A questão da ocupação da terra foi um dos principais motivos para a formação da Colônia Erechim. Escrevemos sobre esta temática nos artigos que falavam sobre a imigração e sobre a constituição da Colônia.
A proposta de criar uma Colônia baseada na pequena propriedade, tinha o intuito de ocupar a terra e abrigar o maior número possível de famílias engajadas no desenvolvimento da região por meio da policultura. Mesmo sendo grande produtora de milho (vide a Festa do Milho de 1940) e trigo (3ª Festa Nacional do Trigo em 1953 – a maior safra do Brasil), frutas, verduras, legumes e grãos eram produzidos paralelamente para o abastecimento local.
A proposta visava combater a grilagem e a ocupação da terra por negros, caboclos e indígenas, que em tese, no período não estavam contemplados no processo de expansão da região. Ao mesmo tempo, a escolha pela pequena propriedade policultora visava também atenuar a luta pela terra como ocorria em outras regiões.
Trago o exemplo do documentário “Terra para Rose” de 1987, dirigido por Tetê Moraes, que ao longo de sua 1h 23min retrata a luta pela terra e pela reforma agrária. As personagens de destaque inseridas na produção são Bolívar Anoni (proprietário da fazenda Anoni), Cerly, Dante de Oliveira, Ema, Marcos Freire, Padre Arnildo Fritzen, Luci, Nélson Ribeiro, Rita, Rose, Lucélia Santos (em uma manifestação e narrando o documentário), além do então presidente da República José Sarney, deputados constituintes como Mário Covas e Aécio Neves, ambos do PMDB além de ministros.
Mesmo apresentando um desfecho trágico com a morte de Rose atropelada por um veículo desgovernado, e por isso recebendo como homenagem póstuma o título da obra, ele não é sensacionalista. Tem um traço ímpar de sensibilidade ao captar a estruturação do Acampamento na Fazenda Anoni, a marcha rumo a Porto Alegre, o acampamento em frente à Assembleia Legislativa do Estado e o desfecho de todo este processo.
O exposto, nos permite tecer duas reflexões principais: a primeira faz menção à importância do poder público na estruturação do processo de ocupação da terra, e a segunda pode ser resumida em uma pergunta: “terra para quem? ”
A preocupação com a ocupação da terra é antiga e atual ao mesmo tempo, pois remonta da Lei de Terras de 1850 e virou notícia nas últimas semanas com o garimpo ilegal em terras indígenas Yanomamis. É, portanto um tema sensível, envolve os donos do capital e a bancada rural ditando os rumos e os movimentos sociais buscando aparar arestas. É, em suma é perceptível nos projetos oficiais de ocupação da terra parcelas significativas da população foram excluídas tanto na zona rural como na urbana, e em algum momento forçaram ocupações irregulares.
Referências
CASSOL, Ernesto. Histórico de Erechim. Passo Fundo: Cese/Instituto Social Padre Berthier, 1979.
PIRAN, Nédio. Agricultura familiar: lutas e perspectivas no Alto Uruguai. EdiFAPES, 2001.
PSIDONIK, Jorge V. Luta por moradia em Erechim/RS: a ação do movimento popular urbano. 2019.