Entre os meses de fevereiro e março, a região enfrentou um momento delicado em razão da estiagem. Com isso, os diferentes setores foram afetados e no ramo leiteiro isso não foi diferente.
O engenheiro agrônomo, Assistente Técnico Regional da Emater e doutor em Agrossistemas, Vilmar Fruscalso, afirma que a atividade é, atualmente, uma das mais importantes economicamente e socialmente para a região e sofreu um grande impacto. Isso porque os resultados dependem essencialmente da produção de alimentos na propriedade e a nutrição dos animais ficou comprometida. “Como a estiagem afetou as pastagens, foi um momento crítico e de apreensão para o bovinocultor de leite. O gado não se alimentava direito, adoecia mais, o sistema reprodutor poderia ficar mais comprometido e, por consequência, ocorria a baixa de produção, pois havia perda tanto em quantidade como em qualidade”, explica.
Segundo Fruscalso, além da pastagem, a silagem de milho – principal alimento armazenado - foi extremamente afetada. “Em função da baixa umidade do solo, a produção caiu muito e a qualidade foi muito inferior”, pontua.
O engenheiro agrônomo que atua no Escritório Regional da Emater, destaca que, quando acontecem esses períodos de estiagem, o produtor pode usar algumas estratégias, tais como: se prevenir e guardar alimentos, armazenar produtos conservados: silagens, fenos e grãos, quando possível, por pelo menos dois anos. “Outro cuidado importante é armazenar água na propriedade, por meio de cisternas, açudes e, na medida do possível, implementar um sistema de irrigação. Trata-se de um investimento que possibilita um retorno e deixa o produtor mais tranquilo, pois ele sabe que sua safra está praticamente garantida, embora, eventualmente, possa haver falta de chuva na região”, salienta.
Região e realidades distintas
Outro ponto mencionado por Fruscalso é que o impacto da estiagem na atividade leiteira não foi igual em todas as localidades, considerando as realidades específicas em cada sistema adotado. “Quem depende exclusivamente da pastagem para a alimentação dos animais e possui reserva baixa de produtos conservados, teve prejuízos ainda mais expressivos e imediatos. No outro extremo, quem trabalha com o sistema confinado, tipo compost barn ou free stall, por exemplo, já possui uma reserva maior de alimentos ou comprou uma ração comercial e teve menos danos naquele momento, contudo, pensando a médio e longo prazo, esse produtor pode registrar problemas ainda maiores, considerando que depende exclusivamente do alimento conservado, que, neste período de estiagem, foi de baixa qualidade”, comenta.
Diante disso, o confinador precisará utilizar mais concentrados, como grãos e ração comercial que está com preço expressivamente alto.
Por falar em custos, uma expressão que preocupa rotineiramente os produtores, vale lembrar que vários são os itens que fazem parte do dia a dia de trabalho e os reflexos mais evidentes sobre os custos de produção iniciaram ainda da pandemia. “Vimos o aumento das commodities que esteve acompanhada pelo aumento do preço dos medicamentos, dos detergentes, da manutenção dos equipamentos e da alimentação. Desse modo, o impacto final sobre o preço do leite foi muito alto e a margem de lucro principalmente do pequeno produtor, baixou bastante e chegou a entrar no vermelho nos momentos mais críticos da pandemia”, recorda o doutor em Agrossistemas, citando que nos mercados, o preço do leite ao consumidor está mais caro mas não é possível baixar em razão de que o custo de produção se elevou, agregando o aumento significativo do farelo de soja, do milho, e esses são os principais insumos que compõe a ração animal.
Mais reconhecimento
Ao passo que a atividade leiteira é penosa, desafiadora, restringe folgas, tornando-se um trabalho de 365 dias por ano e que exige muito da família, como um todo, deveria ser mais valorizada e remunerada. Fruscalso enaltece que, toda a categoria e os profissionais integrados no ramo, almejam uma política de estabilidade de preços, com maior previsibilidade. “Isso nem sempre acontece e a partir do momento que começa a pandemia e, posteriormente, a estiagem, a rentabilidade da atividade leiteira reduziu bastante e não está de acordo com as dificuldades que as famílias enfrentam. Ao mesmo tempo, o leite é um alimento nobre, necessário e o produtor merece uma renda justa”, declara.
Investimentos contínuos
Do mesmo modo, a persistência é muito importante em todos os negócios. Na produção de leite, as dificuldades são expressivas, a exemplo da pandemia, seca, animais que adoecem por problemas parasitários, mastite, disparada nos preços de produção, problemas familiares, enfim, independentemente do cenário, é preciso persistir. “Se uma pessoa desiste, jamais saberá onde poderia ter chegado. É preciso saber que, ao passo que os investimentos são mantidos, logo a situação irá melhorar. É momento de buscar informação com as equipes técnicas, não deixar de fazer os investimentos básicos, evitar que o animal passe por algum tipo de necessidade, manter a mesma forma de produção, buscar reduzir custos, otimizar os processos, aumentar a qualidade e a escala de produção, e superar essa crise. Outra dica é buscar trabalhar em duas ou três pessoas para permitir folgas”, reforça.
Por fim, Fruscalso reitera que é preciso ter vocação para ser produtor de leite, mas é uma área que, se bem planejada e estudada, em anos normais, torna-se uma das melhores atividades disponíveis no Alto Uruguai.