Memórias de Viagem
Cada povo, por várias influências – de clima, ambiente geográfico, modo de vida – acaba criando uma cozinha própria. De certa forma, até o caráter de um povo transparece na cozinha. A simplicidade do churrasco na campanha gaúcha mostra a naturalidade e a determinação do gaúcho. Os descendentes de alemães mostraram isso aqui na nossa região. Sempre que ofereciam um churrasco não faltava a cuca para acompanhar. Bem ao gosto do alemão apreciar o salgado com o doce.
Reminiscências
Os descendentes que aqui chegaram tiveram seus ancestrais vindos da Região do Hunsrück. Esta região é de floresta montanhosa, tendo sempre sido uma das mais pobres da Alemanha. Encontra-se limitada por dois rios principais o Reno e o Mosela e por seus afluentes o Ruwwer e o Nahe. A região limitava com a França e já havia pertencido àquele país, em outros tempos. Isso explica a origem de certas palavras usadas, uma culinária diferenciada do restante da Alemanha e o prazer pelos vinhedos e seu vinho. Hoje em dia, existem mais descendentes do Hunsrück no Brasil do que no país de origem.
Vinha
O colono alemão, na nossa região, plantou videiras mais para consumo da fruta do que para vinho. Este era produzido para consumo próprio e muito pouco comercializado. A uva era muito usada para fazer as “schimier”. Faziam na estação da fruta e depois era guardada em vidros ou caixas forradas com papel celofane, para consumir durante o ano. Preparavam suco e também faziam uma espécie de licor. Este consistia em colocar grãos de uva na cachaça com um pouco de mel. Ficava guardado no escuro, por um tempo e depois consumido. Acreditavam que servia também como xarope em resfriados e gripes.
Apesar da cultura da vinha estar hoje associada às colônias italianas do RS, a história registra que foram os colonos alemães do Vale do Caí que forneceram as primeiras mudas e ensinaram as técnicas de plantio aos descendentes de italianos que haviam fracassado nas tentativas iniciais do seu plantio. Em São Leopoldo, havia vinhedos no início da colonização alemã, mas foram, mais tarde, abandonados para se dedicarem somente à produção de uvas de mesa.
Conservas
Gostavam muito de fazer conservas. Hábito trazido da Alemanha, pois lá o inverno é muito rigoroso e longo, então é necessário guardar para quando não for a época da safra. Assim, faziam conservas com os produtos abundantes na época do verão. As frutas também eram guardadas nas despensas: a maçã, a pera, o figo, o pêssego. Estas eram estocadas em vidros com calda de açúcar ou eram desidratadas. Esta técnica era muito usada pelos colonos. Aproveitavam as colheitas sazonais das frutas para serem depois consumidas também em Festas e outras oportunidades. Nas comemorações eram servidas grande variedade de sobremesas de frutas, a tal ponto que se dizia no dialeto Hunsrück: “Dot waare siebe Süss un noch – Dachpeche dazu” = Lá haviam sete tipos de doces, além de “pêssegos de telhado”- referência a pêssegos secos ao sol.
Pães
O trigo era abundante na nossa região e os pães eram de vários sabores e formatos. Assados nos fornos a lenha eram sempre feitos com capricho e para as crianças possuíam formato divertido. Uns em formato de bichinhos, outros em forma de flores ou frutas. Era o lado brincalhão dos alemães.
Café da tarde
Os alemães não dispensam o café ou mesmo o chá da tarde sempre acompanhado de cucas, pães e bolachas. Em casamentos, as avós eram as encarregadas de arrumar extensas mesas com os doces da tarde acompanhados por grandes bules de café. As senhoras, nos encontros semanais nas suas igrejas, também faziam uso desse hábito. Hoje, isso permanece, principalmente na Igreja Sinodal. Muitas quermesses beneficentes, aos domingos e feriados, serviam para angariar fundos com suas mesas de iguarias e café.
Época do Natal e Páscoa
Estas festas são muito valorizadas na Alemanha e seus descendentes continuaram com essas tradições. Nessas épocas, a cozinha se transforma numa padaria. O perfume do mel e da canela permeia por toda casa. As crianças podem beliscar um pouco os doces, mas rapidamente as bolachas somem e são guardadas em latas, em lugar seguro, de preferência bem ao alto, onde ficam até chegar a festa. As cucas de mel também são guardadas. Elas possuem, como as bolachas, formato de figuras como coração, estrela e outros.
Memória de infância
Quando criança, como vizinha tínhamos uma senhora a Dona Camilla. Era de origem alemã e mantinha todos os hábitos inerentes à sua descendência. Tudo nela era impecável. Gostava de fazer doces e aproveitava muito bem as variadas frutas do seu pomar. Mas nunca esquecerei os “figos coloridos”. Somente ela os preparava. Nunca mais os encontrei. Eram colhidos ainda um pouco verdes. Fazia uma calda grossa com açúcar e canela, os cozinhava e depois os escorria. Ficavam gordinhos com a calda dentro deles. Então, os passava no açúcar colorido e os colocava, num tabuleiro, ao sol para secar. O meu prazer era ficar na janela olhando aquelas frutas de todas as cores: vermelho, amarelo, azul e verde. Logicamente, sempre ela nos brindava com alguns. Uma inesquecível lembrança.
Conclusão
No início da colonização, aqui realizada pelos descendentes de alemães, o café da tarde era um evento muito importante em todas as festas. Grandes bules serviam um gostoso e quente café. Entre os muitos doces não faltava o gostoso pão de milho colonial de casca preta. Aqui, na região, nas festas de casamento na colônia alemã não podia faltar uma boa bandinha com gaita de botão, instrumentos de corda e sopro. “Cada povo deixa algo na história, seja na cozinha, na casa, no modo de vida, no afinco ao trabalho e em outros aspectos. Alguém já disse que o ideal seria juntar a casa alemã, a cozinha italiana e a vida brasileira”.