Pensar sobre história de Erechim é, sobretudo, um exercício de compreensão sobre os fluxos (i)migratórios que compuseram a mecânica social do município. É também, por consequência, um exercício de aceitar a diversidade na unidade. Pode parecer estranha esta última sentença, mas ela ajuda a explicar como e por que Erechim tem sua mentalidade atual.
A historiografia oficial do município valoriza as teses oriundas das propostas gestadas nas fileiras do Partido Republicano Riograndense (PRR), em que se propôs uma sistematização para a colonização da região norte do Estado. Era considerada a solução perfeita: resolvia o problema das terras devolutas e organizava o povoamento, tendo em vista que na região encontravam-se negros, caboclos e indígenas apenas.
No período que compreende a estruturação deste processo, o Brasil ainda era fortemente impactado pelos eventos que foram desencadeados pela Lei Áurea que aboliu a escravidão no país. Fora incentivado por meio de políticas públicas a imigração com o intuito de branquear a população e construir uma mão de obra livre. De acordo com Azevedo (1987, p. 63) acreditava-se que existia uma “[...] ligação explícita e até mesmo orgânica entre branco e trabalho livre e, portanto, liberdade/progresso/civilização, o que por sua vez implica pequena propriedade/cultura intensiva e diversificação/desenvolvimento”.
O mesmo autor aponta que existia uma mentalidade cristalizada no bojo da sociedade que “o negro se definia pela falta disso tudo, ou pela negação do que é bom, do que é ideal. O negro era o real a corrigir, pois denotava a própria escravidão e, por conseguinte, trabalho compulsório/atraso/barbárie e imoralidade, o que implicava grande propriedade/monocultura extensiva e rotineira/estagnação”. (AZEVEDO, 1987, p. 63).
Nesta mesma linha, Silva (2019, p.48) reitera que “os imigrantes europeus brancos são vistos como uma alternativa aos negros e africanos submetidos à mão-de-obra escrava, alinhada a um entendimento de que os primeiros tinham uma cultura ou natureza mais adequada ao trabalho livre. Portanto, com o fim da escravidão, de nada adiantaria os negros que aqui já estavam, esses não eram capazes de produzir na lógica do trabalho livre”.
Portanto, o cenário brasileiro apresentava profundas contradições sociais e econômicas fruto de 388 anos de escravidão. Apegou-se a culturas agrícolas cuja força motriz de trabalho era o escravo, para alcançar o desenvolvimento econômico era necessário fomentar mudanças que acarretassem a modernização das relações de trabalho, inserção de fato no modelo capitalista de produção e consumo.
Este preâmbulo é a primeira parte de uma série de reflexões sobre a constituição do município de Erechim a partir da análise do contexto que gerou as políticas públicas de âmbito federal e estadual que possibilitaram a criação da Colônia Erechim, sua emancipação e a política imigratória multiétnica para ocupação das terras.
Referências
AZEVEDO, Celia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
SILVA, Marina Albugeri da. Racializando o branco ou desvelando a branquitude: a política de imigração e colonização no Rio Grande do Sul (1875-1889). 2019.