Mais agroindústrias optam por produzir alimentos de forma orgânica, sem usar agrotóxicos. Mas o que significa isso e como buscar a certificação? A Agroindústria Bisol de Severiano de Almeida e a Agroindústria Familiar KL Alimentos de Marcelino Ramos receberam, na semana que passou, a Certificação de Produção Orgânica da Rede EcoVida. As duas agroindústrias estão agora credenciadas para o beneficiamento e comercialização de aipim descascado orgânico. A Agroindústria Familiar KL vai beneficiar e comercializar também banana, batata doce, bergamota, feijão e laranja.
Certificação
Segundo o engenheiro agrônomo e assessor técnico do Centro de Apoio e Promoção de Agroecologia (CAPA), João Daniel Wermann Foschiera, hoje, a certificação está a cargo da Rede EcoVida, com mais de 3500 famílias certificadas no sul do Brasil. “São pequenos agricultores e agricultoras campesinos, que produzem produtos agroecológicos que abastecem feiras, vendas institucionais como PAA e PNAE, e, também, através de um circuito criado entre Rio Grande do Sul até o sul de São Paulo, que fazem a comercialização de produtos agroecológicos na região sul do país”, comenta.
CAPA
Ele conta que o principal foco do CAPA é promover e divulgar para agricultores e comunidade a pauta da agroecologia. “O CAPA trabalha com assessoria e produção orgânica há 43 anos, e difunde a certificação participativa porque é um modelo que consegue integrar e é acessível aos pequenos agricultores da região Alto Uruguai”, afirma.
Processos
Sobre os processos de certificação, explica João, o CAPA tem parcerias com outras entidades. “Por exemplo, o Carlos Angonese, da Emater, ajuda nas questões sanitárias. A agroindústria orgânica tem que se encaixar na legislação sanitária convencional para depois partir para a legislação de orgânicos”, afirma.
Importância
“Produtos orgânicos, agroecológicos, partem do princípio de nenhum uso de substâncias químicas e industrial, veneno, agrotóxicos, é um alimento limpo que chega à mesa do consumidor do Alto Uruguai com qualidade superior, nutricional, e também valorizando o produto local”, observa.
Conforme João, a agroindústria em si dá um aval de comercialização maior. “Hoje, em Erechim, há nove feiras e diversas feiras espalhadas pelo Alto Uruguai, que tem agroecologistas orgânicos. E isso é muito importante para a alimentação local. A agroindústria tem capacidade de comercialização maior, agregando valor ao produto, e, também, chegando as gôndolas de mercado, e se inserindo nos programas institucionais do governo”, ressalta.
Social e cultural
Sobre a questão social, comenta João, parte do princípio da valorização. “Por exemplo, a cultura do aipim, a mandioca, que é brasileira, indígena, foi domesticada durante dois mil anos. Num processo de domesticação de raiz pelos indígenas e, hoje, alimenta o povo brasileiro. A importância desse trabalho no campo é a difusão de material genético de aipim e, também, a garantia de um miniprocessado, mandioca descascada congelada, sem o uso de qualquer tipo de agrotóxico, que está chegando à mesa do povo brasileiro, de Erechim e região. Substituindo um pouco a ideia dos impérios alimentares, superindustrializados com muita adição de conservantes e químicos, que são comprovadamente maléficos a saúde humana”, explica.
Qualidade nutricional
Ele observa que o aipim chega à mesa do consumidor sem nenhum tipo de agrotóxico e com um complexo de nutrientes muito maior. “A família Kruze e Bisol vem se integrando aos processos de certificação participativa, além de trabalhar a comercialização de seus produtos na região, eles conseguem trazer e multiplicar várias cultivares de aipim com a ajuda da Emater, que tem contribuído com isso, trazendo material genético da Embrapa. Hoje tem aproximadamente 12 variedades de aipim, com uma diversidade de cores e sabores, e as agroindústrias certificadas têm agora a possibilidade de se integrar a mercados de produtos orgânicos”, explica.
E, acrescenta, “a gente enquanto CAPA vê isso como uma ideia para multiplicar, integrando outras agroindústrias, buscando uma produção limpa sem agrotóxicos, que preserve o meio ambiente quanto as relações sociais”.
Comercialização
Conforme João, a Cooperativa Nossa Terra integra muitos agricultores familiares do Alto Uruguai, e tem a expertise da comercialização institucional de vendas diretas dos produtos da agricultura familiar. “Estão inserindo em seus catálogos de comercialização produtos da agricultura familiar camponesa orgânicos, como aipim e arroz, produtos de origem animal, grãos, e vem se integrando ao processo da certificação participativa, contribuindo para que as famílias associadas à cooperativa comecem a mudar a perspectiva de produção convencional, químico-industrial, para uma produção agroecológica, orgânica, pensando nos princípios da natureza, de cooperação”, destaca.
Pioneiros
Em 1986, o CAPA iniciou as atividades em agroecologia na região do Alto Uruguai, com seminários e reuniões com as famílias agricultoras. Os pioneiros foram a engenheira agrônoma, Ingrid Margarete Giesel, e o pastor, Eckhard Krol, da Paróquia Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em Erexim. Em 1988, passou a fazer parte da equipe o técnico em agropecuária, Vitor Hugo Hollas.
Em 1988, o CAPA passou a ter uma sede no município de Erechim, atuando nos municípios da região e no oeste de Santa Catarina. Um pouco mais tarde o CETAP somou-se a esta caminhada e foi criado o Núcleo Alto Uruguai da Rede Ecovida de Agroecologia
Neste sentido foram formados grupos agroecológicos, constituídas associações, construídas agroindústrias, a fundação da Cooperativa Cooperfas (Cooperativa dos Agricultores Familiares Ecologistas Solidários) e a Feira da Ecoterra.
As associações e os grupos pioneiros na região são: Associação dos Agricultores Familiares do Lageado Henrique (AAFLE) – Erexim, Associação dos Agricultores Familiares do Campo Alegre (AAFA) - Barra do Rio Azul, Grupo Agroecológico de Vaca Morta – Três Arroios, Grupo Agroecológico de Linha Napoleão – Severiano de Almeida, Grupo de Agricultores Familiares de Anita Garibaldi – Floriano Peixoto, Associação Regional de Cooperação e Agroecologia – Ecoterra, Grupo de Agricultores de Volta Fechada e Grupo de Agricultores de Barra do Sarandi em Aratiba.
Hoje, existem vários espaços de comercialização em Erechim e nos municípios da região, com destaque para as feiras da agricultura familiar, onde as famílias comercializam sua produção.