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Opinião

Cartas de amor /Love letters

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Nat King Cole.
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Love letters poderia ser apenas mais uma linda canção de amor que nos leva para um cenário clássico de Hollywood de décadas passadas, mas é muito mais que isso. A canção, ao lado de Unforgettable, When I fall in Love e Love Is a Many Splendored Thing, dentre outras, foi uma das músicas eternizadas na interpretação de Nat King Cole, cantor e pianista de jazz que brilhou nas décadas de 1940 a 1960. Mais uma vez a elegância e a delicadeza do músico norte-americano, com sua voz suave, potente e sensual transparece nessa memorável performance, capaz de transmitir e envolver seus inebriados ouvintes em uma grande história de amor.

A composição de Victor Young, de 1945 para o filme homônimo (no Brasil, Um amor em cada vida) de William Dieterle, inicialmente sem letra, recebeu seus versos posteriormente. Edward Henman, o letrista, foi encantador ao tratar de uma temática cara à epistolografia amorosa – a comunicação com a pessoa amada e ausente.

Passadas cinco décadas, surge uma nova realidade: acabaram-se as cartas, e com elas as cartas de amor. Terminaram os dias atormentados e as noites insones das paixões à distância. O tempo se tornou estático, e com isso, deixou de ser estético. Também sumiram os sentimentos longos e ternamente embalados por lânguidas letras e alentadoras melodias, além das missivas e dos missivistas.

Ora resta tão somente o e-mail, o WhatsApp, o Facebook, e outras formas de comunicações imediatas, inodoras, insípidas e incolores.

A palavra escrita e errática vigora insossa nas telas luminosas assépticas; não mais existem os cadernos de caligrafia - que no meu caso não ajudaram muito -, mata-borrões ou mesmo borrões de lágrimas sobre folhas antigas.

No momento resta apenas lamentar sobre as amareladas páginas, amigas queridas da juventude distante, senhoras idosas sem serventia, que insistem em não morrer, ao menos para alguns, que as cultivam com romântico ardor.

Acreditem, jovens leitores, havia beijos cravados de rubras saudades, carimbos de batons, que selavam grandes paixões. Depois de lidas e relidas, até decoradas, as benditas páginas eram cuidadosamente dobradas e guardadas em caixas de sapatos ou em pequenos baús de sândalo - extensões de corações distantes - junto a ramas de louro para cultivar a glória e espantar as traças e os mofos do tempo.

A solidão, a eternidade que separava o próximo encontro, se foi embora acompanhada pelo doce aroma do papel perfumado com Givenchy III ou Lancaster, de acordo com o gênero do emitente.

As expectativas infindas, o atraso do carteiro, as distâncias imensas, foram anuladas ou simplesmente suprimidas. Desapareceram as reminiscências, os desapontamentos, os esquecimentos, as ausências e as esperanças do reencontro remetido “Par-Avion”.

Saibam leitores mais jovens, havia enleios, juras eternas, versos e pétalas de rosas, além de propostas escritas que não fazem mais sentido, até porque, com o andar da carruagem, se tornaram desnecessárias e obsoletas. Vocês sequer imaginam como era bom namorar por carta.

Hoje qualquer composição poética soa ridículo, como soa ridículo o amor no papel. Provas são as certidões de casamento, cada vez mais preteridas, se não, abolidas por completo.

Atualmente, sobrevivo sem cartas. Sobram-me bilhetes, principalmente os caseiros. Das filhas recebo alguns bem-humorados – do jeitinho de cada uma, com muito afeto; fazem-me sorrir, cócegas no espírito, carinhos à alma. Da esposa recebo outros, mais densos, geralmente empapados de paixão, postados à cabeceira de nossa cama (temporariamente desprovidos dos inseparáveis bombons, por motivos óbvios, acredito) que alimentam o meu amor, dão forças para enfrentar a sanha diária, a travessia desse imenso árido que se tornou a vida nesses tempos novos.

Volto à abertura, aos últimos versos da linda canção do passado:

“Eu memorizo cada linha,

Eu beijo o nome que você assina

E querida, então eu leio de novo

Desde o início,

Cartas de amor direto de seu coração ...

 

I memorize every line,

I kiss the name that you sign

And darling, then I read again

Right from the start,

Love letters straight from your heart...”

 

Enfim passaram as cartas, passamos nós. Passa a vida.

Médico,

Membro da Academia Erechinense de Letras,

Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.

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