Essa foi a frase que Mara Motter usou para definir o começo de sua vida na agricultura. Filha de produtores rurais, ainda muito nova, com 19 anos, precisou substituir o pai que ficou doente na época, em uma das principais funções da fazenda, administração financeira e de logística do local.
Sem entender muito, a moradora de Três Arroios precisou buscar especializações e lidar com um dos piores fatores que uma pessoa pode enfrentar: opiniões negativas. “Muitos disseram que eu não iria conseguir nem pagar as contas, que não ia dar certo, duvidavam do nosso crescimento. Mas não guardo mágoa. Quanto mais ouvia coisas negativas, mais motivada eu ficava a correr atrás”, conta a agricultora.
Pode não parecer, mas o trabalho no campo vai muito além da prática, do fazer. A ação exige planejamento, conhecimento e consciência. Em tempos antigos, era muito difícil ver mulheres envolvidas na administração de propriedades, dirigindo máquinas pesadas e auxiliando no plantio. Atualmente, o cenário está em transformação, mas o preconceito ainda existe. “A mulher quando erra é muito mais condenada. Por trás de todos os produtos novos que eu coloco na lavoura e de todas as máquinas que eu testo no meu trabalho, eu sempre busco ter uma segurança muito grande. Analiso bem antes, procuro obter informações com pessoas que entendem do assunto e já me acompanham a algum tempo”, ressalta Mara.
Da gestão à produção
Depois de muito tempo cuidando apenas da parte financeira da fazenda, Mara decidiu que era hora de se reinventar. Em 2019, a produtora participou de um Congresso no estado de Minas Gerais, chamado “Protagonistas do Campo”, e no seu retorno, tudo mudou. “Sou formada em Processos Gerenciais e estava acostumada a ficar “atrás da mesa”. Costumo dizer que o congresso foi um divisor de águas, pois lá conheci pessoas incríveis que me inspiram até hoje. Lá aprendi, que mesmo cuidando da parte de gerenciamento e documentação, eu poderia também acompanhar e contribuir para o trabalho na lavoura”, revela.
A partir daí, Mara iniciou o plantio com lavouras de milho e acompanhou a primeira área a ser plantada. “Nunca mais parei. Acompanho o plantio, aplicação e a colheita. Cresci tanto nesses últimos três anos. São nos detalhes que a gente faz a diferença”, pontua Mara.
Família trabalhando junto
Mara é mãe de dois filhos. Henry, de cinco anos, e Tainá, de 15. Mora com as crianças, o marido e os pais e todos contribuem para a produção e negócios da fazenda e a harmonia da vida familiar. “Isso pra mim não tem preço. Meus pais sempre me ensinaram muitos valores. Juntos, trabalhamos com grãos, são 320 hectares de área de produção. Trabalhamos também com suinocultura e iniciamos recentemente a pecuária, na qual sou apaixonada”, destaca.
Boa parte das pessoas que possuem propriedades agrícolas, quando tem filhos, buscam prepará-los para dar continuidade ao serviço desenvolvido. “Minha filha optou esse ano por frequentar o colégio agrícola. Não foi algo que eu pedi para ela, mas os dois sempre me acompanham em todas as atividades. Meu filho é extremamente apaixonado por gado. Temos que mostrar às crianças que o agro é essencial para a humanidade. Nosso compromisso é fornecer grãos para toda a nação”, frisa Mara.
Prêmio Mulheres no Agro
O Prêmio surgiu através do lema instituído no ano de 2018 pela ONU Mulheres: “O tempo é agora: ativistas rurais e urbanas transformam a vida das mulheres”, que buscava a valorização da atuação feminina em diversas áreas. Por meio deste viés, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e empresas parceiras, buscaram criar um reconhecimento direcionado especialmente a mulheres atuantes na área da produção rural.
Anualmente, são três premiadas em três categorias diferentes: pequenas, médias e grandes propriedades. Em 2020, Mara Motter ficou em primeiro lugar na categoria “pequenas propriedades”. “Não tenho palavras para descrever a gratidão que sinto por receber esse prêmio. Quando chamaram meu nome, no primeiro lugar, senti um arrepio. Trazer esse título para minha cidade, um prêmio nacional, trouxe muita emoção”, conta a agricultora.
Motivando outras mulheres
Um dos objetivos de Mara, é servir de inspiração para outras mulheres que, assim como ela, foram desacreditadas no início das atividades no campo. “Enfrentei dificuldades e ouvi muitos nãos, mas quando acreditamos no que queremos, sem baixar a cabeça e seguindo em frente, obtemos êxito. Não é porque somos mulheres, que não vamos conseguir. As dificuldades surgem? Com certeza, mas isso acontece em todas as áreas profissionais. Hoje, eu não trocaria minha profissão por nada”, aponta.
Todo trabalho, para que seja bem feito, exige organização. Mara conta que anota tudo em um sistema próprio, está sempre em busca de novas informações e faz uma análise diária do que já deu certo ou não. Mesmo estando preparado, a agricultora acredita que o público feminino no agro precisa de mais oportunidades. “Quero falar para empresas e os produtores rurais, que possuem mulheres na família, que deem oportunidade. A mulher tem um ponto de vista diferente. Eu digo e repito, não queremos tomar conta, apenas estar lado a lado”, expõe.
Superando as dificuldades
Em 2020, muitos agricultores tiveram prejuízos por conta da estiagem. O início do ano, que normalmente é caracterizado como uma época com grandes volumes de chuva, sofreu uma seca que atingiu 70 % dos municípios gaúchos. Como se não bastasse, os demais períodos também foram marcados por chuvas fracas e irregulares. Com lágrimas nos olhos e a voz embargada, Mara relatou a experiência da família em meio a intempérie. “Em 35 anos de agricultura, meu pai que é experiente, nunca tinha passado por isso. Tivemos que roçar a lavoura de milho porque simplesmente não deu grãos e recomeçar do zero. Entretanto, são nas situações difíceis, que precisamos nos reinventar. Sempre carreguei comigo muita fé em Deus, garra e persistência. Deus coloca as situações certas para a gente cumprir”, conclui Mara.