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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Contorcionismo e Recompensa

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Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Por Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

O Sapateiro de Bruxelas, depois de breve período de constrição e celibato, retorna às adoráveis rodas de café com os amigos. O mestre nega-se a declinar as causas que determinaram seu temporário afastamento. Porém, há quem diga que foram motivações de ordem introspectiva desencadeadas por rudes questionamentos a seus posicionamentos nas redes sociais.

Particularmente, discordo de tais afirmativas, pois como é sabido e notório, o belga não frequenta “esses ambientes cibernéticos”, e tampouco valoriza detrações virtuais ou mesmo reais, de carne e osso.

De qualquer forma volta à cena em alto estilo, e discorre à turma do cafezinho sobre mais um tema tão interessante quanto curioso: contorcionismo.

Sim – diz ele -, versará hoje sobre a intrigante arte circense que tem como objetivo destacar ou exibir as incríveis possibilidades físicas de contorção do corpo humano. Tal arte é curiosamente reconhecida e admirada em todo o mundo, já desde a Antiguidade.

Sua prática é tipicamente desempenhada em espetáculos públicos – explica o belga -, pois não há o mínimo sentido em ficar se retorcendo em casa, em frente ao espelho, sem ninguém para ver – salvo pelo necessário e doloroso prazer do ensaio para o futuro aplauso, glória e reconhecimento público, aliás, como ocorre com as demais artes corporais.

Com estilo peculiar, o mestre aprofunda suas explicações um tanto desconexas:

- Geralmente as pessoas que praticam o contorcionismo possuem certa flexibilidade natural exacerbada, talvez hereditária. Ou seja, nasceram com esse talento, com esse dom, de transformar suas articulações e tendões em peças maleáveis como as do Homem Borracha, antigo personagem de Histórias em Quadrinhos. E mais: os pequeninos, que precocemente descobrem sua ampla elasticidade músculo esquelética, principalmente antes dos sete anos de idade, podem ter grande futuro na notável façanha de maravilhar as pessoas através do corpo desengonçado.

No entanto, passados os quinze anos, haverá maior dificuldade para desenvolver total flexão das juntas, que, aliás, como é de conhecimento geral, tendem a enrijecer e tornarem-se dolorosas com o avançar da idade – acentua o velho sábio, assumindo ares ortopédicos.

Mas ao entender do artesão, na época presente, o contorcionismo tradicional não está mais em voga. Foi substituído por um novo tipo de acrobacia que envolve flexões e torções não do corpo e sim da mente humana. Estamos vivendo tempos de Contorcionismo Mental e/ou Intelectual.

Este sim, embora não cumpra os pré-requisitos naturais ou de treinamento do contorcionismo físico clássico, está em franca evidência e crescimento acelerado na atualidade.

Continua o bruxelense em seus devaneios e variações um tanto descabidas:

- Com o advento da imprensa, da televisão e principalmente da Internet como via de comunicação e fórum de discussão, tornou-se possível a muitas pessoas nunca antes iniciadas ousar testar a sua flexibilidade mental e trocar experiências e imagens em diversas mídias, por vezes com resultados ridículos e até desastrosos.

Como se pode intuir pelo ambiente de livre estelionato moral vigente, esta prática deverá perdurar num futuro em longo prazo. No momento, por exemplo, encontra-se em franca e atordoante ebulição com a proximidade das eleições gerais.

Notadamente no setor das comunicações sociais, mais especificamente nas grandes redes de TV e jornais, além de algumas publicações menores, porém igualmente comprometidas com ideologias nefastas ou receitas escusas, há homens e mulheres que desempenham total subserviência e vassalagem ética, de acordo com atuais conchavos e conveniências vindouras.

Na prática, nós espectadores, elementos passivos nessa composição, somos obrigados a ver e ouvir, em nossas casas, coisas do tipo: “Infelizmente a gente vai falar de notícia boa”, pela CNN (27/5/21), “Economia dá sinais de despiora”, segundos despirocados da Folha (08/6/21), ou ainda o constante, enjoativo e pessimista telejornalismo tendencioso e manipulador da Globo.

Por outra, subcelebridades do show business ou do esporte são guindadas aos mais altos postos da filosofia contemporânea quando propalam qualquer asneira que – devidamente distorcida ou ampliada – passa a interessar aos contorcionistas mentais da atualidade. Isso acontece a miúde, e já se tornou natural. Racismo, sexismo, e todos os demais “ismos” viraram prato-do-dia para os contorcionistas preguiçosos de plantão.

Segue o artesão com sua verve afiada:

- Infelizmente é grotesco, se não deprimente, ter que conviver com a nova cultura circense e suas especialidades como malabarismo verbal, acrobacia moral e monociclo ideológico. Nesse picadeiro devemos ocupar ao mesmo tempo o lugar do púbico e do palhaço. Sem falar em ter que engolir a seco a espada e os espetáculos de ilusionismo que se tornaram as pesquisas eleitorais.

De minha parte, após tamanho destampatório, devo concordar que o belga - mesmo não sendo canário - anda com o bico muito comprido e por demais saliente e cantador. Portanto, o retorno à gaiola da obscuridade certamente lhe seria conveniente e merecido. Vamos convir que o velho está numa fase terrível, e deveria permanecer “chiuso”, em permanente clausura, sem direito a espernear, assim como os réus do STF.

E ao encerrar o Sapateiro de Bruxelas insiste e remata: “Contorcionismo na política é flexibilidade de recompensa...”.

 

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