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Economia

Custo de vida: luta sem fim e ingrata

Dia após dia, mesmo quem está no mercado de trabalho, o poder aquisitivo não acompanha a realidade de aumento de preços dos insumos mais básicos, e para sobreviver é necessário se adaptar. O dilema é ainda maior para quem procura emprego

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Feijão e arroz sofrram significativos aumentos
"O poder aquisitivo caiu de uma forma muito grande, assustadora”, diz aposentada Vilma
“Meu salário está diminuindo”, comenta Cassiana
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

Não precisa fazer muitas contas para constatar que o custo de vida subiu muito, ao longo de 2020, e uma maneira bem fácil de descobrir isso é indo ao mercado comprar comida. Não tem como fugir dos alimentos, comer é uma necessidade básica que não pode ser adiada, pelo menos não deveria. E o tradicional prato do brasileiro, de todos os dias, feijão com arroz, foi um dos mais afetados no ano que passou.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), os preços que mais subiram e impactaram a inflação, em 2020, foram os dos alimentos –aumento acumulado de 15,5% no ano, enquanto os preços de itens não alimentícios variaram 2,6%. As maiores elevações foram verificadas no preço do óleo de soja (104%), do feijão (81,4%), do arroz (75,3%) e da batata-inglesa (67,3%). Em 2020, segundo o DIEESE, o valor do salário mínimo, praticamente, não foi alterado.

Se adaptar

Segundo Cassiana Oliveira da Silva, de 33 anos, que trabalha numa empresa de alimentos de Erechim, a comida aumentou bastante neste ano que passou. “Sentimos isso no dia a dia, principalmente, azeite, arroz e feijão”, afirma.

Ela explica que a família teve que mudar alguns hábitos e se adaptar ao aumento dos preços dos alimentos, já que tem um filho para criar. “Não passamos necessidade, mas tivemos que deixar de gastar com outras coisas para conseguir fechar as contas”, disse.

Para Cassiane, nada mudou ainda neste início do ano, as dificuldades continuam todas iguais. “A carne aumentou bastante, também, uma vez a gente fazia mais seguido churrasco, mas agora não dá, porque os preços estão muito alto”, conta.   

Ela ressalta que o seu rendimento não melhorou do mesmo jeito que a comida subiu de preço. “Pelo contrário, o meu salário está diminuindo, porque eu vou no mercado com R$ 100 e só trago uma sacolinha pra casa”, comenta. E, acrescenta, “ainda bem que não preciso pagar aluguel”.  

Aposentada

A aposentada, Vilma Fernandes, a situação não é diferente, já que ela também sentiu bastante o peso do aumento nos preços dos alimentos. “Eles anunciam a inflação de um jeito, mas quando a gente vai no mercado os preços são exorbitantes. O poder aquisitivo caiu de uma forma muito grande, assustadora”, observa. Preocupada, ela fica imaginado como deve ser a situação das pessoas que precisam pagar aluguel e tem filhos pequenos para cuidar.

Além do aumento dos alimentos tem a questão, no caso dela, dos medicamentos, que também pesam no orçamento familiar. “Eu uso medicação, e esse custo pesa bastante, cada vez que vou adquirir um medicamento o preço está diferente, nunca pra baixo, sempre pra cima, assim como a comida”, disse.

Indignada, Vilma questiona a realidade, antes de embarcar no ônibus. “A gente fica indignada porque somos uma região produtora de muita soja, e olha o preço que pagamos o óleo de soja? É muito alto!”, desabafa.

Desempregada

A desempregada, Elizabete da Silva Santos, 57 anos, trabalhou durante 20 anos como telefonista, recepcionista em Curitiba (PR). Segundo Elizabete, quando a empresa entrou em crise, em 2016, excluiu a função das quatro telefonistas, e tudo foi passado para o teleatendimento. “A Internet veio e engoliu nosso emprego. Como meu marido é de Erechim, faz quatro anos que estou morando aqui”, conta.   

Na avaliação de Elizabete, ela acha o custo de vida em Erechim mais caro que o de Curitiba (PR). “Eu acho bem mais alto do que em Curitiba”, afirma.   

Ela afirma que o preço dos alimentos aumentou muito, no ano que passou, e isso inclui quase tudo da cesta básica. “Feijão, arroz, carne, óleo, tudo subiu”, diz.

Em função de estar desempregada, hoje, a renda para manter a casa, que é alugada, vem do rendimento do marido. “Pagamos R$ 400 de aluguel, isso porque o dono da casa baixou o aluguel que antes era R$ 500, e ainda tem a conta de luz, água”, comenta.

Desde que veio para Erechim, ela já conseguiu trabalhar nestes quatro anos. A primeira vez como cuidadora, durante dois anos, e mais recentemente, num supermercado local, mas acabou sendo demitida em função da pandemia. “Agora, não consigo emprego com a minha idade (57), já procurei todo tipo de trabalho, andei por toda Erechim. Não posso desistir, jamais, preciso me aposentar, contribuí 28 anos da minha vida para o INSS”, relata.

Apesar da força de vontade, há ainda assim, um desgaste emocional por não estar empregada. Conforme Elizabete, em função de toda essa situação que está vivendo, esses dias, a sua pressão subiu muito de tanto estresse. “Só quem passa pra saber, infelizmente, estamos sofrendo muito”, disse.

E, acrescenta, “eu não sei qual é o nosso problema, se é corrupção, só sei que o trabalhador é o que mais sofre. O rico tem, o bem pobre não tem mais condição nenhuma, e pro trabalhador tá pesando demais. Fui em feirão de emprego, em tudo que pude, e ninguém contrata. Estou pedindo emprego, mais nada, infelizmente isso é Brasil”, disse.  

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