Durante o discurso na Cerimônia em que Umberto Eco (autor de O nome da rosa, Como se faz uma Tese, Baudolino, Cemitério de Praga, Número Zero e diversas outras obras) recebeu seu título Doutor Honoris Causa da Universidade de Torino em 2015, proferiu provavelmente sua frase mais polêmica: “a internet deu voz a uma legião de imbecis”. Iniciamos com uma frase pesada e até ofensiva para alguns, mas que retrata um cenário repleto de negacionismos e revisionismos históricos que temos enfrentado nos últimos anos.
Primeiramente, precisamos elucidar os conceitos de negacionismo, que sob a interpretação de Valim, Avelar e Bevernage (2021, p 17), “neste início de novo milênio, tornou-se mais multifacetado, definindo-se não mais apenas em função dos conhecidos negadores do Holocausto, mas também a partir de uma miríade de formas de negação de outros genocídios e também de reconstruções revisionistas de passados mais ou menos sensíveis em diversos países”.
Já, o movimento revisionista, “tornou-se uma enorme rede internacional de institutos que possuem um programa de publicações de livros e revistas, principalmente nos Estados Unidos e na Bélgica. São realizados simpósios e conferências, e, além disso, a Internet é utilizada intensivamente há bastante tempo” (KRAUSE-VILMAR, 2000, p. 101)
Portanto, inúmeros portais de informação passaram a dar espaço para teorias que negligenciam / distorcem / ignoram acontecimentos, teorias e movimentos históricos. As principais proposta destes grupos é reescrever uma história do nazismo, apontando por exemplo a não existência do Holocausto e das Câmaras de Gás. O Genocídio Armênio, passa por um “novo” olhar O próprio Erdogan presidente da Turquia manifestou-se inúmeras vezes criminalizando quem fala o termo). No Brasil, o revisionismo busca amainar os fatos ocorridos em março e abril de 1964, com um discurso hegemônico (regime x ditadura; golpe x revolução) ao ponto de tratar o período como ditadura / governo civil – militar.
De acordo com Valim, Avelar e Bevernage (2021, p 18) “o surgimento de um cenário midiático-digital global facilitou a ampla disseminação da negação do Holocausto e de outras formas de negacionismo histórico. O universo virtual não apenas forneceu espaço para a proliferação das mais odiosas e ultrajantes informações, sob um véu relativo de anonimato e impunidade, como também permitiu que muitas mais pessoas pudessem contribuir com esses negacionismos de uma maneira fácil, simplesmente refazendo ou reunindo pedaços de informações encontradas no espaço virtual.
Durante o cenário pandêmico, o negacionismo e o revisionismo chegaram ao seu ápice. A terra se tornou plana, as vacinas viraram agentes de uma guerra biológica em que chips seriam inseridos na pele, que as pessoas sofreriam mutações genéticas e virariam jacarés ou trocariam de sexo biológico. O conhecimento científico voltou a ser atacado. Pesquisadores passaram a dividir a cátedra com doutores honoris causa de Universidades WhatsAppeana, Facebookeana, Twitterana com renomados professores cuja fonte principal de suas cabeças era “Vozes da minha Cabeça”.
Datas como o 31/03, acontecimentos como o holocausto, Genocídio Armênio e demais fatos sensíveis ocorridos em escala local ou global precisam ser estudados / pensados / analisados / revisitados, mas jamais varridos das páginas da história.
Referências
KRAUSE-VILMAR, Dieftrid. A negação dos assassinatos em massa do nacional socialismo: desafios para a ciência e para a educação política. In: MILMAN, Luis (Org.). VIZENTINI, Paulo Fagundes (Org.). Neonazismo, negacionismo e extremismo político. Porto Alegre: Editora da Universidade (UFRGS), 2000.
VALIM, Patrícia; AVELAR, Alexandre de Sá; BEVERNAGE, Berber. Apresentação-negacionismo: história, historiografia e perspectivas de pesquisa. Revista Brasileira de História, v. 41, p. 13-36, 2021.