(Conto de Isaac B. Singer)
Na encosta de uma montanha ficava a aldeia de FRAMPOL. Seus camponeses eram pobres, a terra “teimosa” pouco produzia. Suas casas tinham telhado de palha e o chão de terra batida. No verão muitos usavam, os pés nus e no inverno os envolviam com trapos. Raramente se viam moedas de ouro e até os moradores considerados ricos pouco conheciam de luxos.
Mas os moradores de Frampol eram abençoados com belos filhos que cresciam altos e fortes apesar da comida escassa.
Então houve, num verão, uma grande seca nunca vista pela população. Sem chuva os grãos secaram e alguns feixes de trigo que conseguiram colher foram destruídos por uma chuva e granizo que se abateu logo depois. E então vieram os gafanhotos.
Foi quando aconteceu um milagre. Chegou em Frampol um carro puxado por oito cavalos ariscos trazendo um jovem. Era alto e pálido, com uma barba preta, olhos escuros, com um chapéu de pele, sapatos de fivelas prateadas e um lindo kaftan. Contou ao povo que era um médico de Cracóvia que havia perdido a mulher e o filho no parto. E que a conselho de um rabino veio a Frampol onde encontraria a cura e a paz para sua tristeza.
E começou então um período de fartura para os moradores da aldeia. O jovem cavalheiro distribuía dinheiro, promoveu a compra de alimentos e organizou festejos mesmo em período proibido pela lei judaica.
O rabino local, preocupado, aconselhou os moradores a não infringir os ditames religiosos, alertando-os que haveria perigo nessas desobediências. Mas acabou aceitando ante a grande insistência de seus “paroquianos”.
Então houve um grande baile preparado pelo cavalheiro para que as moças e os rapazes escolhessem seus pares, ou seja, seus noivos. Houve muitos comes e bebes, jóias e lindos vestidos para as moças. E muita música e danças que não davam trégua aos dançarinos que pareciam hipnotizados.
Foi quando, de repente, toda a aldeia incendiou-se. E tudo foi destruído pelo fogo. O chão transformou-se num charco de lama e cinzas. E se deram conta que estavam nus, que não havia mais nada de pé e até os bebês em seus berços eram apenas ossinhos tisnados.
E o cavalheiro de Cracóvia? Revelou-se uma criatura coberta de escamas, com um chifre na testa, pelos nos braços e uma causa de serpentes vivas. Era o chefe dos diabos – o KETEV M’RIRI.
Foram os vizinhos de outras aldeias que então trouxeram ajuda e conforto aos desesperados moradores de Frampol.
Este é um resumo de um dos vários contos do famoso escritor Isaac B. Singer. Resumi, pois a história de arrepiar é bem mais longa e feia, mas no fundo guarda uma lição - é necessário se preservar quando aparecem cavalheiros oferecendo maravilhas, milagres e promessas que podem nos levar à destruição.
Principalmente nestes tempos...
(Vale a pena ler todo o conto).