A seca que atinge o Alto Uruguai pode ser considerada a maior dos últimos 30 anos, na região. As perdas se multiplicam, diariamente, inclusive dificultando o acesso à água para cerca de mil famílias na região, que dependem do transporte realizado pelas prefeituras para atender as necessidades básicas. O calor excessivo, destrutivo, já afeta todos os segmentos produtivos e os prejuízos estimados já chegam a mais de R$ 1 bilhão no campo.
“No ano passado, o PIB agropecuário da região Alto Uruguai chegou a cerca de R$ 4 bilhões envolvendo soja, milho, milho-silagem, feijão, trigo, produção de leite e gado de corte, atualmente, já temos perdas de R$ 1 bilhão em função da estiagem”, afirma o engenheiro agrônomo, Luiz Ângelo Poletto, assistente técnico regional em Sistemas de Produção Vegetal da Emater/Ascar.
Além da quebra na produção agrícola, outro problema devastador é a falta de água nas propriedades rurais para o consumo das famílias e dos animais. Poletto afirma que em torno de 1000 famílias estão sofrendo com esse problema e dependendo a prefeitura para suprir essa necessidade. “E, por isso, a importância de se levar água para as propriedades rurais, que é um trabalho que as prefeituras estão fazendo”, disse.
Soja
No momento, comenta o engenheiro agrônomo, já é possível contabilizar perdas de 20% na cultura da soja, tendo como base a expectativa inicial de produtividade, o que resulta em meio bilhão de reais em prejuízos, que podem ainda se ampliar se não ocorrer as chuvas previstas no próximo fim de semana.
“Para amenizar os problemas e melhorar a situação das lavouras na região. Porque as chuvas que houveram auxiliaram no desenvolvimento das plantas em alguns locais, dando início a formação de vagem, principalmente onde foi plantado de forma mais precoce, mais ainda assim é um período bastante crítico para soja, porque há necessidade de mais água”, afirma.
Milho
No milho, observa Poletto, as perdas já chegam a 60% o que resulta em prejuízos de R$ 400 milhões. “Quem plantou cedo começa a colher o que sobrou, mas o milho praticamente morreu, e a produtividade está em 80, 90 sacos, alguns um pouco mais”, disse.
Milho-silagem
Segundo Poletto, o milho-silagem, com 15.840 hectares plantados, está sendo colhido com produtividade de 20 toneladas por hectare, a metade da projeção inicial esperada de 40 toneladas por hectare. Além da quebra de produtividade, Poletto ressalta que a silagem está de péssima qualidade, e isso tudo resulta em perdas de R$ 150 milhões.
Leite
“No leite, há perda de produção diária em 20%, com tendência de aumentar, se persistir essa situação de alta incidência de sol, clima desfavorável para o animal produzir leite, vai reduzir cada vez mais a produtividade no leite, assim como no gado de corte”, explica.
Erva e citros
A estiagem também vai ter reflexos na produção da erva-mate e citricultura, em que as frutas vão ficar com tamanho menor. “Estava-se prevendo uma produtividade de 35 toneladas por hectare, inicialmente, e não deverá chegar a isso, ficando por volta de 30 toneladas por hectare. “Então já há uma perda de 15% na produção de citros a nível de região”, afirma.
Projeção
Poletto afirma que não tem projeção para o fim do fenômeno da estiagem, e que há muita controvérsia nas informações dos centros meteorológicos. “O que é muito ruim para os produtores, para plantar e ter safra boa, fazer o replantio, no momento em que os preços dos insumos estão elevadíssimos”, afirma.
Alto Uruguai
“Os reflexos financeiros serão muito fortes na região, neste ano, já tem produtores que financiaram máquinas e tem interesse em devolver esses equipamentos. Essa já pode ser considera a maior seca dos últimos 30 anos”, conta.
Prefeitura de Erechim
Segundo o secretário de Agricultura, Abastecimento e Segurança Alimentar, William Racoski, atualmente, a prefeitura, Força Voluntária e Defesa Civil, secretarias de Obras e Meio Ambiente, estão levando água para 25 pontos no município, atendendo em torno de 50 famílias. “Depois da chuva não aumentou o número de novos pedidos, algumas fontes voltaram a ter água, porém não solucionaram os problemas, precisaríamos de chuvas acima de 100 milímetros”, comenta.
No entanto, o secretário ressalta que o município tem estrutura para dobrar o transporte de água. “Estamos avaliando cada caso”, afirma. Ele explica que o milho não tem mais o que fazer e a soja do município se recuperou um pouco com a chuva de 30 milímetros dos últimos dias. Auxiliando também as frutas que estavam muito secas.
William enfatiza que os prejuízos na agricultura passam dos R$ 42 milhões, mas também haverá reflexos no poder público, já que vai diminuir a arrecadação, além das perdas no comércio.
Sindicato Rural de Erechim
Conforme o presidente do Sindicato Rural de Erechim, Clóvis Henrique Tonin, recentemente foi feita uma reunião com a Emater e várias entidades para avaliar a situação da estiagem, que é muito preocupante. “Como sabemos as perdas serão muito grandes, principalmente na área do milho, cerca de 60% da produção, também vamos registrar perdas na soja e no leite, em pelo menos 20% que devem apresentar uma redução de safra e qualidade. Com isso os preços vão subir, não apenas dos alimentos, mas também de produção. Estamos acompanhando junto com outras entidades e autoridades a questão dos decretos e prestando apoio aos agricultores”, disse.
Meteorologia
Segundo o analista do Laboratório de Meteorologia da Embrapa Trigo de Passo Fundo, Aldemir Pasinato, está entrando, nesta semana, uma massa de ar seco no Estado, que vai elevar as temperaturas na região Alto Uruguai a partir desta quinta-feira, fazendo os termômetros oscilarem de 30 graus a 33 graus na semana. “As maiores temperaturas devem ser registradas no fim de semana, com previsão de atingir até 37 graus no domingo”, afirma.
O analista comenta que tem previsão de pancadas de chuvas, mas que serão isoladas e de baixa precipitação. Ele explica que com esse calor, há reflexos na cultura da soja, aumento da evaporação, baixa umidade do solo, o que contribui para continuar a reduzir o potencial produtiva da cultura.
Janeiro
Ele ressalta que não tem previsão de chuvas significativas, na região, para as próximas semanas, e janeiro deve registrar, em função do fenômeno La Nina, chuvas abaixo da média histórica e, também, temperaturas ligeiramente acima da média histórica. Segundo Aldemir, os efeitos do fenômeno La Nina devem persistir, segundo projeções, até o mês de março.