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Opinião

O mercador de espíritos

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Marcos Vinicius Simon Leite
Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Rodrigo Finardi

Esses dias estive em Porto Alegre e num final de tarde passei pelo caminho dos antiquários, um pedaço do Centro Histórico onde, numa única quadra, é possível visitar várias lojas dedicadas a esse mercado da antiguidade. Quem gosta de história, como eu, sente uma atração por esse tipo de lugar. É assim também com museus, carros antigos e outras velharias. Mas uma coisa me chamou atenção: as pessoas que trabalham nesses locais. Eram todos pardacentos e seus semblantes pareciam misturar-se a todas aqueles objetos centenários. Por que razão, me pus a pensar.

Shopping terapia

Quando a gente entra numa loja de coisas novas, como num shopping, por exemplo, há toda uma atmosfera pensada para você desapegar de suas economias. São aromas, vitrines, música, conceitos comerciais. Tudo pensado para que você reaja, comprando. Há quem faça isso como terapia, indo ao shopping para se sentir melhor, mesmo que isso custe caro ou que o objeto da compra seja depois enjaulado no guarda-roupas ou noutro local de armazenamento. Logo, se te fazem bem, são locais de boa energia, por mais volátil que possa ser.

A “vibe” da velharia

Mas, e os antiquários? Será que eles têm boa energia? Eis uma boa pergunta. A contar pelo aspecto das pessoas que lá trabalham, talvez não. Se olharmos como são organizadas essas lojas, menos ainda. O apelo não é para o bem-estar, para o comércio desenfreado. Ao contrário, são quase santuários a serem visitados, ou revisitados. Nesses lugares a gente encontra objetos que a gente via na casa dos avós, na casa dos tios e tudo isso faz a nossa mente voltar no tempo. Com os carros antigos acontece a mesma coisa. Aquele cheiro de gasolina vindo do carburador, o cheio da palha dos bancos de courvin um corcel dos anos 70, tudo isso remete à nossa infância e às nossas lembranças afetivas. E por aí se vai, embarcamos numa viagem ao passado através de um simples objeto ou cheiro. São lugares que tem uma vibração própria.

Tudo é energia

Partindo do pressuposto de que somos pura energia, imagino que de fato essas pessoas que trabalham em antiquários, por mais que sejam apaixonadas pelo brilhante ofício, por mais que sejam conhecedoras da arte e da história, são pessoas expostas a energias densas. Imagine um determinado objeto, daqueles que sua avó não deixava você sequer chegar perto. Aquele enfeite que nem mesmo a empregada da casa aristocrata podia tirar o pó. Quando seus donos partem, a impressão que se tem é de que um pouco dessa energia de posse permanece impregnada ao objeto. Assim que morrem, os sucessores não têm o que fazer. Pior, muitas vezes, querem se livrar, tamanha era a neurose por causa desses objetos. E o destino não pode ser outro, senão o antiquário, por respeito.

Você, leitor, já deve ter percebido. Eu realmente gosto dessas coisas. Portanto, se você já está em idade avançada, permita-se desapegar de seus objetos. Não precisa vender, doar, apenas desapegue, no sentido de que a importância dele seja apenas decorativa. Esqueça o sentimento de posse. Já é seu há tanto tempo. Reflita! Pense nas pessoas que irão cuidar desses itens nos antiquários e você estará os deixando numa vibração mais positiva, menos pardacenta, menos Piaf, como as belas construções da Normandia. Boas lembranças trarão boas vibrações! Desapegue!

 

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