O mercado das cervejas artesanais está crescendo no Brasil, ano após ano. E quem diria que Erechim teria um pub ou melhor um brewpub, por definição uma empresa que produz e vende sua própria cerveja. Pois é, agora tem e está lá para todos. E para saber mais sobre esse empreendimento, o Jornal Bom Dia conversou com Nina Rosa Zanin Zanella e Ciro Espindola F. Fernandes, cervejeiros artesãos, que acreditaram na ideia e colocaram a produção em prática. Eles contam, a seguir, um pouco mais dessa história de dedicação e superação, e enfatizam que ainda é preciso muito trabalho e esclarecimento para que cada vez mais pessoas possam entender que a cerveja artesanal é uma bebida democrática e para todos.
Façam um breve histórico profissional dos dois
Eu, Nina, sou formada em Biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pós-graduada em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelo Instituto de Pós Graduação (IPOG), mestrado (não concluído) em Ciência e Tecnologia Ambiental pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Após o término da graduação morei na Nova Zelândia por um ano, onde pude vivenciar muitas experiências. Trabalhei em diversas áreas dentro da Biologia: monitoramento de biota marinha em um navio sísmico, Educação Ambiental, consultoria e muito trabalho de campo! Porém, trabalhar com meio ambiente é muito desafiador e por muitas vezes frustrante. Fui me aventurar em novos projetos ... e, dentro disso, a cerveja artesanal foi aparecendo em diferentes ocasiões.
Eu, Ciro, sou e engenheiro de Alimentos pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), mestre em Tecnologias de Bioprospecção (Unochapecó). Trabalhei por 6 anos na indústria de alimentos (BRF e Aurora Alimentos) até abrir a Lupulando.
Por que resolveram investir numa cervejaria? Essa é a definição, cerveja mesmo? Qual seria?
Hoje, na legislação brasileira, está definido o que já vinha sendo usado: chopp é o produto “vivo”, não pasteurizado, geralmente servido nas torneiras dos bares e pubs (mas pode ser envasado também desde que mantido refrigerado). A cerveja é o mesmo produto, porém passa por um processo de pasteurização e geralmente recebe uma carga de produtos químicos aumentando sua estabilidade e durabilidade. O Ciro, por ser engenheiro de Alimentos, já pensava em ter uma fábrica (não necessariamente uma cervejaria), mas já tinha bem clara a ideia de que se era pra dar certo teria que ser feita de maneira correta e profissional.
Quando essa ideia começou?
Quando nos conhecemos em 2017, o Ciro já fazia cerveja caseira desde 2015, porém, estava meio desanimado com a produção (o que acontece com muitos cervejeiros caseiros, pois é bem cansativo e o processo exige bastante, principalmente se você pensar que fará isso no seu horário de folga). Eu estava reformando uma peça na casa da minha mãe, estudando o assunto e aprendendo muito com um grande amigo de Florianópolis, o Simão da Cerveja Campeche. Comecei em setembro daquele mesmo ano a minha produção. Depois de alguns meses fazendo cerveja sozinha, com feedbacks bem positivos, porém já muito cansada, conversamos e decidimos que poderíamos fazer isso juntos. E em maio de 2018 estava fundada a Lupulando Fabricação de Cervejas Especiais Ltda.
Como conseguiram colocar em prática?
Juntamos absolutamente todas nossas economias e compramos uma câmara fria usada (mas bem usada!) e um carro velho utilitário, transformando-o em um tipo de beertruck (carro equipado para vender chopp em eventos). Como nossa produção era muito pequena também revendíamos chopp de outras cervejarias para fazer um extra. Depois de muitos e muitos quilômetros rodados e eventos que participamos, fomos nos sentindo confiantes do nosso potencial e vendo crescer a ideia e necessidade de termos nossa própria fábrica e ponto de venda. Assim, decidimos abrir o brewpub (por definição um pub que produz e vende sua própria cerveja) e em agosto de 2019 conseguimos realizar o projeto.
Quais foram e são as maiores dificuldades de empreender neste segmento?
Primeiramente o investimento. Todo equipamento cervejeiro (principalmente os profissionais) são muito caros! Com certeza aí é o primeiro e um dos maiores obstáculos a serem enfrentados. Uma outra dificuldade inicial foi o zoneamento urbano da cidade que era obsoleto e não permitia que nos instalássemos no centro, sendo que o porte de nossa cervejaria pode ser comparado a de um restaurante ou padaria de qualquer bairro. Por sorte ou destino, a legislação mudou bem na ocasião e as coisas foram se resolvendo nesse sentido burocrático. Sabemos que é um mercado em plena expansão, porém, comparando-se à grande indústria, sabe-se que tem muito a crescer ainda. Na nossa região sentimos que aos poucos as pessoas estão desmistificando a cerveja artesanal, porém ainda é preciso muito trabalho e esclarecimento para que cada vez mais pessoas possam entender que é uma bebida democrática e para todos. Poderíamos descrever muitas outras dificuldades que tivemos e ainda temos, mas enfim, qualquer área tem seus desafios, mencionamos alguns deles.
Que tipos de cerveja produzem e vendem? Qual é a mais difícil de se fazer? E por quê?
Hoje temos quase 30 receitas diferentes de cervejas, as quais são desenvolvidas individualmente por um de nós dois (mas sempre passíveis de serem ajustadas com a opinião do outro). Assim temos duas marcas dentro da nossa cervejaria: Hermanita (receitas da Nina) e Cerveja do Porão (receitas do Ciro). Temos muitas cervejas tradicionais como Pilsen, Blond, APA, IPA, Session IPA, Stout, Red... e também produzimos o que costumamos chamar de Experimentos Cervejeiros: cervejas inusitadas que não são comumente encontradas, principalmente assim, frescas: muita fruta envolvida, especiarias, sementes, madeiras... que trazem ao paladar experiências completamente diferenciadas. Quanto a dificuldade de se fazer não muda, o processo é quase o mesmo para todas, salvo alguns detalhes de uma ou outra receita... o que difere é que algumas levam uma quantidade muito maior de insumos.
Qual é a peculiaridade desse tipo de produção? Ela é considerada artesanal? O que quer dizer isso?
Há controvérsias em relação ao tema “artesanal”, pois a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) considera artesanal cervejas com produção de até 415 mil litros / mês. Isso é muita cerveja, e depende de processos industriais altamente complexos, com grande número de pessoas envolvidas.
Aqui produzimos cerca de 2.000 litros/mês. Apesar de também exigir processos complexos, conseguimos nós mesmos cuidar de tudo com todo zelo que podemos ter.
Consideramos artesanal o produto que é feito pela mão do artesão. Então se você conhece a pessoa que “cozinha” em uma pequena estrutura a cerveja que você bebe, este cervejeiro provavelmente é um artesão (risos).
Vendem produtos de outras cervejarias na empresa de vocês? Por quê?
Vendemos de outros parceiros sim. Geralmente mantemos algumas torneiras convidadas de cervejarias aqui da região, como a Nordus de Chapecó e a Bota Amarela aqui de Erechim. Acreditamos que o sol nasce para todos e a parceria só fortalece o mercado como um todo, afinal, quanto mais gente bebendo cerveja artesanal, melhor. Assim como ninguém ouve sempre a mesma música, não toma sempre a mesma cerveja. Se alguém descobrir esse maravilhoso mundo através da Lupulando ou de outra cervejaria, tanto faz. O importante é que a partir daquele momento mais alguém estará vendo a cerveja sob um novo prisma.
Como definir, caracterizar, o negócio de vocês?
Como foi dito, somos um brewpub (por definição um pub que produz e vende sua própria cerveja). Costumamos fazer uma analogia que somos como uma padaria, só que de cerveja: um local onde você pode comprar sua bebida e levar para aproveitar em casa da forma como quiser ou pode consumir no nosso espaço e degustar por ali mesmo! Simples assim.
Essa é uma bebida milenar, comente um pouco sobre isso.
O que se sabe é que a cerveja surgiu há milênios, cerca de 6000 anos, com os sumérios, na Mesopotâmia (provavelmente sem querer, depois que algum estoque de cereal foi molhado e fermentou). A partir dessa descoberta essa bebida fascinante foi evoluindo, sendo modificada e melhorada. As mulheres estão intimamente ligadas com esse processo, uma vez que desde esses tempos antigos mais remotos, passando pelos povos nórdicos, depois também na Idade Média, eram apenas as mulheres que podiam produzir. Inclusive, para os vikings, os utensílios por elas utilizados eram considerados sagrados e ninguém podia tocá-los. Isso mudou muito com a Revolução Industrial, em que a cerveja foi posta na produção em massa e os homens, na época, achavam que mulheres não poderiam comandar indústrias, deixando-as por algum tempo de lado neste processo. Dentro dessa temática, voltamos a repetir que a cerveja é para todos, portanto a sua produção também é! Nos últimos anos, aos poucos, isso vem mudando e cada vez mais as mulheres estão assumindo cargos dentro da cadeia produtiva cervejeira.
O público, consumidor, tem dado resposta positiva?
Com certeza! Costumamos dizer que é “um caminho sem volta”! Depois que a pessoa percebe as diferenças sensoriais e de custo benefício da cerveja artesanal, dificilmente ela deixará de consumir. Claro que eventualmente toma cerveja da grande indústria, absolutamente normal. Mas com certeza irá tomar cerveja artesanal, sempre que possível!
O negócio se paga?
Esperamos um dia que sim (risos)! Lutamos muito pra isso. Se continuarmos no caminho que estamos conseguiremos chegar lá. Mas como foi dito, o investimento é pesado, e quando não se tem o capital, tudo precisa ser feito aos pouquinhos. E é assim que vamos seguindo, com muito trabalho e perseverança.
O que gostariam de ressaltar?
Estamos muito felizes de sermos o primeiro brewpub de Erechim. Acreditamos que nossa cidade e região têm muito potencial e muito a crescer! É preciso que valorizemos o que é daqui! Nossa gastronomia, nossa arte, cultura, esporte, nossas belezas naturais ... enfim, que Erechim um dia possa ser vista, principalmente por nós, moradores, como o lugar maravilhoso que é.