Uma porta fechada, sem chave, nem sempre necessária em tempos de respeito ao próximo e ao que era do próximo.
Uma cerca de ripinhas ou arame farpado. O portão era fechado com uma simples tramela.
A porta nos protegia até do que não gostávamos de fazer, isto é, ficar dentro de casa. Sempre estávamos dispostos a conversar e brincar na frente da casa com as amigas.
A porta fechada era sinal negativo.
A cerca era a grande proteção contra os cachorros e o gado que passava solto indo para o abatedouro, após ser retirado do grande Curral pelos tropeiros, acompanhados pelos ferozes cachorros buldogues. Que medo! Ainda menininha e franzina, ao voltar da escola, era comum encontrar o gado e os cachorros. Quanto medo!
De ladrões e homens maus, não havia medo. Pois, se existiam naquela época, havia a porta e a cerca!!
Muito antes disso, eu sentia o medo da lua cair do céu. A cada fim de semana meus pais iam “de filó” na casa de amigos, ou algum amigo vinha a nossa casa.
Meu pai me colocava de “cavalinho” no seu pescoço. A lua, espantosamente caminhava conosco. Como entender aquilo? Medo terrível que eu não contava a ninguém.
Havia a incompreensão amedrontadora da figura de mel no céu. Eu a via seguidamente lá no alto. Medo!
Ninguém acreditava que aquela figura cor de citrino se mostrava para mim.
Tempos de medos aterradores!
Novos medos foram se apresentando com o andar implacável do tempo. Na escola, as freiras nos marcavam a alma com ferro e fogo com a figura do Deus Barbudo, severo a nos vigiar constantemente, e conhecedor dos nossos pequeninos pensamentos.
Embaixo, bem lá no fundo, (eu me perguntava: embaixo do quê?) havia o diabo, Belzebu com seu rabo peludo e seu tridente para arrastar os pecadores para o fogo eterno.
As freiras nos assustavam também com o pecado original. Eu me negava a aceitar que ao nascer, eu havia recebido aquela herança. Me revoltava, mas o medo me fazia colocar pedrinhas nos sapatos, ao ir à missa dominical. Os pés sangravam, mas ao menos eu ia saldando aquela dívida que eu não fizera.
Mais adiante apareceu a figura não de mel, mas humana, Medo! O dono de uma empresa ficava todos os dias observando o grupo de meninas do Colégio, na ida e no retorno das aulas.
Ele começou a chamar a mais graciosa delas e oferecia guloseimas que ela as recebia no interior de uma sala. Nós, as preteridas, ficávamos longe para ganhar da bondosa amiguinha as delícias que ela trazia.
Somente mais tarde soubemos o significado dos presentes. Mais um medo se instalou em nosso pequeno grupo de estudantes. A irmã Diretora alertou todas as meninas. A partir de então, passávamos correndo diante da porta do estabelecimento. Corríamos tanto, que inúmeras vezes se perdia até um pé de sapato. E, para buscá-lo, voltava o grupo todo, em guarda contra o mal.
Lembro um poeta que dizia: “as portas e cercas nos deram abrigo, lá na infância. Se foi prêmio ou castigo, só o tempo dirá”.
O senhor tempo nos mostra hoje, a inutilidade de portas e cercas. Tudo é alcançável pelo indigno, pelo mau, pelo sem consciência.
Os medos novos são uma constante.
Quando um ser amado sai a noite com amigos, a família reza diante da cruz ou de seu santo protetor, pedindo proteção contra as drogas, más companhias, e todo tipo de mal.
Novos e tenebrosos medos nos tiram a paz e a luz da esperança. Medo e dúvidas da Internet, das mentiras espalhadas. Há medo, indecisões e questionamentos diários. No que acreditar?
Há um medo brutal das manifestações da natureza que de tanto ser desrespeitada, está reagindo fortemente e já estamos pagando pelos nossos erros. Outrossim, há o medo dos péssimos humanos que corrompem as leis e as usufruem a seu bel prazer. Medo do agir sinistro e diabólico dos corruptores de almas, que são construtores de ideias maléficas.
Medo paralisante de que nossa Pátria afunde no lodo pútrido quando alguns devassos dançarão sobre nossa dor e desencanto.
Como ser complacente com um universo transformado pela ganância e desejo de poder?
O mundo hoje, vive uma época onde o obscurantismo apaga as luzes da moral, da ética, da espiritualidade e nos empurra para a quase barbárie.
Tenho saudade dos medos antigos, quando a porta e a cerca nos davam abrigo!!