Filosofia, consciência, escolhas lógicas, pragmatismo, liderança e heroísmo são temas da live nada formal propalada pelo Sapateiro de Bruxelas nesta semana. Por dever e por conhecer o teor do texto, de início, recomendo que o amigo leitor persista na leitura somente se não tiver nada – ou seja, absolutamente nada – para fazer nos próximos minutos; caso contrário, aos afazeres, que certamente serão mais interessantes e compensatórios.
Já dizia o filósofo, só sei que nada sei. Assim, ficam todos previamente avisados que o artesão nada sabe sobre os conceitos a serem exarados no decorrer da palestra eletrônica. De qualquer forma, sejam quais forem os complexos processos biológicos e neurais que ocorrem nos bastidores do cérebro do belga, é a sua consciência que oferece o palco para experiências e pensamentos que ele imagina, invariavelmente, úteis e produtivos aos amigos do café.
Diz-nos o mestre que são dos pensamentos e experiências que emanam as intenções e os desejos – nem sempre de todo confessáveis. Assim fica claro que a consciência, ao menos em princípio, é o que rege o senso e as oportunidades de cada um.
Do exercício ordenado da consciência, surge a lógica, pela qual as conclusões seguem-se a um conjunto de premissas, preferencialmente verdadeiras e consequentes, proporcionais às limitações e às percepções pessoais de cada indivíduo.
Da consciência e da lógica juntas, nasce naturalmente a escolha, mediante um processo em que diferentes desejos, pressões e atitudes que combatem entre si, de modo a resultar numa decisão única ou numa ação, que contempla os anseios mais ou menos elevados – dependendo da capacidade intelectual e rigor moral de quem a pratica.
Portanto, geralmente pesa sobre a escolha, a razão ou a moralidade, ainda que algumas vezes, estas sejam frutos da hipocrisia ou, em casos extremos, da cretinice.
Mesmo assim – lembra o velho sábio – que certa vez disse Caroline Myss, filósofa e conferencista internacional nos campos da medicina energética e consciência humana: “Como heróis em uma mítica jornada, estamos sempre lutando para fazer as escolhas certas”... ainda que errando com incrível frequência – acrescenta o calejado artífice.
E o Sapateiro ainda afirma que para fazer escolhas é preciso ter coragem, que é uma tentativa desassombrada de alcançar um fim, apesar das dificuldades, riscos, custos ou sanções suficientemente sérias para dissuadir a maioria das pessoas.
Para o belga, a coragem como um estado de espírito, assemelha-se à alegria, ante as dificuldades.
Lembra o erudito palestrante, que para Miguel de Cervantes (1547-1616), o grande autor de “Dom Quixote”, o significado da verdadeira coragem está entre os extremos da covardia e da impetuosidade. De outro modo, pode-se afirmar que a coragem não é a ausência de medo – o que seria uma aberração ou uma burrice – mas sim a capacidade de sentir o grau adequado de medo.
Portanto – conclui o sábio – se controlarmos a consciência, a lógica, as escolhas e a coragem, chegaremos finalmente ao pragmatismo.
O pragmatismo, por sua vez, consiste na crença de que o significado de uma doutrina é idêntico aos efeitos práticos que resultam de sua adoção. Ou seja, a crença numa determinada ideia tem de ter uma conexão direta com o sucesso de uma determinada empreitada. Trocando em miúdos: o fim justifica os meios. Para o pragmático, a razão prática sempre se sobrepõe à razão teórica – afirma incontido o bruxelense.
Ao encaminhar o encerramento da presente embromação, que já se delonga mais do que deveria, o calçadista relata uma edificante historieta ocorrida há muito tempo, quando os galeões ainda singravam os mares. Tal lenda sintetiza todo o conteúdo da live de hoje.
“Eis que um famoso comandante e sua tripulação estavam para ser atacados por um terrível navio pirata.
Consciente do perigo iminente, os marinheiros ameaçaram entrar em pânico, enquanto o corajoso chefe fazia sua escolha, ordenando ao imediato:
– Traga minha camisa vermelha!
O imediato prontamente trouxe a camisa vermelha do altivo oficial.
Ele a vestiu e liderou bravamente a tripulação na batalha contra os piratas. Depois de uma luta feroz, com o comandante sempre à frente, os piratas foram devidamente rechaçados.
À noite, os homens, sentados ao convés, relembravam o evento do dia, quando um marujo perguntou:
– Chefe, por que o senhor vestiu uma camisa vermelha antes da batalha?
O líder, olhando para o marujo de uma forma que somente um verdadeiro líder sabe olhar, exortou:
– Se eu fosse ferido na batalha, a camisa vermelha impediria que se visse o sangue, e vocês, homens, continuariam a lutar valentemente.
Os marinheiros ficaram em silêncio, rendendo homenagem à imensa coragem de seu condutor.
Na manhã seguinte, apareceram dois navios piratas visando à abordagem do galeão. Novamente a tripulação sentiu intenso medo, mas o oficial desassombrado, repetiu in continenti:
– Tragam minha camisa vermelha!
Outra vez, os heroicos marujos repeliram o ataque das naus piratas, muito embora com algumas baixas.
Mais tarde, entretanto, os piratas voltaram a armar-se e apareceram com dez navios para o derradeiro enfrentamento.
Os homens temeram, e, apavorados, foram ao chefe, esperando a suprema decisão. O líder, pragmático como sempre, deu uma tossidinha e, meio de lado, falou à ordenança:
– Desta vez, a coisa está feia mesmo. Traga minha calça marrom e um odorizador sanitário!”
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A. A. da Biblioteca Pública do RS.