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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas e O Fio De Ariadne

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas guarda imensa admiração pela mitologia grega, como vistos em suas frequentes lives, principalmente em tempos de pandemia. Nessa semana, o belga trouxe à baila mais uma lenda que faz questão de passar em detalhes à turma do cafezinho virtual.

Romântico irremediável e encantado com os próprios sonhos, o artesão sente a presença próxima, quase física, palpável e cheirável da linda Ariadne, filha de Minos, que por sua vez, é filho de Zeus e Europa.

Enfatiza o mestre, no início da fala, que a maior parte das histórias gregas era passadas através da tradição oral, propiciando, portanto, muitas variantes deste e de outros relatos míticos.

De acordo com a versão do coureiro, Minos - rei da ilha de Creta - atacou a cidade de Atenas após ter seu filho ali assassinado. Sem alternativas para viver em paz, aterrorizados e oprimidos, os atenienses terminaram por aceitar uma cruel reparação na forma de entrega de sete homens jovens e sete moças a cada nove anos em sacrifício ao monstruoso Minotauro. Tal criatura medonha, com corpo de homem, cabeça e cauda de touro, habitava o labirinto construído por Dédalo e concebido com o fim de impedir a saída dos que lá se aventurassem a entrar. Então, encurraladas, as oferendas humanas eram trucidadas e devoradas pelo disforme animal.

O artífice segue absorto e calmo na curiosa narrativa: Teseu, cujo nome significa “o homem forte por excelência”, resolveu acabar com tal descalabro ateniense e enfrentar cara-a-cara o temível monstro. Astuto, por precaução, consultou o antigo e renomado Oráculo de Delfos no intuito de descobrir se sairia vencedor. O oráculo respondeu afirmativamente, desde que ajudado pelo amor de uma virgem.

Na sequência – discorre o velho sábio - Ariadne, a filha do rei Minos, se apaixona perdidamente (desculpem a redundância) por Teseu e diz que o ajudaria se a levasse à Atenas para que se casassem. Observa o bruxelense, num parêntesis rápido, que desde tempos imemoriais as moçoilas adoram um bom pedido de casamento.

Porém, à essa altura do campeonato e praticamente sem alternativas, o viril combatente reconheceu que essa seria a única chance de sair vivo da empreitada e, sensatamente, optou por aceitar a feminina intimação. Salienta o belga, que na ocasião - segundo alguns maledicentes cretenses - Teseu pesou muito bem as consequências e terminou por concluir, enfim, seria algo melhor casar que morrer.

Ariadne, loira belíssima, deu-lhe então uma espada e um fio de lã que ela mesma havia tecido (Fio de Ariadne), para que o mancebo pudesse achar o caminho de saída do labirinto. Deste fio, ficaria a lindona apaixonada a segurar uma das pontas para garantir o reencontro triunfante com o amado. Após uma peleja descomunal Teseu obteve retumbante vitória e voltou à Atenas com a noiva a tiracolo - conforme previamente combinado. A história dos dois continua e muitas peripécias acontecem, mas o belga prefere interromper a narrativa e encaminhar suas digressões e conclusões finais restritas a este episódio específico.

Retornando aos meandros da lenda em pauta, o calçadista explica que o Fio de Ariadne representa um símbolo fantástico da força do amor e interação quase telepática que une as pessoas em relacionamentos intensos. E acrescenta: as vezes, essas ligações podem inclusive nos puxar como conexões físicas. São muito próximas a “barra da saia” ou “cordão umbilical” que une até mesmo filhos adultos às mães idosas. Embora invisível, a força de tensão é maior que a do próprio aço.

Assim, para o Sapateiro, o Fio de Ariadne é um condutor energético que liga alguém muito importante e amado às pessoas queridas ou que comungam dos mesmos ideais. Desse modo, um herói, um pai ou mesmo um líder pode se aventurar até as raias da loucura ou da morte, mas na hora certa será puxado de volta por esses laços mais que afetivos.

Esse fio também é a pista que permite ao buscador de boa índole rastrear até a outra extremidade o caminho das respostas e da ordem. A meada que conecta um coração justo a outro é o vestígio vital que desvenda complexos mistérios e resolve imensos conflitos.

Ao encaminhar o término da palestra eletrônica o Sapateiro de Bruxelas muda o tom de voz, altera o semblante e desperta de seu devaneio mitológico. Previdente, o mestre faz um vaticínio enigmático para alguns e bastante claro para tantos outros:

- Hoje vivemos tempos de polarizações e desavenças morais e éticas profundas, quase mortais. É, portanto, chegada a hora de cada um encontrar e agarrar o seu Fio de Ariadne, tecido pelos princípios, valores, senso de justiça e amor ao próximo que existem em nossos corações. E armados com a espada da verdade, em nome de nossos filhos e netos, juntos, penetrarmos no labirinto do poder político para enfrentarmos os monstros que lá habitam e que há décadas nos impõem ladroagens, corrupção, injustiças, misérias e desonras.  Não há mais como retroceder ou postergar. Se assim não fizermos, estaremos fadados ao pior dos destinos, o ocaso dos covardes.

Médico,

Membro da Academia Erechinense de Letras,

Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.

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