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Opinião

Vizinhos

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Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Divulgação

No curso de nossas vidas, diversas pessoas cruzam o nosso destino. São os colegas de colégio, de serviço e até aquele motorista do ônibus que há anos te leva ao trabalho e que já te conhece pelo nome. Mas tem também os vizinhos. E você, já parou para pensar na importância de um vizinho? Nunca passou pela sua cabeça, questionar porque aquela pessoa cruzou o teu caminho? Eu tenho uma teoria que explica isso, mas ela é só minha e decorre das minhas vivências.

Meus primórdios

Repare: os vizinhos fazem parte da nossa história. Não há biografia sem eles. Quando nasci, morava em um apartamento, num conjunto de edifícios, considerados grandes para o ano 1974. Desde meus primeiros dias, experimentei a importância de se ter vizinhos. Gente de todo o tipo. No nosso prédio tinha uma artista plástica alemã, fugida da segunda guerra e uma família de negros, que rezavam por mim quando nasci. Conviviam harmoniosamente naquele prédio, católicos, protestantes e os umbandistas. Embora fosse pequeno, frequentávamos, uns aos outros, sem tempo para frescura ou preconceito. Época das chamadas vacas magras.

Meus amigos maloqueiros

Depois que mudamos, terminei minha infância perto dos “maloqueiros”, como eram chamadas as crianças pobres que jogavam bola comigo, no campinho de areia da Serraria, zona sul de Porto Alegre. Também não lembro de sofrer ameaças ou correr riscos. O maior que corri foi pegar sarna e piolho (não ao mesmo tempo), coisa comum naquela época em que as crianças brincavam na rua, livres. A gente tinha medo era da polícia, que naquele tempo primeiro batia, depois perguntava. Uma vez tive de esconder os tais maloqueiros atrás do muro da minha casa, para não sofrerem nas mãos dela. O nosso delito? Jogar bola até escurecer. O crime compensava. Anos depois, mudei com a família para um apartamento e lá conheci uma menina, que de certa forma, está comigo desde os meus 10 anos de idade. Nossos pais ainda moram no mesmo andar, já se vão quase 40 anos.

Meus vizinhos do PT

Depois de casados, fomos viver em um condomínio. Na casa em frente, tinha um casal que simpatizava com o PT. Eram petistas de bandeirinha. Naquele tempo a gente já olhava sestroso praquela estrela colada no vidro da casa deles. Mas bastou conhecer quem estava por trás dela para ver quão importantes os vizinhos seriam em nossa vida. Se todos os simpatizantes políticos fossem como eles o mundo estaria salvo. No dia dos pais de 2011, nosso segundo filho havia recém nascido, mas estava em observação na UTI. Foi um dia estranho, mas a sensibilidades dos vizinhos acolheu a mim e minha filha para o almoço daquele domingo, que se tornou especial e inesquecível. Sensibilidade. Guarde essa palavra. Isso é coisa que só os vizinhos têm. Mesmo tendo mudado de lá há quase dez anos, a amizade e o carinho permanecem com nossos amigos Caio, Bina e Titi, os Baseggio.

Como era em 1949

Rachel de Queiroz escreveu uma crônica sobre os vizinhos em meados de 1949, para a badalada Revista O Cruzeiro. Naquele tempo, ela citava em seu texto que uma das máximas da boa educação, era que se devia ignorar - tanto quanto possível - a existência dos vizinhos. Mas esse não era seu pensamento. Ela pensava o contrário. Dizia que a mais sublime prova de distinção que pode dar de si mesmo um imbecil mortal é declarar que reside há dez ou vinte anos no mesmo apartamento e desconhece até mesmo o sobrenome do casal que mora em frente ou o da velhota que mora ao lado. Sábias palavras.

O vizinho é o próximo

Mas a minha teoria, como disse no início, é a de que os vizinhos vêm de Deus. Fazem parte do nosso destino. Acredito piamente nisso. Os vizinhos socorrem o infartado, dão comida ao teu melhor amigo canino, molham tua horta e cuidam tuas plantas, recebem aquela encomenda que você tanto aguarda. Alguns, se tornam amigos de toda a vida, como no meu caso que ainda tive a sorte de casar com a vizinha. Somos seres gregários, deixamos as cavernas para morarmos em vilas e cidades, mas essa ancestralidade está em nosso DNA. Não podemos jamais ignorar a importância dos vizinhos. Cuide bem dos seus, eles fazem parte da sua história. Ame-os, como em Marcos (12:33): “Amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar ao próximo como a si mesmo é mais importante do que todos os sacrifícios e ofertas”.

 

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