Nesta semana, um grupo de 500 economistas divulgou manifesto que pede medidas mais efetivas no combate à pandemia no Brasil. Um dos pontos citados é a necessidade de acelerar o ritmo de vacinação, vista como essencial para a recuperação econômica do país, além da proteção à saúde dos cidadãos.
Tal elemento e o agravamento dos cenários sanitário, econômico, social e político fizeram o presidente Jair Bolsonaro manifestar, durante pronunciamento em rede nacional na noite de terça-feira (23), a necessidade de priorizar a imunização. Ontem pela manhã (24), o chefe da nação anunciou a criação - um ano depois do início da pandemia - de um comitê com membros do Congresso Nacional, governo federal, Estados e judiciário para tratar do tema.
Vacinar sempre foi importante
Antes da pandemia, estudos já evidenciavam o potencial impacto econômico das vacinações contra doenças transmissíveis. A economia com gastos médicos é um dos motivos, mas não o único. A proteção contra doenças também favorece fatores como a produtividade.
No caso da covid-19, a vacina é vista como um importante passo para a reabertura do país. E o Brasil está correndo atrás da máquina: até ontem, cerca de 6% da população havia sido imunizada. Entre quem recebeu as duas doses, o percentual gira em torno de 2%, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados da secretarias estaduais de Saúde.
R$ 131,4 bilhões
O impacto estimado de eventuais problemas e atrasos na vacinação do Brasil, de acordo com a carta aberta assinada pelos economistas, seria de R$ 131,4 bilhões. O custo, explica em reportagem a revista Época, seria sustentado “em termos de produto ou renda não gerada” e supõe uma recuperação retardatária em dois trimestres em 2021 - destacando que “a relação benefício x custo da vacina é da ordem de seis vezes para cada real gasto na aquisição e aplicação”.
O que dizem lideranças locais
Para repercutir o que o setor produtivo local pensa a respeito da importância da vacinação em massa, o Bom Dia ouviu dirigentes de entidades patronais e de trabalhadores - e o entendimento é claro. Veja:
Presidente da CDL, Rosângela Truylia
“Acredito que com um número maior de pessoas vacinadas, conseguiremos ter mais tranquilidade para trabalhar e menos transmissibilidade. Isso permitirá maior circulação de pessoas consumindo com segurança em nossas lojas, aumentando o faturamento e contribuindo para a retomada de nossas atividades com menos restrições de clientes presenciais”.
Presidente da Unindústria, Antonio Carlos Carbonari
“A vacinação voluntária, gratuita, não onerosa e massiva aplicada de forma acelerada será fator determinante para o retorno das atividades Laborais, sociais e culturais, bem como irá pautar o desempenho da economia e via de regra sua sustentabilidade para os próximos anos”.
Presidente do Sindilojas Alto Uruguai, José Gelso Miola
“A vacinação é fundamental para a imunização de nossa população e, por consequência, para preservação da vida Caso não ocorresse, seriam afetadas por este vírus, que tem se mostrado de difícil controle, principalmente quando não tratado precocemente ou preventivamente. No entanto, independentemente da vacinação, não precisaríamos estar sofrendo com perdas de empresas e postos de trabalho, gerando empobrecimento de nossa população que se depara com a realidade de não conseguir manter o básico para o sustento de suas famílias. Lembrando que grande número de empresas fechadas, e principalmente as micro e pequenas, jamais reabrirão. Este triste cenário, poderia ter sido evitado, caso os recursos que foram despejados de Norte à Sul do país, principalmente nos cofres dos Estados, fossem aplicados com rapidez e responsabilidade para equipar hospitais e com isso se preparar para enfrentar a pandemia. Medidas autoritárias e sem embasamento legal foram tomadas, já que galoparam sobre a nossa constituição fechando nossos negócios, porém a conta chegará, será alta e deverá ser paga por toda a sociedade”.
Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Erechim e Região, Fábio Adamczuk
“Consideramos que a vacinação é a estratégia mais rápida para a retomada econômica , embora a economia deve ser sempre vista em segundo plano diante do grande numero de mortes registradas. Quanto mais a vacina demora, maior é o impacto da covid-19 sobre a economia, maior é o desemprego e a miséria; e menor é a adesão das pessoas ao distanciamento. O governo federal precisa mudar a forma como está conduzindo a pandemia. A quarta troca do ministro da Saúde mostra o quanto o governo não está comprometido. Além de agilizar a compra das vacinas, é preciso parar de defender o tratamento precoce ou qualquer tipo de ação sem comprovação científica e apresentar uma estratégia nacional de combate à pandemia”.
Presidente da Accie, Fábio Vendruscolo
“A vacinação da população brasileira é de extrema importância, sendo determinante para a retomada econômica nos diferentes setores. Hoje, diante do cenário pandemico, porém, é difícil fazermos projeções quanto à velocidade dessa recuperação, pois a covid-19 afetou mais a alguns segmentos do que outros, que estão há um ano amargando dificuldades. De modo geral, percebemos retração econômica e insegurança de alguns empreendedores, que têm segurado investimentos. Felizmente, temos a informação de que o governo federal conseguiu adquirir bom volume de imunizantes e estabeleceu calendário de vacinação para que até o fim do ano estejamos livres da doença, e consigamos avançar”.
Presidente do Sindicato Rural, Clóvis Tonin
“A vacina é para todos nós, do campo e da cidade, uma esperança de saúde física, mental e financeira”.
Presidente do Sindicomerciários, Anelise Michalski
“A vacinação é de extrema importância para preservação de vidas e para a retomada da economia. Nesse período atípico, a imunização está interligada com as questões financeiras, pois dependemos das vacinas para funcionar e tudo voltar à normalidade.
A maioria dos setores de trabalho foi prejudicada, principalmente o comércio, que infelizmente sofreu grande impacto econômico, com muitas empresas fechadas, acarretando demissões. Sem vacina o mais breve possível, não temos garantia da vida preservada, nem confiança ou segurança para os trabalhadores, em todas as áreas”.
Sem vacina, sem retomada
Simão Davi Silber, professor da FEA-USP e pesquisador da Fipe, explica à Época que o ritmo da vacinação pode impactar a economia de várias formas. Uma das mais evidentes é o fato de a ampla imunização permitir a retomada de atividades e do consumo. O atraso, além de prejudicar a reabertura, tem impactos que vão da fuga de capitais às próprias consequências econômicas da mortalidade da população. “O que está acontecendo com o coronavírus é muito parecido com o que acontecia no passado, com as guerras”, diz o economista.
US$ 9,2 trilhões
É o quanto a economia global pode perder se os governos não conseguirem garantir o acesso às vacinas da covid-19 nos países em desenvolvimento. O dado é de um estudo encomendado pela Fundação de Pesquisa da Câmara de Comércio Internacional (ICC). Ele estimou os custos econômicos da baixa distribuição de vacinas ao redor do mundo, em um cenário em que os países têm acesso desigual às doses.
Brasil é exemplo negativo
A pesquisa destaca que “mesmo que um determinado país tenha acesso à vacina, ele experimenta uma recuperação lenta com entrave em seu PIB se seus parceiros comerciais não tiverem esse mesmo acesso”. Se as economias avançadas continuarem a priorizar a vacinação de suas populações sem garantir a vacinação equitativa para as economias em desenvolvimento, diz o estudo, o custo total para o mundo pode variar entre US$ 1,5 trilhão e US$ 9,2 trilhões.
“Como ninguém é autossuficiente, quanto mais rápida a retomada da atividade de um país, mais ele vai precisar da produção de outro [país]”, explica Silber. À medida que um país tem uma política adequada de enfrentamento, seu efeito sobre os demais se torna favorável. “Ao passo que um país em crise compra menos, porque sua produção está em queda. É o caso do Brasil”, diz.
US$ 350 bilhões: É a estimativa de economia, ao longo de 20 anos, com vacinações contra dez doenças transmissíveis em 73 países. A previsão é de um estudo publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017, que avaliou os efeitos da vacinação contra doenças como sarampo, hepatite B, rubéola e febre amarela em países de baixa e média renda.
Ao comparar um cenário sem vacinação com um em que a cobertura prevista é alcançada, a pesquisa identificou uma economia de US$ 350 bilhões com gastos decorrentes das doenças, como internações, gastos com medicamentos e perda de produtividade. O cenário também evitaria 20 milhões de mortes.
Embora não tenham relação direta com a vacinação contra a covid-19, dados como esses servem de parâmetro para avaliar os impactos das vacinas na economia. Em um cenário em que a vacinação contra o coronavírus seja necessária anualmente, essa comparação se torna ainda mais relevante.
“O Brasil já teve muitas experiências com a vacinação. Se tivéssemos coordenação federal, seríamos o país mais habilitado a vacinar”, diz Silber. Uma publicação de 2019 do ministério da Saúde também chamou a atenção para os potenciais impactos econômicos da baixa cobertura vacinal.
“Quando temos um surto as pessoas deixam de visitar nosso país, ou seja, o turismo diminui, e os eventos internacionais têm menos circulação de dinheiro no momento em que mais precisamos”, disse a então coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Carla Domingues, que ocupou o cargo até julho daquele ano. “Quando uma pessoa fica doente ela tem que parar de trabalhar, ela vai deixar de ir ao serviço. Se ela tem uma carteira assinada ela vai ficar no INSS, se ela não tem, naquele período que ela está doente, vai deixar de ter a sua remuneração”, completou ela.
Como medida preventiva, prefeitos aderem a consórcios
Reconhecendo o agravamento da pandemia em todo o país, os prefeitos da AMAU buscam alternativas que permitam a compra direta das vacinas. Em reunião, a direção da AMAU, embora mantenha o entendimento pela observância do Plano Nacional de Imunização - que prevê mais de 500 milhões de doses para o Brasil até o fim do ano -, autorizou que os executivos locais e o CIRAU, como forma de precaução, se habilitem em diferentes modelos de consórcios, como os liderados pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e Famurs. Os dirigentes da Associação de Municípios do Alto Uruguai, contudo, destacam que ainda é cedo para dizer quando, como e se de fato será necessária a compra direta de vacinas. A entidade, porém, pontua que a pandemia mostrou que os gestores precisam estar preparados com planos A, B, C e D. A proposta, segundo a AMAU, não é semear falsas esperanças, mas estar pronto para respostas rápidas, caso elas se façam necessárias.
Vacinômetro regional
Enquanto Erechim já vacinou em 1a dose cerca de 10 mil pessoas, a AMAU tem computado 26 mil aplicações do imunizante, o que representa mais de 10% da população regional.
Polis destaca importância de investir em saúde e na geração de renda
Em participação no programa Pente Fino Entrevista, da TV Bom Dia, o presidente da AMAU e prefeito de Erechim, Paulo Polis, apresentou ao colega Rodrigo Finardi, na terça-feira (23), a relação ‘economia e saúde’, além dos desafios dos gestores públicos no período. Segundo ele, o município tem na variedade de sua matriz produtiva importante diferencial competitivo - o que, segundo o prefeito, deve ser estimulada. Entre os exemplos, ele cita a importância de implantação do novo distrito industrial Davide Zorzi, prevista ainda para 2021. Na conversa com Finardi, Polis também repassou dados do programa ‘Credi+’, criada pelo executivo para ajudar as pequenas empresas. “No primeiro dia foram liberados R$ 286 mil para 19 empresas. Acham que esse valor (de R$ 15 mil a R$ 20 mil) não ajuda? Estão enganados. Ajuda e muito, pois para quem está na UTI, qualquer oxigênio é fundamental”, frisou o prefeito. Para Paulo Polis, é preciso seguir buscando soluções - nessa linha, cita a prorrogação do ISS, de 30 de março para 30 de julho, com parcelamento até dezembro. Otismista, ele também projeta um segundo semestre de avanços, com a economia voltando a girar, escolas com alunos e melhora na estrutura dos serviços.
Sobre as vacinas, o político observa que o país teria ‘errado na largado’. “O Brasil teria capacidade de aplicar vacinação em até 1,5 milhão de pessoas por dia. Não temos problemas de logística, mas erramos na largada, no início, na hora da compra. Agora temos que recuperar esse tempo’, pontuou.
O exemplo de Israel
Desde dezembro de 2020, Israel já vacinou cerca 5,5 milhões de um total de 9 milhões de habitantes. À medida que a vacinação acelera, o país avança em seu processo de reabertura. No início de março, com a criação do ‘passaporte verde’, voltou a ser possível, por exemplo, comer dentro e fora de restaurantes - ‘luxo’ distante há pouco tempo. Visitas a hotéis e centros de eventos, reuniões de mais de 20 pessoas em locais fechados e de até 50 em áreas abertas já são autorizadas novamente.
A dimensão de Israel - menor que o menor Estado de Sergipe -, testes em massa e gratuitos e uma população inferior a do Rio Grande do Sul devem ser entendidos como fatores-chave, mas, sem a estrutura organizada pelo governo, e a capacidade de mobilização da população, nada teria andando.