Produzir alimentos é uma das atividades mais essenciais com reflexos efetivos na saúde pública e na economia. Os benefícios de trabalhar com as plantas e a terra são inúmeros, ainda mais quando se cultiva de forma agroecológica, em que há uma transformação na maneira plantar e se relacionar com a natureza. Foi isso que experimentou e vem vivenciando a agricultora familiar, Cleonice Farikoski, de Três Arroios, que trabalha numa pequena propriedade agrícola, que produz alimentos orgânicos.
Ela conta que no início foi muito difícil, mas que todo o esforço feito trouxe resultados e, hoje, não se vê trabalhando em outra atividade, já que transformou a agroecologia num projeto de vida.
Desempregada e o início de tudo
“Tudo começou há cerca de cinco anos quando começamos a produzir alimentos orgânicos. Eu estava desempregada, morava na cidade e voltei para o interior e comecei a produzir alimentos orgânicos junto com a minha sogra, a dona Leonir Farikoski”, lembra.
A produção deu certo e elas foram buscar a certificação da produção orgânica para começar a vender na feira em Passo Fundo. “E, assim, iniciou o amor pela produção de alimentos sem agrotóxicos, sem produtos químicos. Sempre amei muito a terra e dei muito valor ao meio ambiente, convivendo com os elementos da natureza. Assim, transformei a agroecologia num projeto de vida, e é isso que eu quero para o resto da minha vida”, comenta.
Conforme Cleonice, o começo foi bem difícil porque, diz ela, “imagina uma mulher sair da cidade para o campo. Mas a minha sogra abraçou a ideia e começamos a plantar juntas, dividindo os prejuízos e lucros, e estamos juntas até hoje. E isso deu tão certo que no ano passado meu marido Greiço Farikoski saiu da prefeitura como funcionário público concursado para trabalhar com agricultura orgânica também”
O nome da marca, Amor à Terra - Produtos Orgânicos, comenta Cleonice, surgiu por sugestão de uma amiga.
Harmonia com a natureza
Ela ressalta que pratica uma agricultura que respeita a natureza. “Pois é dela que retiramos o nosso sustento”, afirma. E, acrescenta, “trabalhamos em harmonia com a natureza, praticando adubações verdes, cobertura de solo, com uma agrofloresta em construção”.
Segundo Cleonice, raras foram as vezes em que se fez o controle biológico, que é natural, em algum tipo de doença. “Na agricultura convencional se passa agrotóxico e na orgânica tem alternativas biológicas, porém, não usamos. A gente planta toda semana, em pequenas áreas, então, é mais viável deixar a natureza fazer o trabalho dela de atacar aquelas plantas do que matar a doença. E, se está acontecendo um ataque, é porque alguma coisa está em desequilíbrio neste ambiente”, explica.
Outra prática é não retirar os matos, as outras plantas, o que chamam de erva-daninha. “Pelo contrário, produzimos em associação com essas ervas, e observando as plantas da minha horta, a maioria delas se beneficia uma das outras. As plantas se ajudam. Por exemplo, num ataque de rugas, elas não atacam todas as plantas, mais aquelas que ficam na beirada. Então, as hortaliças, verduras, acabam sendo preservadas. Por isso que não vou plantar nada em terra 100% limpa, porque a resistência está nas próprias plantas. Essa é a forma que eu trabalho”, observa.
Alternativa para pequeno agricultor
Conforme Cleonice, a produção orgânica é uma importante alternativa para o pequeno agricultor já que possibilita boa renda em pequenas áreas de terra. “Mas para ser produtor orgânico precisa muito mais do que uma área de terra, e eu não tenho até hoje, trabalhamos na propriedade do meu sogro, temos que amar o que a gente faz. E eu acredito que cada um nasce para fazer alguma coisa, e eu nasci para produzir alimentos saudáveis que levam saúde para as pessoas”, observa.
Pandemia
A agricultora ressalta que com a pandemia surgiram muitas oportunidades para vender produtos orgânicos. “E, hoje, há falta de produção orgânica. Falta produto na propriedade para ser vendido. Se tivesse mais, venderia mais, mas não temos como expandir porque não temos mais mão de obra”, comenta.
Cleonice enfatiza que a produção orgânica é uma boa alternativa, mas tem que amar esse trabalho, a terra, as plantas. “Não dá para ver somente como negócio”, afirma.
Produção diversificada
Ela explica que há uma diversidade muito grande de plantas na propriedade dois hectares de horta. “São mais de 50 tipos de culturas que a gente produz entre hortaliças, verduras, legumes, amendoim, batata-doce. O que ajuda a gente a vender bem é a diversidade. Isso é positivo para a pequena propriedade”, observa.
Atualmente, eles produzem cerca de 12 mil unidades de hortaliças por mês, e 15 toneladas por ano de batata-doce, pepino, abobrinha, vagens, moranga e diversas frutas.
Rotação de cultura
Outra questão importante da produção orgânica é fazer a rotação de cultura. “Se plantei beterraba depois vou plantar rúcula. E outro fator importante que aprendi, observando a horta, é plantar tudo em linhas, uma de beterraba outra de rúcula, alface, couve-flor. A minha horta é uma ‘bagunça’, mas muito rentável. É importante misturar tudo, e isso deu supercerto, não deu problemas com doenças e pragas. Dá pra chegar na horta escolher um alimento e comer”, afirma.
E acrescenta, “a terra é um ser vivo, tem que ser tratada como um ser vivo, e, por isso, tem que estar sempre coberta com verde”.
Controle das pragas com flores
A agricultora explica que na agroecologia se utiliza diferentes tipos de flores para controlar as pragas nas hortas, plantadas em linha na beirada dos canteiros para atrair os insetos. “A gente usa girassol, margarida, zinnia (zínia) e, também, as flores silvestres que nascem e acabamos deixando elas fazer o controle dos insetos. Além disso, usamos as flores para fazer buques e vender na feira”, observa.
Comercialização
Os produtos são comercializados na feira de Passo fundo, em Gaurama, com entrega delivery em casa no município, e a família já está programando para começar um delivery em Erechim.
É preciso ter vocação
“Apesar de todas as dificuldades não abaixei a cabeça quando diziam que ia dar errado. Muitas vezes fui regar as minhas plantas, com lágrimas, porque o começo foi muito difícil, mas hoje estamos colhendo os resultados”, afirma.