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Opinião

Lembro, logo existo (III)

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Por Henrique Trizoto
Foto Divulgação

Encerrando a tríade: Lembro, logo existo, abordarei a relação das comunidades quando recebem “estrangeiros”, pessoas de fora do grupo social, perpassando pelos impactos e a consolidação de posturas como a de repelir ou aceitar determinado indivíduo ou grupo de indivíduos.

O primeiro elemento a ser debatido é “a distância entre o 'pensar como de costume' da comunidade onde chega e a comunidade que deixou para trás é o que confere ao estrangeiro a 'estranheza' de sua condição. fazer parte deles, pode identificar-se ou distanciar-se deles, pode sentir-se apaixonadamente apoiador ou rejeitar apaixonadamente o que está em jogo. Essa experiência de conectividade é o que produz a psicologia do pertencimento, a sensação de que se encaixa em um meio cultural, entende o que é dado como certo e se comunica sem precisar ser explícito o tempo todo” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 68).

Uma comunidade com sentimento de pertença se mantém firme a partir do momento em que “o conhecimento comum das comunidades, ou o mundo da vida, fornece os pontos de referência, os parâmetros, os recursos contra os quais os indivíduos dão sentido ao mundo ao seu redor, desenvolvem as competências teóricas e práticas para lidar com o cotidiano e estabelecer as relações comunicativas que permitem o desenvolvimento de laços de solidariedade e cooperação e a experiência de pertença. Tanto produzido pela comunicação como produtor da comunicação, o mundo da vida envolve a superação de distâncias e múltiplas perspectivas por meio de um esforço que cria o intersubjetivo” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 68).

Um exemplo significativo disso é a relação que algumas pessoas possuem com a cidade de Erechim. Suas memórias afetivas relacionadas a Igreja Matriz, Cine Apolo, Café Grazziotin, Cine Ideal, Castelinho etc., evocam o pertencimento daqueles que a décadas moram longe da Capital da “Amizade”. Essa consolidação do sentimento de comunidade, sofre um abalo quando pessoas de fora se instalam.

Para a comunidade, por outro lado, o estranho faz perguntas embaraçosas, se comporta fora do padrão. A ausência de conhecimento comum ligando estranho e comunidade revela com grande precisão o papel psicológico social fundamental do conhecimento comum e compartilhado na ligação da vida individual e comunitária e na produção da experiência de pertencimento (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 68).

Os dois eventos de maior destaque que referendam esse processo ocorrem ao longo da última década: a consolidação do ingresso ao ensino superior via SISU e a imigração de grupos humanos oriundos de diversos países da América Latina e da África em busca de novas oportunidades de emprego, renda e dignidade. A inserção de grupos humanos com costumes diferentes acaba gerando desconforto, independente do local em que estejam, pois para uma parcela das comunidades, o conceito de cultura é, basicamente aquilo que gostam.

Portanto, esta estranheza acaba sendo um dos pontos que limita as interações entre membros da comunidade e os “estrangeiros”, a não ser, que estes adotem como seu o modus operandi da comunidade. A cultura é fluída, e sempre que é colocada em uma caixa, acaba consolidando narrativas e monumentalidades que são fragmentos fruto da correlação de forças entre o que deve ser lembrado e o que deve ser silenciado.

 

Referências

JOVCHELOVITCH, Sandra. Representações sociais e espaço público: a construção simbólica dos espaços públicos no Brasil [Social representations and public life: the symbolic construction of public spaces in Brazil]. Vozes, 2000.

 

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