Ultimamente tenho sido frequentemente questionado por amigos e até desconhecidos, quanto às origens e quem de fato é o Sapateiro de Bruxelas. Sobre a genealogia do mestre me manifestarei em artigos futuros, pois é longa a sua saga familiar e remonta aos tempos do império romano. Nesta senda igualmente será esclarecida sua naturalidade belga.
No entanto, hoje, em respeito e consideração aos curiosos e gentis leitores, discorrerei brevemente sobre alguns aspectos muito peculiares da personalidade e comportamento do artífice.
Então vamos lá: o Sapateiro de Bruxelas é uma combinação particular de virtudes ou defeitos, uma pessoa comum, real, um concentrado de amigos e, portanto, não constitui um protótipo de santidade. Embora seja um personagem fictício tem muitas qualidades e certos deméritos, alguns deles conflitantes e não publicáveis.
Como qualquer um de nós, adultos e já entrados nos anos, está acostumado a lidar com intempéries, má sorte, preconceitos e opressões hostis. A têmpera humana se forja nas adversidades - nos repete o sábio em suas preleções semanais.
Aprendeu lidar consigo, com os outros e com os infortúnios de modo adequado e minimamente desgastante. Como é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, sabe dar nó em fumaça e tem consciência que a corda sempre arrebenta na ponta mais fraca. Isso lhe rende alguma vantagem, conhecimentos e a necessária astúcia para enfrentar o cotidiano e as peças pregadas pelo destino.
Por ser disciplinado, desenvolve diversas habilidades, geralmente, vence obstáculos e alcança seus objetivos que, cada vez, se tornam mais complexos e elaborados.
Ultimamente, o artífice tem nos parecido um tanto complacente e distraído. Porém, na média, está mais impaciente e ranzinza. A ele, no entanto, não cabe o rótulo da conformidade. Sofre de certa inquietude mental. Os familiares dizem que se trata de herança genética materna.
Na escola da vida tem certeza que aprendeu mais com as contestações, percalços, dificuldades e notas baixas. As avaliações positivas, facilidades e adulações no mais das vezes se mostraram traiçoeiras e escorregadias.
Nos afirma que como homem só consegue ver o mundo através das lentes e filtros do seu gênero. Para alguns, esse fato tem influência determinante sobre sua sensibilidade e capacidade de julgamento e análise. Porém, se diz perfeitamente “conformado” e confortável com a situação, considerada um tanto excêntrica pelos mais arejados.
O coureiro admira profundamente as mulheres que cultivam a beleza física e mental. Aprecia as atitudes de preservação da família e das espécies em geral. Um lar além de filhos, deve ser composto por animais como gatos, cachorros, tartarugas e papagaios. Ou todos juntos, se possível. Para o bruxelense as mulheres, além de propiciarem as mais lindas emoções, dão asas infinitas às aventuras da vida e do amor.
Sabe, no entanto e no andar da carruagem, que as paixões adotam múltiplas faces e máscaras. Confundem aos que elas se entregam e impedem de ver os fatos como realmente são. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém - sustenta o velho matreiro.
Recomenda redobrado cuidado com pessoas que acreditam que os fins justificam os meios. Talvez essas sejam as piores. Não tolera e não perdoa os invejosos, porque além de notórios incompetentes não conseguem esconder sua inconformidade com o sucesso alheio.
Muito frequentemente insiste no dito popular: se conselho fosse bom não seria dado de graça. Embora reforce - com semelhante intensidade e frequência - que o melhor conselho se torna inútil se não for seguido pelos que não querem ouvir. Pior cego é o que não quer ver.
Vive e convive bem com seus demônios internos, neuroses, cicatrizes emocionais, vícios e limitações autoimpostas. Não mais se decepciona, nem consigo e tampouco com os outros. Não cobra nada de ninguém e não busca vingança, só não esquece o nome. Considera-se um ser experiente e bem resolvido, embora guarde forte suspeita que alguns parceiros de cafezinho não o percebem assim.
Hoje se considera um lobo solitário – ou um lobo sanitário - que à custa da pandemia rejeita a sociedade e por ela é rejeitado. Seu habitat é o isolamento e seu estado natural, a solidão. Restam-lhe alguns uivos ou ganidos que propaga via internet em suas lives semanais.
Por sobreviver às provações e provocações do tempo, se alegra ao dividir com os parceiros de café conhecimentos e aprendizados, além do bom humor, obtidos através da vivência plena e arrebatadora.
Valores e princípios, além da inata vocação para moldar o couro e os calçados, dão ao artesão o domínio da forma. Isso para ele – em sua linguagem peculiar - é deveras confortante e alentador.
Enfim, para o Sapateiro de Bruxelas, s’est la vie... diz o belga. Mesmo que momentaneamente ela não esteja en rose.
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.