O Sapateiro de Bruxelas tem na mitologia grega uma fonte inesgotável de inspiração e sabedoria. Os enredos e histórias, envolvendo a intimidade dos deuses e deusas, carregam mensagens que renovam e reativam o repertório do belga. Suas elucubrações míticas, por vezes um tanto tortuosas, apontam soluções, simulações e ilações, úteis e grandiosas, que atenuam eventuais discordâncias acontecidas entre os discípulos do cafezinho.
Pois, nos assegura o artesão em sua última live, que, segundo a lenda, havia Cassandra, uma mulher esplendorosa. Ainda informa que a moçoila fazia parte da numerosa prole de dezenove descendentes do rei Príamo e da rainha Hécuba, de Troia, portanto, irmã de Heitor, Paris e Polixema.
Por sua beleza ímpar e relações sociais de altíssimo nível e grau, a linda recebeu de Apolo o incomum dom da profecia. Em troca do saber futuro, virtude tão cara e cobiçada por todos – principalmente em tempos de guerra –, a exuberante e luxuriosa jovem deveria entregar-se ao vigoroso deus.
Porém, por motivos aleatórios, Cassandra não cumpriu a sua parte do trato nupcial. Apolo que já andava meio escaldado com o caso de Dafne (a ninfa que virou loureiro na hora H) e outras investidas amorosas má sucedidas, profundamente indignado com o carão desmoralizante, no uso de seu divino poder, amaldiçoou-a pelo imperdoável logro e delito afetivo. Mais que isso: irado, o deus cuspiu na boca principesca, tirando-lhe, por despeito e ódio, o dom da persuasão.
Daí em diante Cassandra vagou pela vida afora fazendo profecias a esmo. Até tentou alertar sua família e seu povo sobre a destruição da cidade-reino pelos inimigos gregos e seu gigantesco cavalo de madeira, mas restou totalmente desacreditada.
Aqui, ali e acolá, Cassandra parecia uma matraca ambulante e falava sem parar e sem despertar crédito algum. Embora suas premonições fossem verdadeiras, pertinentes e corretas, ninguém – ninguém mesmo – acreditava numa vírgula do que dizia ela.
Abreviando a narrativa e detalhes menores, o bruxelense vai direto ao ponto e à moral da história: de nada adianta clarividência, sabedoria, ou boa intenção, sem credibilidade, respeito e confiança das pessoas.
Portanto – segundo o artífice – fica fácil, quase forçoso, nos tempos atuais, traçar uma paralela barata entre alguns personagens que frequentam as sagradas instituições republicanas, boa parte da grande mídia, e a mitológica Cassandra de Apolo.
Não é novidade que há muitos velhacos distribuídos entre políticos e imprensa que se prestam a representar Cassandra no tetro do poder nacional. Manipulam dados, distorcem informações e cancelam fatos reais com a maior falta de vergonha e cara de pau.
Por mera safadeza serviçal – ou em alguns casos mais graves, por sobrevivência eleitoral – mentem descaradamente e a mais não poder. Assim, por certo, não merecem nada mais que a repulsa da sociedade.
E ao encaminhar o final da prédica semanal, diz o Sapateiro esperar que no próximo pleito – definitivamente consciente e indignado – Sua Excelência, o Eleitor, se invista dos poderes divinos de Apolo e cuspa na goela dos corruptos safados que, por força de disparates inconfessáveis e impensáveis manobras, pretendem exercer eternamente o poder e com isso moldar o país a seu bel-prazer e usufruto.
Lembra, no entanto, o bruxelense que Cassandra era uma bela mulher. Delas tudo se pode e deve esperar. E a elas tudo se deve perdoar e conceder.
Apolo, no intempestivo episódio em pauta, teve um comportamento rude e desmedido; hoje certamente correria o risco de amargar uma Maria da Penha ou coisa pior. Por sua vez, o mestre afirma que se no lugar do deus estivesse na dita ocasião, a história não teria um final tão edificante e sequer serviria de lição de moral a ninguém.
Seria bem diferente: o calçadista, sinuoso, amoleceria seu coração na hora e na boa. Daria a amável Cassandra uma segunda, até uma terceira ou quarta chance, por acreditar piamente que ao fim e ao cabo, com o andar do tempo e da carruagem, ela bem faria por merecer o perdão.
Como diz uma senhorinha que conheci no passado: esse Sapateiro é mesmo um pândego.
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.