Neste inverno, o nosso tradicional “pinheiro brasileiro” é relembrado pelos pinhões (sementes) que chegam as chapas dos fogões ou as panelas dos gaúchos, catarinenses e paranaenses, como tradicional alimento de inverno.
Espécie florestal denominada cientificamente como Araucaria angustifolia (Bert.) O. Ktze, também conhecida popularmente como araucária, pinheiro brasileiro ou pinheiro do Paraná, foi e ainda é uma das espécies florestais nativas mais importantes do Sul do Brasil, que pertence a exuberante Floresta de Araucária, ecossistema único pertencente a Mata Atlântica.
O pinheiro brasileiro é um “dinossauro verde”, pois está na face da terra a mais de 260 milhões de anos. Sobreviveu a todas as catástrofes que abalaram nosso planeta, e diferentemente dos dinossauros, que sucumbiram, estão ainda conosco. Arvore fantástica e magnifica – verdadeiro cidadão vegetal, que nos dá abrigo (madeira para moradias), nos aquece e possibilita assar um churrasco (lenha dos galhos e cascas), fornece alimento (pinhão), remédio para os pulmões (da resina), artesanato (nós de pinho).
Originalmente cobria grandes áreas contínuas na Região Sul, estendendo-se para São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo na forma de pequenas manchas isoladas, principalmente nas regiões mais frias e altas destes estados. No Brasil, antes da colonização, as matas de araucária chegaram a estenderse por 185 mil quilômetros quadrados. Na Região Sul, um terço da superfície estava coberta por araucárias.
Estas árvores exuberantes começaram a tombar ainda na segunda metade do século 19 e, por mais de 100 anos, sua madeira de excelente qualidade (resistente e maleável), serviu para erguer casas, fabricar móveis, construir ferrovias e levantar cidades, não só no Brasil, mas no planeta, movimentando a economia de centenas de municipios.
Cerca de 100 milhões de araucárias nativas viraram toras nas serrarias do Sul e do Sudeste e, em 1963, a espécie representava 92% das exportações de madeira do país. A derrubada da araucária para uso da madeira atingiu seu auge na década de 1970 e a falta de plantios encerrou este importante ciclo econômico da região Sul do Brasil – o Ciclo da Madeira.
Da área original de floresta de araucária, que antes cobria as serras meridionais brasileiras, restaram apenas 2%, tornando-se o ecossistema mais devastado do país. Seu grande valor madeireiro a condenou à quase extinção no final do século 20 e, atualmente, a espécie se encontra incluída na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção (BRASIL, 2008).
O corte de araucária foi legalmente proibido no Brasil em 2001. Estas leis foram criadas visando principalmente à conservação da espécie. Mas, são leis burras, que só penalizam quem conservou ou preservou a espécie. Projetos de implantação de reflorestamentos com araucária nos dias atuais praticamente não existem, tendo em vista a falta de flexibilização e grande burocracia para o manejo. A proibição de corte não tem sido suficiente para frear o desmatamento, visto faltarem incentivos para mantê-las em pé, apoio técnico que mostre suas potencialidades, alternativas para a exploração, além de mais pesquisas relacionadas à espécie. Opções visando à obtenção de produtos não madeiráveis podem contribuir para a manutenção da araucária em pé, onde o foco na produção econômica do pinhão pode ser uma alternativa viável. A gastronomia à base do pinhão é rica e está presente em muitas festas que coincidem com a época de sua colheita (abril a agosto).
A araucária é uma árvore símbolo de muitas cidades e até de estados, como o Paraná. E também nome para muitos prêmios e condecorações.
O fato de não poder mais cortar as araucárias faz com que muitos agricultores, ao verem uma planta ainda pequena, a eliminem com medo de perder um pedaço de terra para cultivo no futuro. Ter um pinheiro adulto na propriedade significa a perda de 80 m2 a 100 m2 de terra para uso.
De modo geral, uma das ações mais efetivas no sentido da conservação da araucária é o incentivo à sua conservação mediante o uso, ou seja, para que produtores tenham interesse em salvar a espécie, será preciso que os mesmos vejam possibilidades reais de ganhos econômicos com o seu plantio.
Poucas são as pessoas altruistas, como o Sr. Genuino Cavaletti (pai de nosso companheiro Fabio Lino Cavaletti), que com 100 anos ainda plantava pinhão. Perguntado porque plantava pinhão, respondeu que “alguem um dia iria aproveitar”. Segundo Fabio, o pai Genuino, popularmente apelidado de “Senhor Gralha”, diz que ele plantou e colheu pinhão de quarta geração, ou seja, fazia replantio dos pinhões produzidos das araucarias que havia plantado.
Este “dinossauro verde” necessita de muitos Senhores Gralhas para perpetuar seus descendentes!