A pandemia de covid-19 continua exigindo muito de todos. Além da crise sanitária, com milhares de vidas perdidas, diariamente, a doença trouxe, também, inúmeros prejuízos econômicos. E este cenário só não é pior porque em meio a tanta tristeza a vida consegue se refazer e dar uma resposta positiva com ações solidárias.
E, um exemplo de solidariedade foi a família Kruze de Marcelino Ramos, produtores orgânicos e agroecológicos, localizados às margens do Rio Uruguai, que fizeram a doação de 460 quilos de alimentos à Obra Promocional Santa Marta de Erechim, no final do mês de maio. Os alimentos entregues à entidade foram repassados para as cerca de 50 famílias das crianças e adolescentes atendidos pela instituição. A família Kruze integra o Grupo de Agroecologia Costeiros do Uruguai, ligado à Rede Ecovida.
O Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA) e a Emater intermediaram a entrega dos alimentos, com a presença de Pamela, Alexandre e Marcos Kruze. A doação tinha mandioca, batata-doce, banana, laranja e bergamota. Além disso, a família também entregou quatro sacolas de agasalhos arrecadados nos locais de comercialização dos seus produtos.
Agroindústria
Segundo Pamela, a família tem uma agroindústria na Linha São Sebastião, distrito de Coronel Teixeira, interior de Marcelino Ramos. “O nome dela é KL Alimentos”, disse.
Ela explica que a agroindústria é acompanhada pela Emater, desde quando surgiu a ideia de abrir o negócio há uns seis anos. “Há uns dois anos o CAPA chegou até nós e vem, também, dando assessoria”, explica.
Ideia da doação
Pamela explica que a ideia da doação surgiu como um sonho, que aos poucos foi tomando forma com a orientação do engenheiro agrônomo, Carlos Angonese, e de João Daniel Foschiera do CAPA.
“Nós atendemos 35 municípios entre o norte do Rio Grande do Sul (RS) e oeste de Santa Catarina (SC). Já víamos muitas pessoas com necessidades, e isso foi comovendo, a todos nós. Quando chegou esta pandemia a tristeza e a fome aumentaram, então, começamos a pensar o que poderíamos fazer para ajudar”, comenta.
E, acrescenta, “temos muitos alimentos que produzimos em nossa propriedade, em grandes quantidades, e aí surgiu a oportunidade de conhecer a Obra Santa Marta, o João agendou o dia e nos acompanhou. Foi uma sensação maravilhosa, conhecer aquele trabalho desenvolvido de uma forma tão grandiosa”.
Alimentos
Conforme a produtora rural, se organizou a doação separando certa quantidade de produtos, mandioca que é carro-forte da agroindústria, batata-doce, banana, poncã, dois tipos de laranja e bergamota. “Fiz uns pedidos para algumas pessoas da família, clientes, e arrecadei quatro sacos de roupas para todas faixas etárias”, diz.
Realidade
“Foi um sonho que se tornou realidade. Acreditamos que todo mundo tem um tempo para fazer o bem, só precisa de um empurrãozinho. Esperamos que através desta atitude outras pessoas também doem. Não precisa comprar nada para doar, muitas vezes temos sobrando dentro de nossa casa, de nossa propriedade. Para quem doa parece pouco, mas para quem recebe é muito”, afirma.
Para ela, só o fato de saber que a sua atitude ajudou alguém já é gratificante. “Saímos da Obra Santa Marta com a alma renovada. Estamos planejando novas doações, talvez para outras instituições. Não foi a primeira, e nem será a última”, disse.
Santa Marta
Há 27 anos, a Obra Santa Marta contribui com a comunidade do bairro Progresso, em Erechim. A entidade visa resgatar e promover a cidadania de crianças, adolescentes e seus familiares, que vivem em situação de vulnerabilidade social.
Caminho de esperança
Conforme o assessor do CAPA, João Daniel Foschiera, a interação entre espaços de produção agroecológica, como o da família Kruze, e espaços urbanos que defendem a vida, como a Obra Santa Marta, trazem uma mensagem a todas as pessoas neste momento de dificuldades que enfrentamos. “A solidariedade somada à produção orgânica agroecológica aponta um caminho para sonharmos”, observa.
Insegurança alimentar
Segundo dados da Secretaria de Assistência Social de Erechim, o número de pessoas que realizaram Cadastro Único aumentou. Entre janeiro e março do ano passado, foram 812 inscritos, neste ano, nos primeiros 4 meses o número já ultrapassou a marca de 1.300 novos cadastros.
Segundo a Assistência Social, também aumentou a distribuição de cestas básicas. A média mensal do ano passado foi de 250 cestas. Neste ano, foram distribuídas 385 em janeiro, 435 em fevereiro e 520 no mês de março.
Brasil
Conforme publicado na Agência Brasil, o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), indica que nos últimos meses do ano passado 19 milhões de brasileiros passaram fome e mais da metade dos domicílios no país enfrentou algum grau de insegurança alimentar.
“A sondagem inédita estima que 55,2% dos lares brasileiros, ou o correspondente a 116,8 milhões de pessoas, conviveram com algum grau de insegurança alimentar no final de 2020, e 9% deles vivenciaram insegurança alimentar grave, isto é, passaram fome, nos três meses anteriores ao período de coleta, feita em dezembro de 2020, em 2.180 domicílios”.
De acordo com os pesquisadores, o número encontrado de 19 milhões de brasileiros que passaram fome na pandemia do novo coronavírus é o dobro do que foi registrado em 2009, com o retorno ao nível observado em 2004. A coleta de dados ocorreu nas cinco regiões brasileiras, abrangendo tanto áreas rurais como urbanas, no período em que o auxílio emergencial concedido pelo governo federal a 68 milhões de brasileiros, no valor inicial de R$ 600 mensais, havia sido reduzido para R$ 300 ao mês.