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Opinião

História do tempo presente e o presente sensível

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Henrique Trizzotto
Por Henrique Trizzotto
Foto Arquivo pessoal

A menos de uma semana, as mídias sociais receberam uma enxurrada de informações acerca da invasão Russa na Ucrânia. Independente do mérito da questão, analisar um conflito ou um fato marcante ocorrido em um tempo vivido é complexo. O jogo de interesses que envolvem o objeto de estudo amplifica-o. Quem são os atores sociais que querem que determinado fato / incidente / ataque ocorra? Quais são os impactos socioeconômicos e políticos a curto e médio prazo?

A definição de “História do Tempo Presente demarca temporalidades em construção, as quais correspondem ao vivido e aos vivos. Trata-se não de uma prática do que pode ser chamado de luto social, como se apenas o mundo dos mortos coubesse à historiografia, mas do envolvimento com as lutas pela sobrevivência e seus conflitos em sociedades marcadas pelo capitalismo e pelas desigualdades sociais” (LOHN, 2019, p.11).

Ricoeur (2007, p. 456) é mais incisivo: a História do Tempo Presente é “aquela onde esbarram uma na outra a palavra dos testemunhos ainda viva e a escrita em que já se recolhem os rastros documentários dos acontecimentos considerados”. Delgado e Ferreira (2014, p. 7) por sua vez apontam que, “a história do tempo presente tem mobilizado segmento expressivo da comunidade de historiadores no plano nacional e internacional. Inscreve-se em um movimento mais amplo de renovação historiográfica que trouxe consigo revitalização da história política, ampliação do uso de fontes, valorização da interdisciplinaridade, maior diálogo com as ciências sociais, recusa de explicações deterministas e totalizantes, valorização de atores individuais e coletivos, relação dialética entre história e memória”.

As transformações sociais, econômicas e políticas ocorridas ao longo das últimas três décadas em âmbito global realinharam o tabuleiro de forças políticas. As potências antagonistas URSS e EUA, deram lugar, em um primeiro momento à hegemonia norte americana, depois os blocos econômicos passaram dar a tônica do mercado: a União Europeia assume a liderança, os Tigres Asiáticos, Opep e Nafta não decolaram, e a ALCA, resume-se a palavra fiasco. Nos anos 2000 temos o BRIC (BRICS a partir de 2008) que passa a ocupar o espaço de “rival” da União Europeia e dos EUA.

Todos estes atores políticos a cada movimento bélico, acordo político ou eleição sacode o tabuleiro. A invasão Russa a Ucrânia não é diferente. Seus impactos gerarão uma reação em cadeia, pois diversos acordos econômicos deixarão de ser cumpridos (cabe lembrar que ambos os países possuem reservas de gás que abastecem vários mercados não só da Europa). Analisar todo este cenário perpassa por observar “as interdependências que emprestam sentido às relações sociais configuram as formas reguladas de compromisso e partilha de horizontes sociais em conflito, intermediando a produção e recepção dos códigos e práticas políticas por conta das experiências em diversos âmbitos de sociabilidades e de associações constituídas, afirmando o pessoal como fenômeno político enquanto construtor de expectativas sociais” (LOHN, 2019, p.22).

Neste sentido, pesquisar estes objetos requer ao historiador analisar as três dimensões que permeiam a sua atuação: “seus dramas”, o olhar observador e sua formação perante os valores e os princípios de sua época (HOBSBAWN, 1995). Portanto, analisar temas sensíveis, como a invasão da Ucrânia, exige um cuidado com a narrativa (de onde estou retirando as informações?), e talvez o mais difícil de todos os exercícios: entender que existem os dois lados do processo. E só a partir disso tecer análises, precisamos combater a era da desinformação.

Referências

LOHN, Reinaldo Lindolfo. Reflexões sobre a história do Tempo Presente: uma história do vivido. EDITORA DA UFRR Diretor da EDUFRR, 2019.

DELGADO, Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Marieta de Moraes (Org.). Introdução. In: DELGADO, Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Marieta de Moraes (Org.). História do tempo presente. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2014. p. 7-12

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007.

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