Um dos primeiros setores a sentir os efeitos negativos do isolamento social, em função da pandemia do novo coronavírus (covid-19), foi o de gastronomia, hotelaria e turismo. Um ano depois, a situação continua complicada, cada vez pior e sem perspectiva de mudar. Erechim tem, hoje, em torno de 268 empresas de gastronomia, 23 empresas na área de alojamento, hotéis, pousadas, motéis, com 1800 leitos para ocupação.
2020: um ano péssimo
Na avaliação do presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes Bares e Similares de Erechim, Ademir Luiz Zarbielli, 2020 foi um ano péssimo. “O impacto foi muito grande e em 2021 continuam os problemas. Estamos à beira do abismo, muito mal, não estamos conseguindo trabalhar, abrir os nossos estabelecimentos. Uma situação muito complicada, e as autoridades não estão fazendo nada por nós”, afirma,
Prejuízos
Ademir explica que, desde o início da pandemia, o setor teve uma queda em torno de 57,9% no faturamento, o que representa cerca de R$ 57 milhões que deixaram de circular nessa área em Erechim contabilizando hotéis, restaurantes, bares. “Não sei quantos anos teremos que trabalhar para recuperar essas perdas, porque não sabemos até quando vai esta pandemia. Segundo alguns especialistas, a pandemia vai levar mais três anos para se extinguir e as perdas irão continuar”, afirma.
Seguir os protocolos
Ele comenta que o setor procura trabalhar dentro dos protocolos. “Não somos os vetores do vírus, temos os maiores cuidados possíveis dentro do estabelecimento”, diz.
Faturamento muito baixo
Segundo ele, hoje, o setor está trabalhando com 10% do faturamento e isso não paga nada. “Esse faturamento não paga a conta”, diz. Ademir ressalta que se poderia trabalhar com 50% da capacidade com toda a segurança e respeitando os protocolos sanitários. Assim, trabalhando com 50% da capacidade se conseguiria pagar a folha de pagamento dos funcionários. “Com 25% da capacidade não chegamos na folha de pagamento”, explica.
Empréstimos vão vencer
Conforme Ademir, os proprietários de hotéis, restaurantes, bares, fizeram empréstimos para pagar as contas até agora, e, de modo geral, cerca de 85% do pessoal recorreu ao financiamento para conseguir deixar as contas em dia. “O outro grande problema é que a partir desse mês (abril), é que começam a vencer os financiamentos, já que foram somente 10 meses de carência para pagar”, observa.
Prorrogar pagamento
Ele comenta que as empresas terão que pagar os financiamentos numa época pior do que no início da pandemia, por isso, o sindicato está pensando em entrar em contato com a instituições de crédito para prorrogar o pagamento das parcelas dos empréstimos. “Não temos gordura para queimar. Eu demiti 30% dos nossos funcionários. E teve proprietários que demitiram muito mais. Eu não demiti mais porque não tenho dinheiro para pagar a indenização. Trabalho há 24 anos no ramo de alimentação, tinha três estabelecimentos, fechei um, estou com dois no momento. Estou mantendo as portas abertas com empréstimos me endividando. Se durar mais uns seis meses a pandemia nossos negócios irão se inviabilizar”, explica.
Sem renegociação do aluguel
Ademir comenta que conseguiu renegociar o aluguel do seu restaurante de Passo Fundo, mas o de Erechim não. “E essa é a realidade do município, não está tendo negociação. Os proprietários das salas de restaurantes, lancherias, hotéis, precisam ter mais sensibilidade para ajudar o setor a manter as empresas abertas. Não gostaríamos de enterrar os nossos CNPJs, mas para que as empresas permaneçam funcionando os proprietários das salas têm que nos ajudar, têm que colaborar em função do atual momento porque estamos tendo um prejuízo muito maior”, destaca.
Desafazendo-se de bens
Ele ressalta que o aluguel é um custo importante, nisso tudo, já que com 10% do faturamento não se consegue pagar nada. Além disso, comenta Ademir, os empresários do setor estão tendo que vender bens conquistados durante a vida para conseguir pagar as dívidas. “Estamos nos desfazendo de carros, apartamentos, casa, cada um está vendendo, de uma forma ou de outra, o patrimônio que ao longo dos anos conseguiu construir, para manter o negócio aberto. Estamos gastando aquilo que já fizemos para nos manter. Estamos vendendo os bens para manter as portas abertas”, desabafa.
220 demissões
Em Erechim, em torno de 220 profissionais perderam o emprego no setor. “Estamos à beira do colapso. Não sei por onde começar. A preocupação agora é com os empréstimos, porque não sabemos com que vamos pagar esses financiamentos. Não temos mais recursos para pagar funcionários nem os financiamentos. A situação é desesperadora não consigo dormir mais”, afirma.
Irresponsabilidade
Ele comenta que a população de Erechim acha que os restaurantes, hotéis, bares são fatores predominantes para espalhar o vírus, e na sua visão essa é uma avaliação errada. “Quem espalha o vírus são as pessoas que andam sem máscara na rua ou com ela no queixo. Os vilões da pandemia são as pessoas que não conseguem cumprir as normas de prevenção, que não seguem os protocolos de segurança. Tem uma quantidade enorme de pessoas que andam na rua sem máscara ou com ela no queixo. E esse cuidado é preciso ter porque a máscara é o que nos resta para proteger da maneira mais eficiente e barata”, explica.
Festas clandestinas
Ademir afirma, também, que as festas clandestinas contribuem muito para piorar a situação e espalhar o vírus. “E o pior de tudo isso é que parece que esse pessoal não está consciente o que está causando a pandemia, a quantidade de mortos e contaminados. Situação complicadíssima”, disse.
Auxílio do Estado
O presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes Bares e Similares de Erechim comenta que o governo do Estado disponibilizou R$ 2 mil de auxílio financeiro para cada empresa. “Eu não descobri a palavra certa para menosprezar o governador Eduardo Leite nesta atitude, em oferecer esse valo”.
“O governador nos colocou como pano de lixo”
Para se ter uma ideia de como é despropositada a ação do governo, Ademir, que tem dois restaurantes, explica que antes da pandemia, num período normal, servia entre 150 a 200 refeições por dia na semana que variavam entre R$ 12 a R$ 15, em média por prato. “Se fizer uma conta de 200 refeições a R$ 15 daria R$ 3 mil por dia. E o governador vem oferecer menos de um dia de faturamento em recursos para a empresa. Ainda não encontrei uma palavra para nominar essa ação do governador em relação à categoria, ele nos colocou como pano de lixo, dizendo, peguem esses R$ 2 mil e comprem meia-dúzia de bananas que está bom para vocês”, afirma.
Falta representação política
“Está muito complicada a nossa situação e não temos voz dentro da Assembleia Legislativa do Estado. Falta um representante lá. Nos 13 sindicatos do estado estamos fundando uma federação para conseguir uma cadeira na assembleia, para discutir as matérias que condiz com a nossa categoria, hotelaria, gastronomia e turismo”, afirma.
Segundo Ademir, nenhum vereador de Erechim perguntou se o setor precisava de ajuda. “Ninguém veio falar com a gente e os deputados estaduais foi a mesma situação, ninguém se prontificou para perguntar se estávamos precisando de ajuda. É lamentável o que está acontecendo com a gastronomia, hotelaria e o turismo no estado”, observa.
Falta de empregos
Segundo Augusto de Borba, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro, Restaurantes, Bares e Empregados em Turismo e Hospitalidade do Alto Uruguai (Sindthores), a situação do trabalhador está muito complicada. “O destaque maior é para a falta de empregos, que é muito grande e continua, além do salário do trabalhador estar defasado”, disse. Borba comenta que poucos profissionais do setor conseguiram se inserir em outras áreas de trabalho. “A maioria continua procurando alguma atividade para atuar no setor”, afirma.
Ele ressalta que a categoria foi uma das mais atingidas pela pandemia, uma das primeiras a sentir os reflexos do isolamento social imposto pela crise sanitária e que continua ainda vivenciando os reflexos da pandemia. “O turismo não tem perspectiva nenhuma de voltar a funcionar, a não ser quando terminar mesmo toda esta situação. Em 10 meses deve começar a melhorar, mas é mais um ano perdido”, finaliza Augusto.