Esse foi o objetivo das três palestras que trouxeram informações históricas, técnicas e de mercado sobre um dos setores produtivos da região que se destacam em âmbito estadual, nacional e internacional: o polo ervateiro, na abertura da programação da Expo Erechim 2021, na manhã de sexta-feira (12).
História e mercado
O engenheiro agrônomo da Emater/Ascar, Ilvandro Barreto de Melo, disse que tratar sobre a cadeia da erva-mate é sempre muito importante. “Porque estamos falando da nossa árvore e bebida símbolos do Rio Grande do Sul, a erva-mate e chimarrão. E, também, porque historicamente a erva-mate ocupou um espaço significativo”, disse.
História
Inicialmente, Ilvandro falou da influência dos jesuítas na cadeia da erva-mate, que inseriram a planta dentro de uma lógica comercial na região sul do Brasil. “Com o crescimento da atividade - as reduções jesuíticas tinham duas grandes atividades econômicas, pecuária de corte e a erva-mate -, que se constituiu o principal produto das reduções até que elas existissem, quando foram extintas por volta de 1750”, explica.
Revolução Farroupilha
Houve também influência da erva-mate dentro da Revolução Farroupilha, tanto que há no brasão de armas do Rio Grande do Sul um ramo de erva-mate. “Isso porque a erva-mate era trocada por armas, medicamentos, munições, e, posteriormente, essas trocas se constituíram num mercado aberto, que dura até hoje”, afirma.
Guerra do Paraguai
Segundo o engenheiro agrônomo, a Guerra do Paraguai exerceu uma influência muito grande no mercado da erva-mate, já que possibilitou que o Rio Grande do Sul, e outros estados brasileiros, produzissem e comercializassem erva-mate para a Europa e países platinos por um período de 80 anos, basicamente, com o Brasil à frente, sozinho, neste mercado de exportação.
Práticas de produção
Depois da contextualização histórica, Ilvandro expôs ao público sobre as boas práticas de produção, a necessidade do produtor ter cuidado com a planta, no manejo e implantação dos ervais e colheita. Além disso ressaltou a importância das boas práticas na indústria, nos processos de sapeco e secagem, no sentido de oferecer um produto de excelente qualidade ao consumidor. “Além da excelência na qualidade é necessário oferecer segurança alimentar. Cada indústria tem que ter um responsável para conduzir o processo industrial”, afirma.
Amplo mercado
Ele comenta que, hoje, a erva-mate está entrando em vários territórios, em torno de 120 países já há uso contínuo de erva-mate, e destes 33 países o Brasil exporta. “Se trata de um produto natural, e as pessoas, no mundo todo, estão buscando erva-mate”, observa.
O engenheiro agrônomo ressalta que todo o trabalho desenvolvido pela Emater com a cadeia da erva-mate no Estado visa o aspecto qualitativo e também a valorização do produto. Ilvandro é o coordenador técnico do Programa Gaúcho para a Qualidade e a Valorização da Erva-mate (PGMATE), que busca a organização do setor, qualidade da erva-mate e a valorização do produto mate.
Alto Uruguai
O coordenador técnico do programa de qualidade estadual, comenta que o estado tem cinco grandes polos ervateiros, e um deles é o Polo Alto Uruguai, juntamente com Missões/ Celeiros, nordeste Gaúcho, região dos Vales, Alto Taquari.
“O Alto Uruguai é muito importante porque tem concentração de ervais e vários municípios na região com boa quantidade de matéria-prima sendo produzida. Outro destaque é a consistência do parque industrial, que tem potencial muito forte, e isso é uma marca do polo ervateiro do Alto Uruguai. Além disso, tem contribuição muito grande na exportação, com pioneirismo nesta área, e representa uma fatia muito grande no mercado nacional, principalmente, exportador, fazendo com que o Alto Uruguai tenha destaque no Rio Grande do Sul e no Brasil”, disse.
Pesquisa científica
A professora e pesquisadora, doutora, Alice Teresa Valduga, que a vida toda se dedica ao estudo da erva-mate, disse que essa é uma cadeia socioeconômica e cultural muito importante para a região sul do Brasil. A pesquisadora falou sobre estudo realizado ao longo de três anos, no Câmpus 2 da URI - Erechim, numa plantação de erva adulta, que apresentava baixa produtividade, troncos muito danificados pela incidência do besouro corintiano.
Na sua palestra, Alice expôs os resultados do estudo que analisou a decepa dos troncos (poda drástica da árvore), propagação vegetativa, rendimentos, e quanto tempo demoraria para recuperar o erval. “O erval se recupera, praticamente, em um ano, e em dois anos ele superou a biomassa que havia sido extraída, por ocasião da decepa, com tronco a 10 e 40 centímetros do solo. A planta se regenerou com perdas de 2%. Isso é uma recuperação fantástica”, explica.
E, acrescenta, “assim, em dois anos, a planta supera a produção de biomassa, e, acredito, que do terceiro ano em diante, ele já tem rendimento muito superior. Se fosse arrancar todo o erval e fazer um plantio novo, se levaria de 6 a 7 anos para ter um erval produtivo”.
A pesquisadora ressalta que os produtores não precisam ter medo de fazer a poda drástica. “Costumo dizer que a erva-mate é uma mãe, se regenera com muita facilidade, mas precisa de condução”, explica.
Saúde e potencial
A engenheira florestal, doutora, Jéssica de Cássia Tomasi falou sobre os compostos bioativos da erva-mate, os benéficos para a saúde humana, e, também, os fatores que influenciam no teor desses compostos bioativos.
A palestra focou na linha fitoquímica da erva-mate e que isso está vinculado a todas as características de manejo da cultura. “O processamento vai influenciar no teor desses compostos”, disse. Ela também apresentou os diferentes produtos à base de erva-mate que estão sendo desenvolvidos hoje no mercado, em função desse potencial fitoquímico da espécie.
“Hoje, temos aplicação em cremes hidratantes, sabonetes, muitos tipos de chás, shampoos e alimentos, afirma. Jéssica afirma que a erva-mate é rica em compostos antioxidantes que combatem os radicais livres, assim como tem propriedade anti-inflamatória, antifúngica e antibacteriana. “Ainda tem muita coisa para ser trabalhada, por exemplo, com as saponinas, que é um grande gargalo, porque os frutos da erva-mate são muito ricos desses compostos”, disse.
Além disso, Jéssica destacou os ácidos fenólicos que têm um teor bastante elevado na erva-mate e são os grandes agentes antioxidantes da espécie, assim como a cafeína, que é um composto estimulante do sistema nervoso central. Ele acrescenta que o manejo e a sazonalidade, as estações do ano, interferem na “flutuação desses compostos e no teor que a planta vai ter. Aqui, na região, a erva-mate é de muita qualidade”.