Dormir é algo necessário. Os sonos de todos os seres me deixaram curiosa desde garotinha. Os morcegos, por exemplo, dormem de cabeça para baixo. Os habitantes de algumas tribos africanas dormiam de pé, com uma perna apoiada na outra, altura do joelho.
Nossos irmãos nativos usavam redes e seus corpos ficavam quase em posição fetal, que, na opinião de cientistas, é uma ótima posição.
Os faquires, se é que ainda existem, dormiam em um lastro forrado com pregos invertidos, isto é, as pontas para servir de apoio ao corpo.
Inúmeras pessoas, por diversos motivos, dormem sentadas. Outras, basta sentar comodamente, a qualquer hora, começam a dormir.
Certa ocasião, uma situação igual aconteceu-me e passei a maior vergonha. Haveria um Curso de um único dia na PUC, com um renomado egiptólogo. Viajei toda a noite pois era algo muito importante. Das 9h até 11h tudo correu bem. Porém, das 14h em diante, momentos em que aconteceriam as demonstrações das escavações recentes do egiptólogo e sua equipe de arqueólogos em Sakkara, dormi. Meus professores, colegas e tantos outros, assistiram ao magnífico acervo demonstrado e que tanto me interessava e ao mesmo tempo me viam nos braços de Morfeu!
Uma colega de Santa Maria me acordou dizendo-me que eu dormira mais do que ela!
Sabemos que o homem primitivo dormia no duro do chão. Depois o fez sobre peles. Logo a seguir (talvez centenas de anos) utilizou folhas, palha etc, sobre ou enroladas nas peles.
Milhares de anos transcorreram e já no Renascimento, grande avanço: colchões de pena e feno foram criados. Novo e surpreendente avanço no séc. XVI, apareceram colchões colocados sobre treliças de cordas fixas em uma estrutura de madeira.
A História conta que em 1881, um fabricante de máquinas de descaroçar algodão começou a fabricar colchões estofados com algodão.
A Revolução Industrial trouxe algo novo: a mola de aço em espiral e com isso, apareceu para a delícia dos humanos, o colchão de molas.
Os nascidos no século XX, foram afortunados ao disfrutar de colchões de espuma de poliuretano nos dois lados, não mais preenchidos, como eram alguns de capim, vegetais ou outros. O progresso na fabricação de colchões não tem um final, nunca. Hoje temos tratamentos contra fungos, bactérias; os anti mofo, anti manchas, etc, etc.
Mesmo com o progresso, ainda se encontram quem não pode comprar, ou decidiu usar um modelo antigo de colchão.
Quando iniciei minha primeira faculdade em Passo Fundo, década de setenta, fomos em quatro meninas de Erechim alugar dois quartos em apartamento de um casal de idosos. Havia ali dois tipos de suplícios maiores que outros: no café da manhã e no lanche da noite, participávamos junto com o casal. O senhor, com a mesma colher retirava o açúcar, mexia o café e a colocava na boca, num sem fim de vezes. A mesma coisa com o mel, a goiabada e com a sopa.
O outro suplício era o colchão. Já na segunda noite começou minha batalha com o meu que, como os das outras meninas, era de palha. Eu, sentindo todos aqueles nós que me incomodavam, colocava as mãos em uma abertura do mesmo e ia tirando de dentro uma a uma aquelas ex-espigas de milho, de onde só elas haviam sido retiradas sobrando toda a palha e o caroço que as unia. Todas as manhãs havia um monte de caroços com palha no chão e antes do café eu os colocava dentro do suplicioso colchão. As outras colegas mexiam e remexiam a palha, mas não tinham coragem de tirá-la e jogá-la no chão.
Hoje, ao resmungar pelo pequenino defeito de um colchão, respiro aliviada por não ser ele um colchão de palha. Ao mesmo tempo recordo das entrevistas que fiz ao longo dos anos com imigrantes e descendentes deles, que no doloroso início da colonização dormiam sem colchão algum, às vezes ao relento, outras sobre pelegos. Todos deveriam conhecer a saga corajosa desses ancestrais e agradecer ao colchão que possui.