do setor.
Outros baques
Determinadas empresas que trabalham com vestuário, embalagens de papelão, plástico e vidros também sofreram o golpe, tendo que reduzir o ritmo de atividade por falta de matéria-prima aliada a alta dos custos. Parte delas, já vê as coisas voltando para o ‘lugar’.