O Sapateiro de Bruxelas nos solicita com a devida vênia, a possibilidade de relatar à turma do cafezinho, uma pequena história acontecida no passado, quando vivia em Porto Alegre. Prontamente aquiescemos ao pedido do mestre que, sem mais delongas, inicia a fala:
“Pois morrera o Palhares. Fora atropelado por um bonde na avenida Assis Brasil, perto da volta do Guerino. A hipótese de suicídio fora imediatamente descartada. A unanimidade geral – mesmo que redundante - concordava: o Palha (apelido do morto) não teria coragem para tanto – era por demais medroso, sem caráter.
Homicídio chegou a ser ventilado. Havia motivo. O motorneiro morava na lomba do cemitério e era cruzeirense roxo; enquanto o falecido, ali do Passo D’areia, fora patrono do Barroso - São José. Intrigas à parte, chegou-se à explicação mais lógica e plausível, embora peremptoriamente negada pelas moças do Instituto e Salão de Beleza La Belle de Jour, situado nas imediações do acidente. O realmente acontecido resultara de um escorregão fatal, quando Janjão Porrete aparecera de surpresa na esquina. A linda Iracema – quase virgem com os lábios de mel, segundo maledicentes do bairro -, pressentindo forte tempestade, estremecera aos braços do Palha, precipitando o final fatídico.
Juntou gente de tudo que foi lado, do Lindóia a Cachoeirinha. Logo uma senhorinha beata cobriu o corpo com um lençol branco e acendeu uma vela. Alguns ativistas mais exaltados, com bandeiras em punho, clamaram por justiça, pelo fim dos bondes e quiçá da energia elétrica, além de tentarem linchar o intruso piloto por não ter descarrilhado o veículo ou saltado à frente para imolar-se pelo (não) tão digno morador local.
Sem maiores preâmbulos o Sapateiro segue em sua narrativa e nos leva direto ao velório que, segundo consta, acontecera na capela mortuária do bairro.
Como era bastante comum à época, meados da década de 1960, apresentou-se o orador fúnebre para entoar a devida nênia.
Detalhista e protocolar, iniciou com o tradicional prólogo laudatório exaltando as inequívocas virtudes e inigualáveis qualidades do recém falecido; sua vocação para o fazer o bem sem olhar a quem, sua honestidade a toda prova; companheirismo fraternal e lealdade incorruptível; além do patriotismo exacerbado e amor às artes, que cultivava a levar a música aos lares, bares e adjacências – principalmente às adjacências - nas noites da capital.
Jurema e dona Jertrudes (com jota), respectivas esposa e sogra do defunto assistiam entre o pasmo e a incredulidade a ininteligível verbosidade do gentil e estranho bardo.
Por via das dúvidas, convocaram a um canto da sala o novo varão da família, o Palhinha, para tratar dos ajustes necessários às loas entoadas pelo discursador.
De pronto Aldephonso Júnior, que até ali, do alto de seus doze anos se dedicara a apalpar as primas e amigas em abraços encharcados, e apostar com os amigos que o padre iria errar o nome do pai na hora de encomendação, dirigiu-se ao eloquente trovador e, sem pestanejar, puxou-o pela manga do paletó e sussurrou:
- Oh moço, a mãe e a vó mandaram dizer que o senhor entrou no velório errado. É pra parar com essa lenga-lenga e dar no pé de vez...
E Palhinha ainda emendou:
- O pai gostava mesmo era de carteado, boemia e mulher. Não é teu direito vir aqui e tirar esses méritos”.
Diz o belga não saber bem o porquê de haver lembrado dessa historieta - segundo ele, verídica. Talvez seja pelo acúmulo de ocorrências funestas - ao seu entender exageradas em frequência e intensidade - nesse início do Século XXI, em que os curiosos necrófilos não precisam mais sair de casa ver e ouvir os tristes fatos. A morbidade virou show de TV. E comenta: - Com o ocaso da Covid-19, a mídia carniça dá sinais de abstinência e a qualquer custo precisa manter o terror.
E o sábio Sapateiro de Bruxelas chega ao final da prédica semanal com a seguinte e definitiva conclusão:
- Já não se fazem mais cafajestes e velórios como antigamente.
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.