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Cultura

Exclusivo: 'A cultura é uma boia de salvação'

O raciocínio é do presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, Rafael Bán Jacobsen, que esteve em Erechim esta semana prestigiando a posse de cinco novos membros da Academia Erechinense de Letras

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Alcides Stumpf com Rafael Bán Jacobsen que foi escolhido pela fundação alemã Lettrétage como um dos
Por Salus Loch
Foto Lucas De Toni Regginatto

Antes de completar dez anos de idade, Rafael Bán Jacobsen já havia devorado mais de 25 livros do escritor francês Júlio Verne (1828 – 1905). Mergulhado em 20 mil léguas submarinas, acabaria forjando sua essência na busca pelo conhecimento, numa verdadeira viagem ao centro da alma humana. Escolheu, para tanto, trilhar, ao lado da literatura e das artes, o caminho da física. Prestes a completar 41 anos, hoje ele é professor universitário, escritor, poeta, pianista profissional e presidente da Academia Rio-Grandense de Letras. Esta semana, Rafael – que aos 13 anos já havia recebido o Prêmio Açorianos de Destaque em Narrativa Longa – veio a Erechim a convite do médico e escritor Alcides Mandelli Stumpf prestigiar a posse de cinco novos membros da Academia Erechinense de Letras. A coluna aproveitou a ocasião e realizou a entrevista que segue. Confira alguns trechos do bate papo.

 

O Sr é professor de física na UFRGS, escritor, poeta e músico, além de presidir a Academia Rio-Grandense de Letras - função que assumiu antes de completar 40 anos. O que veio primeiro: a física ou as artes?

Sempre fui uma criança voraz na leitura. Lia tudo o que caia nas minhas mãos e, mentalmente, já saia escrevendo. Minhas primeiras memórias era eu escrevendo historinhas sobre os gatos e cachorros lá de casa.  Entre os oito e dez anos devorei todos os livros de aventuras de Julio Verne. Fiquei encantado e marcado pelo seu estilo e capacidade de criar mundos paralelos. Lá pelos 13, 14 anos descobri a física durante as aulas na disciplina de ciências. Naquele momento, o método de trabalho da física, aliando a tentativa de aprender o mundo e a natureza com o raciocínio lógico matemático, me pareceu uma missão extremamente poética. Atraído pela beleza da proposta, mesclando razão e lógica, fui avançando e decidi me profissionalizar na área, entendendo que poderia ser um literato de fim-de-semana e um físico por ofício.

 

Qual é a importância da valorização da cultura e das artes em geral na sociedade? E como o Sr avalia a atuação das Academias de Letras no interior do RS?

A cultura é uma boia de salvação. Muitas vezes, quando você olha para fora enxerga no plano político, econômico ou social uma degradação de tudo quanto parece certo e bom. No entanto, havendo cultura, sempre vai restar a possibilidade de abrirmos um bom livro, escutarmos uma boa música, apreciarmos uma bela tela e, assim, nos salvarmos da mediocridade, da desilusão e do desespero. Acredito que a cultura pode salvar as pessoas e criar um mundo melhor, fazendo mais do que líderes de diversos segmentos. É por isso que valorizo muito o trabalho das Academias de Letras, que felizmente têm se multiplicado no RS. Atualmente, devemos estar com 26 Academias no Estado, com a perspectiva de abertura ou reabertura de outras. Isso é auspicioso, pois o movimento das Academias mobiliza e une pessoas que ainda acreditam no que há de bom no espírito humano.

 

Em sua manifestação durante a solenidade de posse dos novos membros da Academia de Letras de Erechim, o Sr propôs uma reflexão a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Que paralelo podemos traçar entre aquele momento e o presente?

Independente das discussões a respeito de quem encampou no Brasil a vanguarda no modernismo, se foram os paulistas com os Andrades e o seu grupo, ou se alguns intelectuais do Rio de janeiro, o que importa é que aquele momento representou, de fato, uma ruptura. Algo semelhante é percebido hoje. Vivemos momentos de ruptura de uma série de valores. Portanto, como foi lá atrás, agora, em 2022, temos uma ocasião propícia a novas expressões artísticas, o que permite buscarmos outras maneiras de escrever, de pintar, de criar. Devemos aproveitar esse tempo de incertezas, onde muitas coisas parecem estar virando do avesso, e nos perguntarmos: qual é a arte que vamos fazer?

 

Como presidente da Academia de Letras do RS, qual sua avaliação do momento da literatura riograndense?

A literatura gaúcha é muito inserida no cenário nacional. Ela não fica apenas restrita às fronteiras do Mampituba. Hoje, os autores do RS são bem mais lidos no restante do Brasil e vice-versa, o que é positivo e coloca um fim ao que poderíamos chamar de ‘bairrismo’. Isso incentiva a produção, fazendo com que escritores que antigamente pensavam em fazer sucesso apenas em seus redutos, seja Porto Alegre, Pelotas, Santa Maria ou Erechim, almejem voos maiores, pois não é difícil ser lido em outros Estados, bem como participar de eventos literários e conversar com leitores teus no Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e até do Nordeste.

 

Quais realizações da Academia Rio-grandense de Letras o Sr destacaria e o que está no radar da entidade?

A Academia tem feito um movimento de abertura à sociedade cada vez maior. Durante a pandemia, por exemplo, fomos obrigados – como muitas áreas, empresas e instituições - a migrarmos para o digital e lá constituímos um espaço de discussão importante nas redes sociais, promovendo eventos online abertos para o mundo todo. Isso foi muito positivo, pois temos mantido a rotina de toda a última quinta-feira do mês, às 5 horas da tarde, promovermos a apresentação de algum acadêmico. Além disso, com o arrefecimento da pandemia, estamos prospectando a possibilidade de realizarmos, ainda em 2022, o 3o Congresso Estadual das Academias de Letras, dando continuidade a algo que parou em 2018. Outro aspecto importante é que, mesmo nesses tempos difíceis, a Academia mantém seu prestigioso prêmio literário em franca atividade e, em breve, abriremos as inscrições para a edição deste ano. A Academia está viva, sempre buscando se renovar. Ela é significativa para a sociedade; o que não queremos em hipótese alguma é, como eu li uma vez no comentário de uma notícia de Jornal, que as pessoas julguem a entidade como “um bando de velhinhos que toma chá nas quintas e fica filosofando sobre o nada”.

 

Talvez, por isso um jovem como o Sr foi eleito para presidi-la?

Acho que fiz parte disso, sim. Desta busca por uma renovação nos mais diferentes sentidos. Felizmente, temos acadêmicos que ingressaram recentemente com uma faixa etária que seria incomum há 10 ou 20 anos. Além disso, a Academia busca se renovar espiritualmente, para tanto alteramos nosso Estatuto a fim de agilizarmos uma série de procedimentos do dia a dia. Não queremos, e não podemos, ser um navio enferrujado encalhado na beira da praia.

 

O Sr é de origem judaica. Gostaria de questioná-lo sob um tema que me é bastante caro, e creio que o seja também. O que podemos e devemos fazer para barrar eventuais avanços/ímpetos populistas e extremistas que, volta e meia, afloram pelo mundo? O que fazer para que a humanidade não repita a barbárie das décadas de 1930/40 na Europa?

A humanidade sempre erra quando pensa que está completamente vacinada contra esses males dos extremismos, das intolerâncias e dos preconceitos. Nunca esse vírus estará completamente debelado. Então, devemos permanecer vigilantes. De fato, aqui e acolá há insinuações de movimentos que não são simpáticos com as minorias, que flertam com antigas ideologias que pensamos que já teriam sucumbido. O melhor remédio é o do conhecimento histórico. É preciso que o passado seja revivido perante os nossos olhos constantemente e das mais diferentes formas, seja pelo trabalho dos pesquisadores nos museus, nas matérias da imprensa e, claro, por meio dos artistas, escritores, pintores, músicos. É preciso tematizar essas questões e colocá-las para discussão da sociedade como um todo.

 

Nesta mesma linha, como, sob seu ponto de vista, devemos combater as fake news?

Essa é uma pergunta difícil. Veja, por exemplo, eu sou uma pessoa, senão imune, muito pouco provável de cair em fake news. Você vai questionar o motivo. Creio que seja porque sou extremamente cético. E aqui está meu ponto: creio que esse cultivo de um saudável ceticismo é necessário. E isso se adquire na educação de base e através da educação científica. O cientista, antes de mais nada, é uma pessoa que duvida e que questiona sempre. Se é verdade que os ignorantes estão cheios de certezas e os sábios estão repletos de dúvidas, precisamos multiplicar o número de sábios oferecendo, na base da educação científica de qualidade, a formação de bons céticos.

 

Além de presidente da ARL, o Sr integra a direção da Associação de Amigos da Biblioteca Pública do Estado (AABPE). Qual é a importância do trabalho da Associação e como o Sr avalia o papel da Biblioteca Pública no cenário cultural gaúcho?

Vou começar pelo final. A Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul é um templo, um santuário. É um patrimônio absoluto da cultura gaúcha, representando uma das sete maravilhas de nossa cultura. Merece muito ser cuidada e ser conhecida pelo público. Nesta perspectiva, a AABPE, sob a liderança de um grupo múltiplo e de alto gabarito, sob a batuta do presidente Dr Gilberto Schwartsmann e do vice, que é de Erechim, Dr Alcides Mandelli Stumpf, trabalha em diferentes frentes, estimulando ações e incentivando atividades culturais. Por exemplo, a Associação promove ‘lives’ uma vez por mês entrevistando, sob coordenação do Gilberto e minha, grandes figuras da cultura, como Cláudio Moreno, Rosa Freire De Aguiar e Carlos Nejar. Também temos, enquanto AABPE, um prêmio literário (Mozart Pereira Soares), que é de abrangência nacional para jovens autores. Igualmente, auxiliamos a Biblioteca na manutenção das atividades de rotina, buscando fundos a partir da contribuição dos associados.

 

Recentemente, aliás, a AABPE aportou importante soma para dar início ao restauro do prédio da Biblioteca, no que o governo do Estado se somou à ação...

Realmente. A Biblioteca é sediada num prédio que completa 100 anos em 2022. A estrutura por si só é uma obra de arte e merece cuidado. Sua manutenção, todavia, demanda investimentos permanentes, que são caros. A Associação, sensível ao tema, deu início, com aporte financeiro, na recuperação dos afrescos do hall de entrada – que, na sequência, vai subir pela escada para a Sala Mourisco. Esse movimento inicial, digamos, foi encampado pela secretaria da Cultura e pelo governo do Estado, que percebeu o valor da ação e resolveu também colocar recursos no projeto. Esta é a forma de atuação pretendida para Associação, uma entidade da sociedade civil que atua em parceria com o poder público. Afinal, somos cientes de nossa realidade e sabedores de que as instituições culturais não são totalmente cuidadas e abraçadas pelo poder público. Ainda é preciso que as pessoas se organizam em torno delas para dar suporte. Enfim, posso dizer que a Associação é muito prolífica nas suas atividades, contribuindo, ainda, com o enriquecimento do acervo da Biblioteca. Recentemente, aliás, foi encontrado um poema inédito de Mário Quintana - original manuscrito – que, comprado pela Associação, foi doado à Biblioteca. Esta semana, adquirimos para o acervo da Biblioteca originais de uma das versões iniciais do solo de clarineta do Érico Verissimo, datiloscrito e corrigido a mão, o qual também passará a integrar o acervo de nossa Biblioteca. Creio, portanto, que a Associação de Amigos possa ser classificada como um “azougue”. Ela não para nunca e nem pensa em parar.

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