Nunca passei fome na vida, não faço a mínima ideia o que seja isso, passar dias sem ter com o que se alimentar, sentir as tripas revirarem, pedir alimento, e não ter nada para satisfazê-las. Mesmo nos momentos mais difíceis da minha família, a geladeira sempre teve comida, houve café da manhã, almoço e janta. E não tenho mérito nenhum nisso, porque a família proveu a minha segurança alimentar.
É revoltante e inadmissível num dos países, como o Brasil, que mais produzem alimentos no mundo, que não tem desastres naturais - pelo menos não sistematicamente -, tem ambiente “ideal” para se cultivar alimentos, as pessoas passarem fome, precisarem catar restos de comida em lixões, caçambas de caminhões, no lixo das casas. E ninguém passa fome porque quer.
Mais de 100 milhões
Hoje, 19 milhões de brasileiros passam fome, mais de 100 milhões de pessoas no Brasil sofrem com algum grau de insegurança alimentar, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), que explica, “insegurança alimentar é quando alguém não tem acesso pleno e permanente a alimentos”. A Rede PENSSAN ressalta que mais da metade da população brasileira está nessa situação, nos mais variados níveis: leve, moderado ou grave.
Os dados, de dezembro de 2020, do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar da Rede PENSSAN, “mostram que nos três meses anteriores à coleta de dados, apenas 44,8% dos lares tinham seus moradores e suas moradoras em situação de segurança alimentar. Isso significa que em 55,2% dos domicílios os habitantes conviviam com a insegurança alimentar, um aumento de 54% desde 2018 (36,7%)”.
“Em números absolutos: no período abrangido pela pesquisa, 116,8 milhões de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos. Desses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave)”, diz a pesquisa.
Conforme a Rede, esse é um cenário fruto da combinação das crises econômica, política e sanitária, que provocou uma imensa redução da segurança alimentar em todo o Brasil.
Região
Em Erechim e região há também insegurança alimentar, mas em função da atuação das prefeituras, organizações, entidades, escolas, movimentos sociais se consegue dar uma resposta efetiva para esse problema. E no restante do Brasil, é assim? Mesmo que existam ações são muitas pessoas para serem atendidas. Só governos podem fazer frente a essa situação. E esse é o ponto, quem chega nesta situação precisa de auxílio para sair dela.
Apesar de não ter tido essa nefasta, ignominiosa, degradante experiência, é muito fácil chegar nesta condição, quando se perde o trabalho, por exemplo, ou não se tem família para recorrer, crédito, amigos.
É preciso reverter esse quadro de fome. Há estratégias, estrutura e dinheiro no país para derrotar a miséria generalizada. Mas precisa ser prioridade resolvê-la. Nada pode ser mais urgente.
E para falar na linguagem que se entende, economia se faz, primeiro, com integridade do ser humano e, por consequência, trabalho e consumo das famílias, que representa mais de 60% na formação de toda riqueza do país. Por mais óbvio que possa parecer, sem as pessoas nada faz sentido.
Ano que vem, que aí está, o país terá eleições, mas me questiono, de que tipo? Com mais de 100 milhões de brasileiros tendo algum tipo de insegurança alimentar, passando necessidade, o que esperar? As eleições da fome?