O goleiro Caíque, um dos destaques do Ypiranga na temporada e que foi vítima de injúria racial no sábado (20), durante a quarta rodada do Campeonato Brasileiro Série C, gravou um vídeo em que se pronuncia sobre o ocorrido. “É algo que está acontecendo de forma recorrente nos estádios e espero que este tenha sido o ponto final disso tudo”, declarou o camisa 97 do Canarinho.
Na gravação, ele lembrou ainda das recentes ocorrências envolvendo Vini Jr, na Espanha e disse: “Eu fico muito triste por estar aqui falando sobre essas coisas, porque as pessoas acham que a cor, a raça, definem quem é a pessoa, que a pessoa seria diferente. Mas não, isso não importa. O que importa é que todos somos iguais. Se não gostar, ok, não tem problema, basta respeitar o próximo”.
O caso envolvendo Caíque ocorreu logo nos primeiros minutos da partida contra o Altos, em Teresina, no Piauí. Aos 8’, o jogo estava parado para cobrança de um tiro livre indireto quando um torcedor proferiu a ofensa. Caíque relatou o fato para o árbitro, que acionou o quarto árbitro, que por sua vez informou ao delegado da partida, que acionou a Polícia Militar. O torcedor foi identificado e levado para a Delegacia de Polícia.
“Tem que começar a falar”
Em entrevista para o GE após a partida, o goleiro afirmou que não foi a primeira vez que sofreu ataques racistas em campo. “Todas as vezes em que ouvi esse tipo de fala eu fiquei calado, mas acho que a gente tem que começar a falar. Acho que mancha o espetáculo. Espero que ele tenha consciência do que fez, que eu tenho certeza que ele não vai repetir mais isso”.
Prisão em flagrante
Na Delegacia de Polícia, o torcedor foi preso em flagrante, mas teve liberdade provisória concedida no dia seguinte, após passar por audiência de custódia. Para não ser preso novamente durante o andamento do processo, ele deverá cumprir medidas cautelares, entre elas, ficar em casa durante a noite e nos dias de folga, não frequentar estádios, não se ausentar da Comarca de Teresina e comparecer a cada dois meses na Central Integrada de Alternativas Penais.
Técnicos se pronunciam
Na entrevista coletiva após o jogo, o técnico do Canarinho, Luizinho Vieira disse que “é sistemática a questão do racismo, é inadmissível na verdade, mas estamos em um país que não consegue punir as pessoas. É uma má vontade para resolver o problema, e aí a gente fica sofrendo. Acho que já passou do ponto”.
Já o técnico do Altos, Sérgio Soares, falou que “no tempo em que vivemos hoje não pode mais ter isso, o Caíque está certo. Isso é um absurdo e lamento que seja um torcedor do Altos. Acho que o clube tem que tomar providências, tem que identificar. Não se pode estar em lugar coletivo e ter uma atitude como essa. Tanta bandeira sendo levantada para que isso seja disseminado em nossa sociedade, e a gente vê ainda esse tipo de coisa”.
Nota oficial do Ypiranga
“O Ypiranga Futebol Clube vem a público externar seu apoio ao atleta Caíque L.S. da Purificação que foi vítima de ato de racismo por parte de um torcedor da equipe do Altos.
O clube Ypiranga repudia veementemente este comportamento que não se alinha aos valores esportivos e humanos da nossa sociedade.
Por um mundo mais fraterno, igualitário e sem discriminação”, divulgou o Ypiranga.
Nota oficial do Altos
“A Associação Atlética de Altos vem a público repudiar e lamentar o caso de injúria racial envolvendo o atleta Caíque, goleiro do Ypiranga. É inadmissível que cenas como essa ainda se repitam nos dias atuais. O preconceito, seja ele por raça, orientação sexual ou qualquer outra "diferença", precisa ser combatido e seus autores punidos com veemência”.