Albert Camus é um expoente da literatura universal. Nascido na Argélia, então possessão francesa, viveu entre 1913 e 1960. Teve um início difícil, pobre, sem livros, jornais, rádios, energia elétrica ou água corrente. Portanto, muito diferente da infância dos filósofos franceses que viriam a ser seus amigos na idade adulta. A vida do “estrangeiro” que perdeu o pai na Primeira Guerra Mundial foi marcada por ausências e enormes dificuldades.
Logo no registro inicial de seu primeiro diário, escrito aos 22 anos, anota com clareza: "Certo número de anos sem dinheiro basta para criar toda uma sensibilidade".
E foi essa sensibilidade que guiou Camus em Argel, onde iniciou seus estudos em um liceu, para depois se tornar aplaudido jornalista militante e renomado escritor na França, com seus "três absurdos": o romance O Estrangeiro, o ensaio O Mito de Sísifo, e a peça Calígula.
Em filosofia, o absurdo se refere a qualquer crença que seja obviamente indefensável. Dito de outra forma, reporta ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida e a inabilidade humana para encontrá-lo em um universo sem propósito, sem significado ou caótico e irracional. É um nome para a natureza inútil ou desprovida do porquê da vida de cada um. Camus, por sua vez, chamou com extrema propriedade de “absurdo” essa luta para encontrar sentido onde ele não existe.
Assim, o argelino, mesmo considerado um literato e não um filósofo, tornou-se conhecido por incluir profundas reflexões em seus trabalhos. "Se você quiser filosofar, escreva romances", dizia provocativo.
Autor universal, questionava como devemos reagir diante da inutilidade da vida. Como seu amigo temporário Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista, afirmava que não paramos para pensar nisso simplesmente porque a vida é corrida demais.
A intelectual e escritora britânica Sarah Bakewell, no livro No Café Existencialista, diz: “Aqui também podemos ver relações com a vida na França da Ocupação alemã, durante a Segunda Guerra. Concedeu-se tudo, perdeu-se tudo — no entanto, tudo ainda parece existir. O que sumiu foi o sentido. Como viver sem sentido? A resposta de Camus consistia em algo similar ao lema do cartaz britânico para elevar o moral: Keep Calm and Carry On [mantenha a calma e siga em frente]".
Portanto, para Camus, era preciso tomar uma decisão: se optarmos por continuarmos a viver, devemos aceitar que não existe um sentido último no que fazemos. A outra saída seria o suicídio.
Há poucos dias, com extremada devoção, li pela enésima vez O estrangeiro, seu mais famoso livro, lançado em 1942, e que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. O pequeno romance filosófico, de cento e poucas páginas, é uma obra monumental, daquelas que persistem por tempos, às vezes uma vida inteira, remoendo nossas consciências e nossos conceitos mais primitivos.
As sutilezas envolventes, além da forma sintética da escrita que lembra Hemingway, porém com a profundidade de Kafka, fazem com que não consigamos desgrudar do livro.
Aqui, convido ao leitor, a corte abrupto em meu escrito, a comigo se reportar aos dias de hoje, dias da pandemia Covid-19.
Digo não ser impensável que doenças ou epidemias como a que estamos vivenciando – ainda que patrocinadas por eventuais “erros” propositais ou não -, são manifestações cósmicas destinadas a sacudir a orgulhosa raça humana. Não nos faltam elementos comportamentais e de entendimento que, no mínimo, ampliam esta grave crise.
Devemos também observar que nesse momento histórico estamos privados das relações afetivas mais banais, do contato pessoal, do abraço fraterno ou mesmo do cordial aperto de mão.
Porém, no sentido contrário, de forma avassaladora e intempestiva, somos cada vez mais estimulados a vivermos uma “falsa vida” totalmente compartilhada com estranhos ou desconhecidos; somos instigados diariamente, hora a hora, minuto a minuto a exposições despudoradas de nossa intimidade; praticamente ficou inviável viver sem frequentar Redes Sociais. Estamos visivelmente contagiados pelos grandes grupos midiáticos e seus objetivos específicos.
De um modo bastante estanho – e quase familiar -, não há como negar que o nosso destino passou a ser comandado por gigantes manipuladores. Há no ar a inequívoca sensação epidérmica que ora o mundo gira de acordo com (pré)determinadas regras e interesses não confessáveis; nada mais nos dias de hoje é fruto do acaso; a humanidade passou a caminhar impávida para um destino comum - e eu não sei, e talvez poucos de vocês saibam, se isso tem algum significado, se é bom ou ruim.
A própria criatividade humana, há poucos anos passou a ser chamada de “inovação”. Como regra, e necessariamente, deve cumprir alguns postulados, como ser convergente, coletiva e tecnológica para então, lhe ser atribuído algum valor ou destaque.
A par, a criação artística nas suas diversas manifestações se deteriora e apodrece a olhos vistos; a cada momento somos empurrados mais e mais para a zona do esgoto mental.
Vivenciamos ansiedades comuns, coletivas; os medos ou o medo é o mesmo para todos, amanhece e anoitece conosco. E é sempre o mesmo; a inexorável e muito próxima morte. Não temos mais vontades conscientes ou sequer angústias privativas. Caímos um a um na vala comum da existência ausente de significado.
Os anseios e dificuldades aparecem vagamente estratificados de acordo com o status social de cada camada da população. Porém todas as classes, de A até Z, são manipuladas de acordo com as bandas de consumo e a capacidade de alienação.
Dessa forma, clara e cristalina, o absurdo tornou-se o grande maestro, mediador, e algoz de nossas vidas. Nada pode ser mais absurdo do que viver nesses tempos de doença do corpo e do espírito.
Finalmente digo a vocês, queridos leitores, que resistiram até este ponto do texto, que se eu não fosse tão profundamente preguiçoso, tão inútil, até me sentiria estimulado por forças divinas - como Noé foi na Bíblia - a construir uma bela arca e nela colocar casais de espécies nativas, como capivaras, antas, bem-te-vis, pintassilgos e outras do meu agrado. Depois, pacificamente observar a enchente e largar a nave rio Uruguai a baixo na direção do fim do mundo. E lá esperar o chamado de volta à vida.
Mas, como visto, sou muito comodista e menos crente que o patriarca - graças a Deus!
Sou mais do tipo de Meursault, o personagem principal de O Estrangeiro, e prefiro aguardar o meu ocaso sozinho, pacato, dormente, confortável, sem interferência de ninguém.
“Como se esta cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado a esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abriria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.” (CAMUS, 1979, p. 298).
Por fim me despeço e deixo um abraço asséptico a cada um. E arremato a conversa com um dito francês que virou canção: C’est la vie.
Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras