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Opinião

Disputas discursivas na Capital da Amizade III

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Por Henrique Trizoto
Foto Divulgação

Encerrando a tríade sobre as disputas discursivas na Capital da Amizade, sem perder as ideias de “o que lembrar” e “para que(m) lembrar?”, analisaremos dois elementos que podem ser inseridos afim de produzir argumentações sobre sua importância para a construção da história e da memória de um determinado grupo social. Falaremos aqui, do esquecimento e dos lugares de memória, levando em consideração que o segundo já fora debatido na coluna de 09, 10 e 11 de outubro de 2021.

De acordo com Pierre Nora (1993), “os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não existe memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter os aniversários, organizar as celebrações, pronunciar as honras fúnebres, estabelecer contratos, porque estas operações não são naturais [...]. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É este vai-e-vem que os constitui: momentos de história arrancados do movimento de história, mas que lhe são devolvidos [...]” (NORA, 1993, p. 13).

Neste sentido, a cidade de Erechim conta com inúmeros lugares de memória, que podem acirrar as disputas discursivas, como o prédio da Comissão de Terras (Castelinho), Viação Férrea, Prefeitura, construções em madeira, construções em Art Déco e Art Noveau, e é claro, o Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font, que salvaguarda um cabedal gigantesco de documentos sobre a história de Erechim e região.

O que nos leva à última reflexão desta tríade: “Mesmo que nunca tenha existido uma arte do esquecimento [...], há muitos modos de induzir ao esquecimento e muitas razões pela qual se pretende provocá-lo. O “apagar” não tem a ver só com a possibilidade de rever, a transitoriedade, o crescimento, a inserção de verdades parciais em teorias mais articuladas e mais amplas. Apagar também tem a ver com esconder, ocultar, despistar, confundir os vestígios, afastar da verdade, destruir a verdade. Com frequência se pretendeu impedir que as ideias circulem e se afirmem, desejou-se (e se deseja) limitar, fazer calar, direcionar para o silêncio e o olvido. (ROSSI, 2010, p. 31-32)

O fragmento acima é áspero, todavia apresenta uma definição do cenário mundial. Apaga-se a História de Floyds e Genivaldos. Ressaltam-se discursos de ódio, negacionismo e fake news. É mais fácil reescrever uma notícia ou uma nota oficial sobre um evento, é mais fácil massificar um discurso de que a pessoa era “de cor”, tinha “aspecto de bandido” ou que a roupa “era um convite”.

Todos os processos históricos, independentemente da localização geográfica estão sujeitos a influências do meio, seja por intermédio do dinheiro, da política ou da ideologia daqueles que conduzem os meios de comunicação ou soft power local. Portanto, cabe sempre buscar um olhar que abarque as nuances de cada um destes processos.

Referências

NORA, Pierre et al. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Pro-grama de Estudos Pós-Graduados de História, v. 10, 1993.

ROSSI, P. O passado, a memória, o esquecimento. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

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