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Opinião

Ratanabá(s)

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Henrique Trizoto
Por Henrique Trizoto
Foto Divulgação

Há alguns dias a internet brasileira foi invadida pela lenda da cidade perdida de Ratanabá na Amazônia. Fenômenos como este ocorrem periodicamente em todo o mundo, e com o advento das redes sociais, ganham proporções gigantescas. Analisar a constituição destes fenômenos não é simples e nem simplista. Enquanto Ratanabá povoava o imaginário de um determinado grupo social, uma descoberta publicada na revista alemã Nature em 25 de maio pode alterar por completo a história do povoamento na América do Sul: ela “localizou dois sítios arqueológicos na Planície Llanos de Mojos, na Amazônia Boliviana, com pirâmides de até 22 metros e “assentamentos urbanos de baixa densidade”, segundo os pesquisadores. Duas áreas da cultura Casarabe foram descobertas, que datam entre os anos de 400 d.C. até 1400 d.C, ou seja, antes da colonização espanhola” (UPF, 2022).

Como podemos imaginar, esta descoberta ficou relegada ao “ostracismo social”. O Arqueólogo Fabricio Vicroski professor colaborador do PPGH e do NuPHA da UPF aponta na mesma matéria alguns elementos que diferenciam o que é fake News e o que é estudo científico: “Verificar se a pesquisa foi autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN); Verificar quem é o(a) arqueólogo(a) responsável pela pesquisa; Verificar qual é a instituição apoiadora da pesquisa; Verificar qual o conhecimento já disponível sobre o sítio arqueológico em questão; Verificar a posição dos demais pesquisadores e comunidade científica” (UPF, 2022).

Este preâmbulo é um exemplo da complexidade das relações entre conhecimento e informação. Primeiramente, elas não são sinônimas. No caso dos arquivos históricos, essa tese é ainda mais aplicável. Por exemplo, ao analisarmos o Governo Zambonatto (MDB, 31 de dezembro de 1973 e 31 de janeiro de 1977), que não teve nenhuma de suas proposições aprovada na Câmara de Vereadores é uma informação, e a partir dela inúmeros julgamentos são tecidos.

Todavia, se cotejarmos essa informação com relatos do período, e analisarmos o cenário, a sentença muda. Ter minoria na Câmara de Vereadores, por si só explicaria as não aprovações. Mas vamos inserir mais elementos: no período o Brasil vivia o ápice do Regime Militar, onde a Arena dava as cartas do jogo em todas as esferas políticas, ser de oposição era praticamente um crime. A patrulha ideológica e o imaginário anticomunista colocavam todos que pensassem diferente como possíveis subversivos. Contribuía ainda, o fato de os órgãos de imprensa serem pró-regime, os que não eram, tinham sérios problemas.

Neste sentido, Bloch (2002, p. 83) é esclarecedor: “não obstante o que por vezes parecem pensar os principiantes, os documentos não aparecem, aqui ou ali, pelo efeito de um qualquer imperscrutável desígnio dos deuses. A sua presença ou a sua ausência nos fundos dos arquivos, numa biblioteca, num terreno, dependem de causas humanas que não escapam de forma alguma à análise, e os problemas postos pela sua transmissão, longe de serem apenas exercícios de técnicos, tocam, eles próprios, no mais íntimo da vida do passado, pois o que assim se encontra posto em jogo é nada menos do que a passagem da recordação através das gerações.

 Portanto, cabe, com efeito, aos profissionais científicos da memória, antropólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos, fazer da luta pela democratização da memória social um dos imperativos prioritários da sua objetividade científica. [...] (LE GOFF,2013, p.436). Em suma, uma informação descolada, editada ou fora de contexto podem acarretar pré-julgamentos, distorções, campanhas difamatórias e a desinformação. Isso serve a quem não tem apreço pelo conhecimento científico, a pluralidade de ideias e pela democracia de fato e de direito.

Referências

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013.

Verdade ou mentira? Como identificar as notícias falsas em pesquisas arqueológicas. Disponível em: https://www.upf.br/noticia/verdade-ou-mentira-como-identificar-as-noticias-falsas-em-pesquisas-arqueologicas?

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