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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas, a Experiência de Milgram e a Pulga atrás da Orelha

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Alcides Mandelli Stumpf,
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Na live de hoje, o Sapateiro de Bruxelas fala à turma do cafezinho sobre o psicólogo norte-americano Stanley Milgram (1933-1984), que realizou um estudo no mínimo polêmico e deveras paradigmático – aceito por alguns, e execrado por outros tantos, acentua.

O artesão conta que o professor Milgram, judeu de família afetada pelo holocausto, foi influenciado pelos violentos eventos e efeitos da Segunda Grande Guerra Mundial. Igualmente foi sensibilizado pelo processo de julgamento de Adolf Eichmann, um dos mais altos militares da polícia nazista, que por fim, o inspirou a realizar estudo em questão. Mais tarde, em 1964, recebeu o prêmio de psicologia social, da American Association for the Advance of Science.

O estudo, no mínimo curioso, aconteceu em maio de 1961, na Universidade de Yale, em Connecticut, nos EUA. A pretensão inicial era explicar os crimes bárbaros cometidos por nazistas durante a Guerra. O argumento envolvia relações entre aprendizagem e punição, visando a correção de um comportamento considerado incorreto.

Milgram então convidou ao seu laboratório quarenta homens com idades entre 20 e 50 anos, cujos postos de trabalho variavam entre não qualificados a profissionais diferenciados. As cobaias deveriam fazer o papel de um severo professor que aplicava choques elétricos ao aluno, sempre que esse errasse a resposta a uma questão. Esclarece o belga, que os voluntários ganhavam 4 dólares e 50 centavos para contribuírem com o sucesso da empreitada.

O experimento compreendia três pessoas: um laboratorista instrutor, membro da equipe do Dr. Milgram; um professor, que era a cobaia; e um “aprendiz”, ator, também da equipe de Milgram, que ficava amarrado a uma cadeira com eletrodos. O falso aluno que respondia as perguntas era visto como cobaia pela cobaia verdadeira.

O professor, juntamente com o laboratorista instrutor, ficava em um compartimento contíguo ao do aluno, e fazia uma série de associações de palavras que o aluno, por sua vez, deveria responder corretamente. A cada resposta errada o aluno “tomava um choque”, desferido pela cobaia – o que não acontecia na verdade, mas que causava efeito sobre o “professor”.

Conforme o teste evoluía, os choques se tornavam mais intensos, aumentando gradativamente de 15V a 450V.

O aluno ator errava propositadamente as respostas e recebia choques cada vez mais fortes que provocavam reações de incômodo e dor, chegando até a ausência total de respostas por simulação de desmaio – comenta o artesão.

Caso o “professor” relutasse em continuar o experimento, o falso laboratorista, ao seu lado, dava os seguintes comandos: 1) Por favor, continue. 2) O experimento requer que você continue. 3) É absolutamente essencial que você continue; e uma última ordem: 4) Você não tem outra escolha a não ser continuar. Tudo muito bem organizado e meticulosamente executado.

Para estupefação geral da plateia eletrônica, composta pelos amigos e amigas de café, o bruxelense informa que, mesmo parecendo incrível, todos os quarenta participantes dispararam choques de 300V em seus “alunos”. E pior: cerca de 2/3 (65%) deram o choque final de 450V.

Portanto, o estudo sugere fortemente que a maioria das pessoas tende a seguir as instruções provindas de uma figura de autoridade, desde que considere esta uma autoridade legítima – assevera o mestre do alto de sua sabedoria.

Confirma ainda que a experiência foi replicada em outros países e obteve resultados semelhantes, embora fortemente contestada por outros estudiosos por não ter validade científica além de apresentar uma série de problemas teóricos e metodológicos básicos.

Por via das dúvidas o artífice repete as palavras de Milgram: “Pessoas comuns, simplesmente fazendo seu trabalho, e sem qualquer animosidade pessoal, podem tornar-se agentes de processos terrivelmente destrutivos. Além disso, mesmo quando os efeitos nocivos de seu trabalho se tornam claros e eles são orientados a continuar ações incompatíveis com seus padrões fundamentais de moralidade. Relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade”.

Posto isto, o velho belga diz que a seu entender, de alguma forma, podemos estar revivendo a mesma experiência de Milgram, porém em escala planetária.

E explica seu raciocínio peculiar, ao considerar que podemos estar ocupando o lugar das cobaias do evento acima: basta nos submetermos e acreditar cega e piamente nos estímulos e ordens embutidos nas notícias e comentários de instrutores de jornais que a televisão insiste em colocar diariamente dentro de nossas casas.

E arremata ao afirmar que os gigantes midiáticos, indistintamente, estão nas mesmas mãos e bebem da mesma fonte contaminada por ideologias totalitárias fantasiadas de organizações internacionais isentas. Essa fantástica orquestração global, com tonalidades regionais peculiares, visa atingir o mesmo fim em qualquer quadrante do planeta, qual seja: a obediência total dos indivíduos aos ditames, cuidados e preceitos que – no momento – envolvem uma doença pouquíssimo conhecida e hiper dimensionada em sua envergadura e divulgação. Uma espécie de grande ensaio geral para o futuro acorrentado.

Assim, um bando imensurável de cobaias idiotas-politicamente-corretos se alça a fazer juízos e emitir sentenças que estão produzindo um mal irreparável à sociedade, indiferentes aos efeitos morais devastadores que estão propiciando com sua obediência servil.

Vejam que tais áulicos da ignorância, meros papagaios das redes de TV se acham no direito a disparar choques a respostas por eles entendidas erradas como o “Não ao lockdown!”, tratamento precoce e repulsa ao passaporte sanitário nazista.

Ao encerrar sua prédica virtual, com ares de ironia e linguagem peculiar, um tanto demodê, o Sapateiro de Bruxelas conclui sua palestra:

 - Tristes e graves tempos estes em que a razão está prestes a ser alçada ao lixo da história. Porém, mesmo acusado de conspiração, espero tê-los deixado com a pulga atrás da orelha.

Dá um abanico maroto e fecha a tela do computador.

 

Médico,

Membro da Academia Erechinense de Letras,

Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.

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