A política de reajuste dos preços dos combustíveis no Brasil confunde até o consumidor mais atento. Para se ter uma ideia, em 2019, a gasolina sofreu mais de 35 alterações, e, neste início de ano já são quatro variações no valor. O diesel foram pelo menos 30 mudanças no total, no ano em que passou. Além do preço “salgado”, diesel aditivado R$ 3,64 o litro; S10 a R$ 3,69 e a gasolina oscilando de R$ 4,40 a R$ 5, esta situação traz insegurança ao consumidor, que nunca sabe qual o preço que vai encontrar ao chegar nos postos. E, de outro lado, é um problema também para os revendedores que veem a margem de lucro diminuir a cada dia.
Hoje, o combustível só é um bom negócio para os governos do Estado e da União, com a cobrança excessiva de impostos em cima de impostos, e apesar de ser fundamental para o transporte de cargas e pessoas, num país essencialmente rodoviário, os preços dos combustíveis estão completamente “fora” da realidade.
Revendedor
O presidente da Cooperativa de Consumidores (Coonsumo), Sandro Filippi, ressalta que o percentual de lucro está cada dia menor e, hoje, a maioria dos postos de combustíveis não tem margem de lucro para se manter. Ele lembra que a pandemia trouxe muitos prejuízos, que se acumularam ao longo do ano, já que no início do isolamento social em março de 2020, a cooperativa chegou a vender 50% menos.
Ele comenta que as revendas acabam não aumentando o preço para conseguir vender. “A situação está desesperadora”, afirma. E, acrescenta, que na semana passada a Petrobras repassou o aumento e a distribuidora por sua vez, também, um acréscimo de 8 centavos no diesel e 7,3 centavos na gasolina. “E, na segunda-feira o governo do Estado reajustou a cota, também, mais uma pancada. Uma semana é a Petrobras e na outra o governo do Estado, estamos tendo um aumento por semana. É um absurdo, só neste ano houve quatro aumentos”, afirma.
Governo do estado
Sandro observa que, hoje, o governo do Estado, arredondando a conta, ganha R$ 1,5 de ICMS por litro. “E a gente trabalhando todo dia, tem custos e tudo, e ganha R$ 0,25 centavos por litro. Olha o valor que o governo ganha sem colocar a mão no negócio. É um absurdo”, ressalta. Para se ter uma ideia, no caso da gasolina 46% do valor final são impostos, isto é, 30% de ICMS para o Rio Grande do Sul e mais 16% Cide, PIS/Pasep.
“Se na semana que vem a gasolina for a R$ 5,05, o governo do Estado vai refazer os cálculos para ganhar em cima deste valor. Às vezes o cliente reclama e diz que não teve aumento da Petrobras, mas teve correção da pauta do governo do Estado, e aí não tem o que fazer, estou pagando mais e tem que repassar o valor para o cliente. E independente do preço que for, a minha margem de lucro é de R$ 0,25 por litro e a do governo do Estado é 30%”, afirma
Ele comenta que quanto maior for o preço do combustível mais o governo arrecada, porque o negócio dele é calculado em porcentagem. “Ele ganha R$ 1,5 por litro de gasolina. Agora, imagina tudo que é vendido no Rio Grande do Sul, tem ideia de quanto dinheiro é isso. E no governo federal não muda muito, a proporção é menor, mas é o mesmo esquema, porcentagem sobre o valor da Petrobras”, observa.
“Se os preços diminuírem daqui pra frente será porque os donos de postos de combustíveis estão bancando o valor para chamar clientes e aumentar o volume de vendas, e até por desespero”, comenta.
Conforme Sandro, esta política de preços não trouxe melhorias porque o cliente final acaba pagando a conta e os postos estão com uma margem de lucro quase insustentável, já que tem todo o custo operacional do negócio.
Consumidores
O caminhoneiro autônomo, Marcelo Paula Rodrigues, desde 2015 resolveu trabalhar por conta, depois de ser funcionário por 28 anos. Ele comenta que a situação está muito difícil para o profissional autônomo, já que o preço do pedágio é elevado, não se anda em estradas boas e o óleo diesel está muito caro. Juntando tudo isso sobra pouco dinheiro do frete.
Marcelo ressalta que os custos aumentaram muito no período da pandemia. “Mas vamos trabalhar, porque ficar parado é pior. Esperamos que neste ano, com safra recorde, mais uma vez abaixe os valores do pneu e do diesel, pelo menos”, disse.
Faz seis anos que ele tem o próprio caminhão e, neste período, só conseguiu pagar o veículo e mantê-lo em dia funcionando, isto é, não aproveitou o dinheiro que ganhou com os fretes e todo trabalho realizado para trocar de carro ou reformar a casa, para viver um pouco melhor.
Segundo o representante comercial, Tiago Mocellin, que viaja do Rio Grande do Sul até o Rio de Janeiro, o preço da gasolina está muito alto aqui no sul. A estratégia é mesclar com álcool, mas como aqui o valor também é elevado, ele utiliza gasolina até Curitiba no Paraná, e depois de lá abastece com álcool, que fica mais barato e diminui o custo da viagem.